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2 PROVAS DIGITAIS, UMA ANÁLISE DO CONCEITO, DAS

2.2 CARACTERÍSTICAS E PECULIARIDADES DA PROVA DIGITAL

Percebe-se que existe um certo dinamismo intrínseco às provas digitais, as quais podem perdurar por muito pouco tempo disponíveis para acesso. Ao mesmo tempo, podem ser de fácil disseminação e, com isso, ser de longa durabilidade; podem ser facilmente modificadas ou dificilmente acessadas, dependendo do meio pelo qual foram produzidas.

Ressalta Dario José Kist que a prova digital, ao possuir uma realidade própria, muito diferente dos demais meios de provas - perceptíveis aos sentidos, demanda a utilização de métodos compatíveis e diferenciados de investigação, obtenção e armazenamento.112

Isso ocorre em virtude das suas características peculiares, entre as quais, Denise Provasi Vaz destaca a imaterialidade e desprendimento do suporte físico originário, volatilidade, suscetibilidade de clonagem e fácil dispersão e, por fim, a necessidade de intermediação de equipamento para ser acessada.113

110 Idem, p. 64.

111 KIST, Dário José. Prova digital no processo penal. