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Dentro dos mercados de trabalho qualificado, pode-se distinguir basicamente dois modelos: o modelo dos mercados profissionais de trabalho (MPT) e o modelo dos mercados internos de trabalho (MIT); este último ressaltado como sendo o predominante na França e na Espanha.

Nos MPT, a contratação pela empresa se faz com base nas qualificações creditadas por um diploma e reconhecida pelo grupo profissional no qual o trabalhador pertence. Por isto, tratam-se de qualificações transferíveis, que podem ser utilizadas por uma variedade de empresas, o que propicia uma maior mobilidade dos trabalhadores de uma empresa para outra. Conseqüentemente, os MPT apresentam um maior fluxo de mão-de-obra entre as

25 Tópico baseado nos textos do EYRAUD, MARSDEN & SILVESTRE (1990), PIETRO & HOMS (1995) e

empresas. Entretanto, uma vez que as qualificações são transferíveis, depois de adquirida a formação profissional básica, dificilmente os empregadores arcam com os custos para qualificação de mão-de-obra. As principais características dos dois modelos estão resumidas no quadro 02.

QUADRO 02:

CARACTERÍSTICAS DOS MERCADOS INTERNOS DE TRABALHO E DOS MERCADOS PROFISSIONAIS DE TRABALHO

Função MPT MIT

Formação Aprendizagem Experiência adquirida na empresa

Natureza da formação no emprego

Normalizada segundo as regras profissionais

Não normalizada e específica da empresa em questão

Transferibilidade da qualificação

No âmbito da profissão No âmbito da empresa Antigüidade no serviço Concluída a formação, não influi na

qualificação nem no salário

Grande influência na aquisição da qualificação e no salário

Nível de qualificação no caso de mudança de empresa

É mantido o nível de Qualificação Reclassificação a uma categoria mais baixa

Controle sobre o conteúdo do trabalho

Baseado na defesa da profissão Baseado num sistema de regras aplicáveis a todos os trabalhadores da empresa (por exemplo através de sistemas de classificação)

Organização dos trabalhadores Baseada na profissão Baseada na empresa e no ramo de atividade

Fonte: EYRAUD, MARSDEN & SILVESTRE (1990: 565).

Existem MIT, quando o empregador disponibiliza certas vagas por ascensão a postos de trabalho mais elevados, por mudança de funções entre os trabalhadores ou quando a contratação de trabalhadores externos à empresa é relegada a um número limitado de aprendizes. O movimento de trabalhadores realiza-se mais no interior da mesma empresa. Nos MPT, as qualificações concentram-se nas fases iniciais da vida profissional do indivíduo, enquanto nos MIT, a aquisição das qualificações efetua-se de forma progressiva com a antigüidade na empresa. Nos MPT, o sistema de educação aposta firmemente no profissionalismo e na presença de uma forte orientação da população para a formação de profissões claramente delimitadas. Já nos MIT, dentro dos sistemas educacionais, a educação profissional apresenta-se com um caráter secundário, pois a população é orientada para seguir as vias de formação mais geral e mais longa.

Nestes últimos, depois do trabalhador ter ocupado vários postos de trabalho na mesma empresa que, progressivamente, adquire-se as qualificações para o posto de trabalho. Desta forma, a educação teórica fornecida pelo sistema educacional deve completar-se com a experiência prática, que fica a cargo das empresas. Por isto, em geral, os jovens são contratados para ocuparem postos semiqualificados ou não-qualificados e, só posteriormente, poderão ascender para postos de trabalho mais qualificados.

Ao contrário dos MPT, nos MIT, cada empresa define as qualificações em seus próprios termos, independentemente de reconhecer ou não a qualificação que os trabalhadores adquiriram no sistema educacional ou em outras empresas. Por isto, neste modelo, a transferência do trabalhador de uma empresa para outra é mais difícil, seja porque não há equivalência entre os postos, seja porque certas regras institucionais impedem o acesso dos trabalhadores externos à empresa aos postos de trabalho.

Neste mercado, há uma estreita relação entre renda do trabalhador e antigüidade no serviço. Uma vez que grande parte das qualificações baseiam-se na experiência, que é adquirida com a antigüidade na empresa, com um tempo, o trabalhador auferirá maiores salários relativos. Na prática, a promoção interna para os postos qualificados realiza-se, em grande parte, através dos acordos coletivos, os quais estipulam sistemas de classificação de postos com vistas a estimular a promoção. Nestes acordos, que se aplicam a setores inteiros e que vão ser adaptados ao nível das empresas, cria-se um complexo hierárquico segundo o qual se classificam as ocupações e os coeficientes salariais dos trabalhadores.

Nos países onde predominam os MIT, a negociação coletiva desenvolve-se normalmente fora da empresa, no âmbito do ramo industrial, onde se fixam normas gerais aplicáveis a todos os trabalhadores, sem referir-se a um grupo profissional em particular. Estas normas estabelecidas servem de base para o mercado de trabalho interno de cada empresa.

Esses dois mercados diferenciam-se também pelas distintas estratégias de negociação adotadas nos acordos de flexibilidade. Enquanto em países onde predominam os MIT, tratam-se de acordos nacionais ou de disposições legislativas, nos países onde predominam os MPT, esta questão é tratada a nível da empresa. Nos primeiros, insiste-se sobretudo nas normas aplicadas à generalidade dos trabalhadores enquanto, nos segundos, o principal tema da negociação é a delimitação dos postos, que em geral se efetua de forma direta com os grupos profissionais, sobretudo com o fim de remodelar os sistemas de classificação dos postos de trabalho de maneira a facilitar a redistribuição da mão-de-obra dentro da empresa.

4. Sistemas de Educação, Formação Profissional e Relações de Trabalho: Uma