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3. DIFERENTES VISÕES SOBRE O CONCEITO DE PESSOA

3.3. PESSOA NO PENSAMENTO MODERNO

3.3.1. Cartesianismo e concepção racionalista do homem

A revolução científica, iniciada no século XVI, inaugurou a explicação mecanicista do mundo, tendo grande repercussão para a maneira de enxergar o próprio homem e o seu lugar no mundo. A tradição clássica do homem como zoon logikón foi prolongada, mas teve seu conteúdo alterado, sobretudo a partir da abordagem cartesiana.

O itinerário tradicional do saber filosófico percorria o caminho desde a Física, em direção à Metafísica. Nessa perspectiva, em primeiro lugar o homem toma

293

VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia filosófica. v. 1. Op. cit., p. 70.

294

Idem, p. 66-69.

295

Idem, p. 69-70.

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consciência do mundo (physis), e em seguida consciência de fazer parte dele, estando, assim, no domínio da Física. A partir de então, toma consciência do transcendental, entrando no domínio da Metafísica, enxergando-se assim como horizon et confinium entre o corporal e o espiritual, num mundo coerente e finito que possui um princípio de movimento próprio.

Descartes fez o caminho contrário, partindo da Metafísica em direção à Física, invertendo completamente o itinerário do saber filosófico e dando primazia absoluta ao método.297 De seu ponto de vista, em primeiro lugar o homem toma consciência de si (cogito), na forma de certeza de sua própria existência espiritual, tomando em seguida consciência da existência de Deus, por meio da presença da ideia de infinito em sua mente, e só depois, já no domínio da Física, o homem toma consciência do seu corpo e do mundo, ambos exteriores ao espírito. Nessa nova perspectiva, inaugurou-se o dualismo entre a subjetividade do espírito, concebido na construção cartesiana como res cogitans, e a exterioridade do corpo, entendido por Descartes como res extensa, em relação ao espírito. Seu raciocínio construiu-se nos seguintes termos:

Mais tarde, ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia; ao passo que, se somente tivesse parado de pensar, apesar de que tudo o mais que alguma vez imaginara fosse verdadeiro, já não teria razão alguma de acreditar que eu tivesse existido; compreendi, então, que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum, nem depende de qualquer coisa material. De maneira que esse eu, ou seja, a alma, por causa da qual sou o que sou, é completamente distinta do corpo e, também, que é mais fácil de conhecer do que ele, e, mesmo que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.298

Assim,

[...] O mundo não é mais a physis antiga dotada de um

297

DESCARTES, René. Regulae ad directionem ingenii. Texto original publicado em 1628 disponível em: <http://www.ac-nice.fr/philo/textes/Descartes-Regulae.htm>. Acesso em: 25 jun. 2011. A Regula IV afirma que “Necessaria est methodus ad veritatem investigandam”.

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princípio imanente de movimento (arquè kinêseôs, na definição de Aristóteles), mas a grande máquina capaz de ser analisada pela razão e por ela reproduzida na forma de um modelo matemático. [...] O corpo humano é integrado no conjunto dos artefatos e das máquinas, e só a presença do “espírito”, manifestando-se sobretudo na linguagem, separa o homem do “animal-máquina”.299

A idade racionalista inaugurada por Descartes concebeu o homem a partir do moralismo e do humanismo devoto. Pascal, partindo das categorias filosóficas cartesianas, desenvolveu sua própria noção de cogito, voltado para a dimensão moral do homem, para a descoberta do bien penser, ao invés da finalidade de dominação do mundo característica do cogito cartesiano.

Já no âmbito dos primórdios do chamado empirismo inglês, Hobbes aplicou, com extremado rigor, o racionalismo mecanicista à compreensão do homem e da sociedade. Partindo de um materialismo radical e integral, identificou o homem com o corpo, atribuindo mesmo a Deus natureza corpórea, consubstanciada no universo, cuja totalidade e univocidade abrangem todas as ordens do existente. A característica que diferenciava o homem dos demais seres, tornando-o especial, era segundo Hobbes a aptidão humana de ser artífice de sua própria humanidade, representada na exigência de sair do estado de natureza para o estado civil, fazendo da sociedade e do Estado o terreno e o horizonte de sua realização humana.300

John Locke, por sua vez, também na esteira do empirismo inglês mas refutando algumas premissas de Hobbes, construiu a imagem do homem liberal, isto é, do burguês. Rejeitando o inatismo e, consequentemente, criticando o cogito cartesiano, Locke adotou uma postura otimista em relação ao homem, defendendo sua bondade natural, e sua natural socialidade.301 Para ele, o homem possui uma estrutura psicológica que manifesta sua identidade pessoal (personal identity), constituindo sua consciência-de-si. Em suas próprias palavras,

[…] to find wherein personal identity consists, we must consider what person stands for; - which, I think, is a thinking intelligent being, that has reason and reflection, and can consider itself as

299

VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia filosófica. v. 1. Op. cit., p. 74.

