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2. DOGMÁTICA DOS DIREITOS DE PERSONALIDADE NO

2.2. OS DIREITOS DE PERSONALIDADE NA DOUTRINA

2.2.3. Características dos direitos de personalidade segundo a

Embora o Código Civil aponte, no art. 11, a intransmissibilidade e irrenunciabilidade como características dos direitos de personalidade, a doutrina atribui a esses direitos outras características, não previstas expressamente na lei.

De maneira geral, a doutrina entende por intransmissibilidade dos direitos de personalidade a impossibilidade destes serem objeto de cessão148 ou sucessão.149 A razão da intransmissibilidade resulta, para Pontes de Miranda,

146

GONÇALVES, Diogo Costa. Pessoa e direitos de personalidade: fundamentação ontológica da tutela. Coimbra: Almedina, 2008. p. 90.

147

Idem, p. 93-94.

148

Para Caio Mário da Silva Pereira, os direitos de personalidade “são intransmissíveis, porque o indivíduo goza de seus atributos, sendo inválida toda tentativa de sua cessão a outrem, por ato gratuito como oneroso” (PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito

civil. Op. cit., p. 242).

149

Segundo Carlos Velloso, os direitos de personalidade “são intransmissíveis, porque não se transferem hereditariamente” (VELLOSO, Carlos Mário da Silva. Os direitos da

personalidade no código civil português e no novo código civil brasileiro. In.: ALVIM, Arruda;

CÉSAR, Joaquim Portes de Cerqueira; ROSAS, Roberto (org.). Aspectos controvertidos

“da infungibilidade mesma da pessoa e da irradiação de efeitos próprios (os direitos da personalidade)”.150

Explica o autor que

[...] Toda transmissão supõe que uma pessoa se ponha no lugar de outra; se a transmissão se pudesse dar, o direito não seria de personalidade. Não há, portanto, qualquer sub- rogação pessoal; nem poderes contidos em cada direito de personalidade, ou seu exercício, são suscetíveis de ser transmitidos ou por outra maneira outorgados.151

No que tange à irrenunciabilidade, entende Silvio Romero Beltrão que “a pessoa não pode abdicar de seus direitos da personalidade, mesmo que não os exercite por longo tempo, uma vez que eles são inseparáveis da personalidade humana.”152

A razão para a irrenunciabilidade é, segundo Pontes de Miranda, a mesma da intransmissibilidade: “ter ligação íntima com a personalidade e ser eficácia irradiada por essa. Se o direito é direito de personalidade, irrenunciável é. Não importa, em consequência, qual seja”,153

e seu titular não pode, de regra, “abdicar deles, ainda que para subsistir”.154

Alguns autores agrupam essas duas características na categoria mais genérica da indisponibilidade. Nesse sentido, Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho explicam:

Preferimos utilizar a expressão genérica "indisponibilidade" dos direitos da personalidade, pelo fato de que ela abarca tanto a

intransmissibilidade (impossibilidade de modificação subjetiva,

gratuita ou onerosa - inalienabilidade) quanto a

irrenunciabilidade (impossibilidade de reconhecimento jurídico

da manifestação volitiva de abandono do direito).

A indisponibilidade significa que nem por vontade própria do indivíduo o direito pode mudar de titular, o que faz com que os direitos da personalidade sejam alçados a um patamar diferenciado dentro dos direitos privados.155

Essa também é a opção de Carlos Roberto Gonçalves:

Essas características [intransmissibilidade e irrenunciabilidade], mencionadas expressamente no dispositivo legal

Paulo: RT, 2003. p. 118).

150

MIRANDA, Pontes de. Tratado de direito privado: op. cit., p. 7.

151

Idem, p. 7-8.

152

BELTRÃO, Silvio Romeo. Direitos da personalidade: op. cit., p. 27.

153

MIRANDA, Pontes de. Tratado de direito privado: op. cit., p. 8.

154

PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Op. cit., p. 242.

