Direitos da Personalidade Sumário: 1 Importância da matéria 2 Conceito e denominação 3 Natureza dos direitos da personalidade 4 A
6. CARACTERÍSTICAS DOS DIREITOS DA PERSONALIDADE
Sendo direitos ínsitos à pessoa, em suas projeções física, mental e moral, os direitos da personalidade são dotados de certas características particulares, que lhes conferem posição singular no cenário dos direitos privados.
Assim, os direitos da personalidade são: a) absolutos; b) gerais; c) extrapatrimoniais; d) indisponíveis; e) imprescritíveis; f) impenhoráveis; g) vitalícios22.
Analisemos cada um desses caracteres separadamente.
6.1. Caráter absoluto
O caráter absoluto dos direitos da personalidade se materializa na sua oponibilidade erga
omnes, irradiando efeitos em todos os campos e impondo à coletividade o dever de respeitá-
los.
Tal característica guarda íntima correlação com a indisponibilidade, característica estudada abaixo, uma vez que não se permite ao titular do direito renunciar a ele ou cedê-lo em benefício de terceiro ou da coletividade.
Assim, mesmo reconhecendo que o suicídio não é considerado crime, ninguém tem o direito de dispor da própria vida, sendo indicativo de tal condição, inclusive, o fato de o
induzimento, a instigação ou auxílio ao suicídio ser previsto como conduta tipificada
criminalmente23. Por força dessa indisponibilidade necessária, impõe-se, pois, a sua observância erga omnes.
Admite a doutrina especializada, porém, a existência de “direitos da personalidade relativos, como os direitos subjetivos públicos, que permitem exigir do Estado uma determinada prestação, como ocorre, exemplificadamente, com o direito à saúde, ao trabalho, à educação e à cultura, à segurança e ao ambiente”24.
mencionados direitos como da personalidade, o que nos parece um exagero, por se tratar, em verdade, de liberdades públicas que transcendem ao âmbito individual.
6.2. Generalidade
A noção de generalidade significa que os direitos da personalidade são outorgados a todas as pessoas, simplesmente pelo fato de existirem.
Há quem prefira a utilização da expressão caráter necessário dos direitos da personalidade25, mas entendemos que tal adjetivação, em verdade, deflui da natureza geral aqui exposta.
6.3. Extrapatrimonialidade
Uma das características mais evidentes dos direitos puros da personalidade é a ausência de um conteúdo patrimonial direto, aferível objetivamente, ainda que sua lesão gere efeitos econômicos.
Isso não impede que as manifestações pecuniárias de algumas espécies de direitos possam ingressar no comércio jurídico.
O exemplo mais evidente dessa possibilidade é em relação aos direitos autorais, que se dividem em direitos morais (estes sim direitos próprios da personalidade)26 e patrimoniais (direito de utilizar, fruir e dispor da obra literária, artística ou científica, perfeitamente avaliável em dinheiro) do autor.
Assim, é correto dizer que, em princípio, os direitos da personalidade são considerados extrapatrimoniais, não obstante, sob alguns aspectos, principalmente em caso de violação, possam ser economicamente mensurados.
6.4. Indisponibilidade
Preferimos utilizar a expressão genérica “indisponibilidade” dos direitos da personalidade, pelo fato de que ela abarca tanto a intransmissibilidade (impossibilidade de modificação subjetiva, gratuita ou onerosa — inalienabilidade) quanto a irrenunciabilidade (impossibilidade de reconhecimento jurídico da manifestação volitiva de abandono do direito).
A indisponibilidade significa que nem por vontade própria do indivíduo o direito pode mudar de titular, o que faz com que os direitos da personalidade sejam alçados a um patamar diferenciado dentro dos direitos privados.
O CC-02, de forma expressa, consagrou tal característica, em seu art. 11:
“Art. 11. Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária”.
A irrenunciabilidade traduz a ideia de que os direitos personalíssimos não podem ser abdicados. Ninguém deve dispor de sua vida, da sua intimidade, da sua imagem. Razões de ordem pública impõem o reconhecimento dessa característica.
A intransmissibilidade, por sua vez, deve ser entendida como limitação excepcional da regra de possibilidade de alteração do sujeito nas relações genéricas de direito privado. Vale dizer, é intransmissível, na medida em que não se admite a cessão do direito de um sujeito para outro.
Como observa LUIZ ALBERTO DAVID ARAUJO,
“o fundamento dessa intransmissibilidade reside no fato de que não se pode separar a honra, a intimidade de seu titular. A natureza do objeto é que torna intransmissível o bem. É da essência da vida, da honra, da imagem, da intimidade. Não se pode conceber a vida de um indivíduo sem essas características. Têm caráter de essencialidade, portanto. Poderia um indivíduo desfazer-se de sua imagem, enquanto ser humano? A resposta só poderia ser negativa. Ao mesmo tempo, a imagem-atributo não pode ser separada de determinado indivíduo. Poderá ele, se pretender, modificar sua imagem. Deixar de ser visto socialmente por tal ou qual característico. Mas desfazer-se dela não será possível”27.