300

Idem, p. 77-79.

301

itself, the same thinking thing, in different times and places; which it does only by that consciousness which is inseparable from thinking, and, as it seems to me, essential to it: it being impossible for anyone to perceive without perceiving that he does perceive. When we see, hear, smell, taste, feel, meditate, or will anything, we know that we do so.302

Já no século XVIII, David Hume303 retomaria a concepção lockeana, afirmando, contudo, ser impossível falar filosoficamente de pessoa. Embora também entendesse o eu-pessoa (myself) como consciência de si, o pensador escocês considerava a consciência como um mero aglomerado de sensações e percepções,304 conforme se depreende do excerto a seguir:

[...] It must be someone impression that gives rise to every real idea. But self or person is not any one impression, but that to which our several impressions and ideas are supposed to have a reference. […] For my part, when I enter most intimately into what I call myself, I always stumble on some particular perception or other, of heat or cold, light or shade, love or hatred, pain or pleasure. I never can catch myself at any time without a perception, and never can observe anything but the perception. When my perceptions are removed for any time, as by sound sleep, so long am I insensible of myself, and may truly be said not to exist. And were all my perceptions removed by death, and could I neither think, nor feel, nor see, nor love, nor hate, after the dissolution of my body, I should be entirely annihilated, nor do I conceive what is further requisite to make me a perfect nonentity.305

302

LOCKE, John. An essay concerning human understanding. London: Thomas Tegg, 1825. p. 225-226. Disponível em: <http://www.archive.org/download/humanunderstandi00lo ckuoft/humanunderstandi00lockuoft.pdf>. Acesso em: 26 jun. 2011. Em tradução livre para o português: "[...] para encontrar em que consiste a identidade pessoal, devemos considerar o que significa pessoa; - o que, penso, é um ser inteligente pensante, que possui razão e reflexão, e pode considerar a si mesmo como si mesmo, a mesma coisa pensante, em momentos e locais diferentes; o que faz apenas por meio daquela consciência que é inseparável do pensar e, ao que me parece, essencial nesse sentido, sendo impossível que alguém perceba sem perceber que percebe. Quando vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos, sentimos, meditamos ou fazemos qualquer coisa, sabemos que o fazemos."

303

Embora David Hume seja considerado um dos autores da filosofia iluminista, sua concepção do homem foi tratada neste item por razão meramente didática, uma vez que seu pensamento antropológico se aproxima do racionalismo empirista de John Locke. Sobre o pertencimento de Hume à tradição iluminista, Cf. CARLI, Ranieri. Antropologia filosófica.

Op. cit., p. 90-94.

304

GONÇALVES, Diogo Costa. Pessoa e direitos de personalidade: op. cit., p. 32.

305

HUME, David. A treatise of human nature. v.1. London: Dent, 1911. p. 238-239. Disponível em: <http://www.archive.org/download/atreatiseonhuman00humeuoft/atreatiseonhuman00hu meuoft.pdf>. Acesso em: 26 jun. 2011. Em livre tradução para o português: "Deve ser alguma impressão que dá origem a toda ideia real. Mas si mesmo ou pessoa não é nenhuma impressão, mas aquela à qual nossas várias impressões e ideias devem fazer referência. [...] Da minha parte, quando penetro mais intimamente no que chamo de eu

Na sequência de sua argumentação, Hume afirmou sobre a humanidade:

I may venture to affirm of the rest of mankind, that they are nothing but a bundle or collection of different perceptions, which succeed each other with an inconceivable rapidity, and are in a perpetual flux and movement.306

A concepção do homem como consciência de si tornou-se, então, predominante na Europa. O expressivo desenvolvimento das ferramentas de pesquisa experimentado ao longo do século XVII, a exemplo dos instrumentos óticos, repercutiria significativamente no estudo científico do homem e do mundo. Naquele período, desenvolveu-se o estudo da anatomia humana, foram descobertas as bactérias e classificados os seres vivos; viu-se crescer o interesse pelas ciências da linguagem, sobretudo a gramática e a filologia, cujo desenvolvimento levou a uma nova leitura, sob outras bases, dos textos clássicos e medievais, o que levou ao surgimento da historiografia crítica, em substituição à historiografia tradicional. Este último movimento levou a Europa a uma crise de consciência, em virtude do surgimento de uma nova consciência história.307 Criavam-se, assim, as bases para a Ilustração do século XVIII.