155

GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil. Op.

supratranscrito [art. 11 do CC], acarretam a indisponibilidade dos direitos da personalidade. Não podem os seus titulares deles dispor, transmitindo-os a terceiros, renunciando ao seu uso ou abandonando-os, pois nascem e se extinguem com eles, dos quais são inseparáveis. Evidentemente, ninguém pode desfrutar em nome de outrem bens como a vida, a honra, a liberdade etc.156

À categoria genérica da indisponibilidade são, ainda, jungidas características conexas, como inalienabilidade157 e ilimitabilidade.158 A grande maioria da doutrina contemporânea reconhece, contudo, que a indisponibilidade dos direitos de personalidade é apenas relativa.159

Roxana Borges observa que as expressões disponibilidade, poder de disposição e outras correlatas não são necessariamente sinônimos de alienação, transferência ou renúncia de direitos. Segundo a autora, num sentido amplo, disponibilidade significa a liberdade de exercer certos direitos de personalidade de forma ativa ou positiva, não apenas na forma negativa, como tradicionalmente se pensou.160

Nesse sentido, a função do direito, no que concerne às normas que disciplinam direitos de personalidade, justifica-se se (1) visar a materializar o mínimo existencial da pessoa ou (2) estabelecer sanções (penas ou reparações) às lesões contra terceiros ou (3) instrumentalizar o exercício da liberdade pessoal, conforme os fins desejados pelos próprios indivíduos, ou seja, permitir o exercício positivo dos direitos de personalidade. Assim, se no exercício dos

156

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: op. cit., p. 186-187. No mesmo sentido, TEPEDINO, Gustavo. Temas de direito civil. Op. cit., p. 34.

157

AMARAL, Francisco. Direito civil: op. cit., p. 252; VELLOSO, Carlos Mário da Silva. Os

direitos da personalidade no código civil português e no novo código civil brasileiro. Op. cit.,

p. 117-118. O termo ilimitabilidade é utilizado por Carlos Roberto Gonçalves com significado diverso. Afirma o autor: “É ilimitado o número de direitos da personalidade, malgrado o Código Civil, nos arts. 11 a 21, tenha se referido expressamente apenas a alguns. Reputa- se tal rol meramente exemplificativo, pois não esgota o seu elenco, visto ser impossível imaginar-se um numerus clausus nesse campo” (GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito

civil brasileiro: op. cit., p. 187.).

158

AMARAL, Francisco. Direito civil: op. cit., p. 252.

159

BELTRÃO, Silvio Romeo. Direitos da personalidade: op. cit., p. 30; AMARAL, Francisco.

Direito civil: op. cit., p. 252; VELLOSO, Carlos Mário da Silva. Os direitos da personalidade no código civil português e no novo código civil brasileiro. Op. cit., p. 117-118;

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: op. cit., p. 186-187; DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro. Op. cit., p. 123; GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil. Op. cit., p. 155-156.

160

BORGES, Roxana Cardoso Brasileiro. Direitos de personalidade e autonomia privada.

direitos de personalidade, determinada atividade não for lesiva a direitos de terceiros, cabe ao direito (a) simplesmente tolerá-la ou permiti-la (não a proibir), considerando-a irrelevante juridicamente ou simplesmente lícita ou (b) regulamentá-la, instrumentalizando os interesses individuais das pessoas. A autora defende que somente essa concepção individualista do direito, consubstanciada na autonomia privada, é capaz de possibilitar o exercício positivo dos direitos de personalidade. Nessa perspectiva, o simples argumento moral não pode ser suficiente para permitir a intervenção do aparato jurídico ou judiciário na esfera privada de alguém, em sua intimidade, privacidade, opções de vida, assim como os importantes argumentos da solidariedade e da sociabilidade não justificam a funcionalização de tais direitos.161

Outra característica dos direitos de personalidade apontada pela doutrina é sua generalidade, significando que “os direitos da personalidade são outorgados a todas as pessoas, simplesmente pelo fato de existirem”.162

Os direitos de personalidade são também considerados absolutos, no sentido de serem oponíveis erga omnes,163 “impondo-se à coletividade o dever de respeitá-los. É um verdadeiro dever geral de abstenção dirigido a todos”,164 inclusive, ao Estado165 e ao próprio titular do direito.166

161

Idem, p. 103-132.

162

GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil. Op.

cit., p. 153. No mesmo sentido, VELLOSO, Carlos Mário da Silva. Os direitos da personalidade no código civil português e no novo código civil brasileiro. Op. cit., p. 117;

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: op. cit., p. 187; MATTIA, Fábio Maria de. Direitos da personalidade II. Op. cit., p. 156.

