Direitos da Personalidade Sumário: 1 Importância da matéria 2 Conceito e denominação 3 Natureza dos direitos da personalidade 4 A
7. CLASSIFICAÇÃO DOS DIREITOS DA PERSONALIDADE
7.4. Direito à integridade moral
Os direitos da personalidade também objetivam tutelar a esfera moral da pessoa.
7.4.1. Direito à honra
75Umbilicalmente associada à natureza humana, a honra é um dos mais significativos direitos da personalidade, acompanhando o indivíduo desde seu nascimento, até depois de sua morte.
Poderá manifestar-se sob duas formas:
a) objetiva: correspondente à reputação da pessoa, compreendendo o seu bom nome e a fama de que desfruta no seio da sociedade;
b) subjetiva: correspondente ao sentimento pessoal de estima ou à consciência da própria dignidade.
Trata-se, também, de um direito da personalidade alçado à condição de liberdade pública, com previsão expressa no inciso X do art. 5.º da CF/88, in verbis:
“X — são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.
Como se sabe, a tutela penal da honra dá-se, fundamentalmente, por meio da tipificação dos delitos de calúnia, difamação e injúria, previstos nos arts. 138, 139 e 140 do CPB, além dos próprios crimes de imprensa, delineados na Lei n. 5.250, de 9 de fevereiro de 1967.
7.4.2. Direito à imagem
Segundo a metodologia de classificação que reputamos mais adequada, o direito à imagem deve ser elencado entre os direitos de cunho moral, e não ao lado dos direitos físicos76. Isso porque, a par de traduzir a forma plástica da pessoa natural, os seus reflexos, principalmente em caso de violação, são muito mais sentidos no âmbito moral do que propriamente no físico.
A garantia de proteção à imagem, como se verifica do último dispositivo constitucional transcrito, é considerada, também, um direito fundamental.
Mas como se conceitua a imagem?
A imagem, em definição simples, constitui a expressão exterior sensível da
individualidade humana, digna de proteção jurídica.
Para efeitos didáticos, dois tipos de imagem podem ser concebidos: a) imagem-retrato — que é literalmente o aspecto físico da pessoa;
b) imagem-atributo — que corresponde à exteriorização da personalidade do indivíduo, ou seja, à forma como ele é visto socialmente.
No conceito de imagem-retrato, há quem diferencie, como ANTÔNIO CHAVES, o conceito de reprodução gráfica da imagem e a fisionomia, entendida esta última como “o conjunto das feições do rosto: aspecto, ar, cara, rosto, conjunto de caracteres especiais”77.
Entendendo despicienda, para efeitos práticos, tal diferenciação, ensina LUIZ ALBERTO DAVID ARAUJO que a “distinção entre as duas imagens parece desnecessária, pois o direito se desdobra, focalizando-as apenas em momentos diferentes: o indivíduo com direito à sua imagem (fisionomia) e o indivíduo protegendo-se contra a divulgação indevida de sua imagem (retrato da imagem).
As duas faces do mesmo direito devem ser entendidas como vindas da proteção de um mesmo bem: a imagem”78.
O CC-02, de forma expressa, consagra o direito à imagem, em seu art. 20:
“Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.
Parágrafo único. Em se tratando de morto ou de ausente, são partes legítimas para requerer essa proteção o cônjuge, os ascendentes ou os descendentes”.
Portanto, considerando que a imagem traduz a essência da individualidade humana, a sua violação merece firme resposta judicial.
“Qualquer publicação truncada ou retrabalhada de uma imagem”, observa NILZA REIS em excelente dissertação de mestrado, “ou mesmo o seu uso em um contexto diverso daquele em que se originou, pode atingir uma pessoa no mais profundo de sua dignidade, e o direito há de proteger o indivíduo que constata uma discordância entre a sua imagem real e a maneira como foi apresentada ou exibida ao público”79.
Por isso, não só a utilização indevida da imagem (não autorizada) mas também o desvio de finalidade do uso autorizado (ex. permite-se a veiculação da imagem em outdoor, e o anunciante a utiliza em informes publicitários) caracterizam violação ao direito à imagem, devendo o infrator ser civilmente responsabilizado.
A despeito, portanto, de a natureza do próprio direito admitir a sua cessão de uso, a autorização do titular há de ser expressa, não se admitindo interpretação ampliativa das cláusulas contratuais para se estender a autorização a situações não previstas.
A esse respeito, leia-se interessante trecho do acórdão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (Ap. Cív. 2.940/97), da lavra do Des. Marlan de Moraes Marinho, cujo objeto de julgamento fora a utilização indevida da imagem da Seleção Brasileira de Futebol:
“Conforme asseverou o eminente prolator da sentença, há, no caso, que se distinguir o direito à imagem, inserido que está no âmbito dos direitos da personalidade, — portanto, inalienável e irrenunciável — do direito ao uso da imagem, que pode ser objeto de cessão. Assim considerados, o titular do direito de imagem sempre poderá reclamar contra o seu uso indevido ou desautorizado por quem quer que seja, não obstante possa ter cedido o seu direito de uso a terceiros, como ocorreu na espécie em exame”.
7.4.3. Direito à identidade
O direito à identidade traduz a ideia de proteção jurídica aos elementos distintivos da pessoa, natural ou jurídica, no seio da sociedade.
Em tópico anterior80, já desenvolvemos longas considerações sobre o nome civil, valendo, porém, lembrar os dispositivos pertinentes do CC-02, no capítulo relativo aos direitos da personalidade:
“Art. 16. Toda pessoa tem direito ao nome, nele compreendidos o prenome e o sobrenome.
Art. 17. O nome da pessoa não pode ser empregado por outrem em publicações ou representações que a exponham ao desprezo público, ainda quando não haja intenção difamatória.
Art. 18. Sem autorização, não se pode usar o nome alheio em propaganda comercial. Art. 19. O pseudônimo adotado para atividades lícitas goza da proteção que se dá ao nome”.
Em momento oportuno, ao tratarmos do Direito Empresarial e Societário, teceremos as devidas considerações acerca do nome comercial, lembrando, desde já, que o direito à identidade também é atributo da pessoa jurídica.