Apenas excepcionalmente é que se pode admitir a transmissibilidade de alguns poderes ínsitos a certos direitos da personalidade28.
Nesse sentido é o ensinamento de JOSAPHAT MARINHO:
“Verifica-se que certos direitos, como os autorais e o relativo à imagem, ‘por interesse negocial e da expansão tecnológica’, entram na ‘circulação jurídica’ e experimentam ‘temperamentos’, sem perder seus caracteres intrínsecos. É o que se apura na adaptação de obra para novela ou no uso da imagem para a promoção de empresas. Também é semelhante o fenômeno, sem interesse pecuniário, na cessão de órgãos do corpo para fins científicos ou humanitários. Daí, Henri, Leon et Jean Mazeaud poderem fixar, já em 1955, que ‘se a intransferibilidade aparece como o caráter essencial dos direitos da personalidade, também se submete a certos abrandamentos’ (atténuations)”29.
Tome-se o exemplo do direito à imagem. Em essência, esse direito é intransmissível, uma vez que ninguém pode pretender transferir juridicamente a sua forma plástica a terceiro. Ocorre que a natureza do próprio direito admite a cessão de uso dos direitos à imagem. Não se trata da transferência do direito em si, mas apenas da sua faculdade de uso. Essa cessão, realizada contratualmente, deverá respeitar a vontade do seu titular, e só poderá ser interpretada restritivamente. Assim, se uma atriz famosa autorizou a publicação de sua imagem
em informe publicitário (cessão de uso), não se admitirá outra utilização (veiculação em
outdoors, por exemplo) sem a sua expressa aquiescência, sob pena de se responsabilizar
civilmente o infrator.
Pertinente, neste ponto, a observação de ADRIANO DE CUPIS:
“Os direitos da personalidade são, assim, direitos que devem necessariamente permanecer na esfera do próprio titular, e o vínculo que a ele os liga atinge o máximo de intensidade. Na sua maior parte, respeitam ao sujeito pelo simples e único fato de sua qualidade de pessoa, adquirida com o nascimento, continuando todos a ser-lhe inerentes durante toda a vida, mesmo contra a sua vontade, que não tem eficácia jurídica”30.
6.5. Imprescritibilidade
A imprescritibilidade dos direitos da personalidade deve ser entendida no sentido de que inexiste um prazo para seu exercício, não se extinguindo pelo não uso31. Ademais, não se deve condicionar a sua aquisição ao decurso do tempo, uma vez que, segundo a melhor doutrina, são inatos, ou seja, nascem com o próprio homem.
Faça-se uma ressalva: quando se fala em imprescritibilidade do direito da personalidade, está-se referindo aos efeitos do tempo para a aquisição ou extinção de direitos.
Não há como se confundir, porém, com a prescritibilidade da pretensão de reparação por eventual violação a um direito da personalidade. Se há uma violação, consistente em ato único, nasce nesse momento, obviamente, para o titular do direito, a pretensão correspondente, que se extinguirá pela prescrição, genericamente, no prazo de 3 (três) anos (art. 206, § 3.º, V, do CC-02).
6.6. Impenhorabilidade
Embora consequência lógica da indisponibilidade dos direitos da personalidade, a ideia de impenhorabilidade merece destaque especial.
Isso porque, como já se disse, há determinados direitos que se manifestam patrimonialmente, como os direitos autorais.
Os direitos morais de autor jamais poderão ser penhorados, não havendo, porém, qualquer impedimento legal na penhora do crédito dos direitos patrimoniais correspondentes. Sob o mesmo argumento, há que se admitir a penhora dos créditos da cessão de uso do direito à imagem.
6.7. Vitaliciedade
Os direitos da personalidade são inatos e permanentes, acompanhando a pessoa desde a primeira manifestação de vida até seu passamento.
Sendo inerentes à pessoa, extinguem-se, em regra, com o seu desaparecimento.
Destaque-se, porém, que há direitos da personalidade que se projetam além da morte do indivíduo, como veremos no caso do direito ao corpo morto (cadáver).
Além disso, se a lesão, por exemplo, à honra do indivíduo ocorrer após o seu falecimento (atentado à sua memória), ainda assim poder-se-á exigir judicialmente que cesse a lesão (ou sua ameaça), tendo legitimidade para requerer a medida, na forma do parágrafo único do art. 12 do CC-02, “o cônjuge sobrevivente, ou qualquer parente em linha reta, ou colateral até o
quarto grau”32.
Por fim, registre-se, a título de complementação, que os direitos da personalidade não são suscetíveis, também, de execução forçada, uma vez que independem de pronunciamento judicial para seu exercício.
O que há é previsão legal expressa de atuação do Estado-Juiz para a sua proteção ou reintegração, em caso de ameaça ou concretização de lesão, respectivamente.