163

AMARAL, Francisco. Direito civil: op. cit., p. 252; BELTRÃO, Silvio Romero. Direitos da

personalidade: op. cit., p. 28; GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil. Op. cit., p. 152; GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: op. cit., p. 187; PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Op. cit., p. 242; VELLOSO, Carlos Mário da Silva. Os direitos da personalidade no código civil português e no novo código civil brasileiro. Op. cit., p. 117; DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro. Op. cit., p. 122.

164

FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito civil: op. cit., p. 112.

165

Pontes de Miranda assevera: “Nenhum dos direitos de personalidade é relativo; o fato de serem dirigidos ao Estado, se a ofensa provém de autoridade pública, de modo nenhum os relativiza: apenas, aí, se põe ao vivo que a evolução política e jurídica já alcançou muni-los de pretensões e ações que mantivessem o Estado, que também é pessoa, dentro dos limites que o direito das gentes, a Constituição e as leis lhe traçaram. Direitos a sujeitos passivos totais, como são os direitos à [sic] personalidade, o Estado apenas é um dos sujeitos que se compreendem na totalidade de sujeitos” (MIRANDA, Pontes de. Tratado de

direito privado: op. cit., p. 6.).

166 Cf. MATTIA, Fábio Maria de. Direitos da personalidade II. Op. cit., p. 155-156: “[...] são

Extrapatrimonialidade, impenhorabilidade e imprescritibilidade são também características dos direitos de personalidade, segundo a doutrina. A extrapatrimonialidade “consiste na insuscetibilidade de apreciação econômica destes direitos”,167

a impenhorabilidade é considerada consequência da própria indisponibilidade desses direitos168 e a imprescritibilidade “deve ser entendida no sentido de que inexiste um prazo para seu exercício, não se extinguindo pelo não-uso”.169

Essas três características se relacionam entre si, pois embora os direitos de personalidade sejam extrapatrimoniais, impenhoráveis e imprescritíveis, de seu regular exercício pelo titular, bem como de sua violação, podem decorrer consequências de natureza patrimonial, como a remuneração percebida, no primeiro caso, e a pretensão à indenização, no segundo. Nesses casos, com base em jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça,170 entende parte da doutrina que “os reflexos patrimoniais dos referidos direitos podem ser penhorados”,171 bem como “a pretensão à sua reparação está sujeita aos prazos prescricionais estabelecidos em lei, por ter caráter patrimonial”.172

Outras características são pontualmente apresentadas por alguns autores, como o caráter necessário dos direitos de personalidade, significando que “o ser humano os detém necessariamente, por força da lei”,173

a essencialidade,

o corpo, a honra etc. das demais pessoas. Seu respeito impõe ao próprio Estado, que deve exigi-lo e garanti-lo. Ainda devemos lembrar que a própria pessoa do titular dos direitos humanos ou da personalidade tem o dever jurídico de respeitá-los.”

167

FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito civil: op. cit., p. 113.

168

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: op. cit., p. 189.

169

GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil. Op.

cit., p. 156.

170

Cf., por exemplo, o REsp 11735/PR, em cuja ementa se lê: "[...] II - o direito de ação por dano moral é de natureza patrimonial e, como tal, transmite-se aos sucessores da vítima" (BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 11.735 - PR (91.0011597-5). Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/processo/jsp/ita/abreDocumento.jsp?num_registro= 199100115975&dt_publicacao=13-12-1993&cod_tipo_documento=>. Acesso em: 08 dez. 2011).

171

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: op. cit., p. 189. No mesmo sentido, Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona Filho exemplificam: “Os direitos morais de autor jamais poderão ser penhorados, não havendo, porém, qualquer impedimento legal na penhora do crédito dos direitos patrimoniais correspondentes. Sob o mesmo argumento, há que se admitir a penhora dos créditos da cessão de uso do direito à imagem” (GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Novo curso de direito civil. Op. cit., p. 156.).

172

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: op. cit., p. 188. No mesmo sentido, FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito civil: op. cit., p. 113.

173

VELLOSO, Carlos Mário da Silva. Os direitos da personalidade no código civil português e no novo código civil brasileiro. Op. cit., p. 118.

“porque inerentes ao ser humano”,174

a inexpropriabilidade, no sentido de serem os direitos de personalidade insuscetíveis de desapropriação,175 a vitaliciedade, em virtude de acompanharem a pessoa desde o seu nascimento até sua morte,176 e a preeminência, entendida como superioridade dos direitos de personalidade em relação aos demais direitos subjetivos.177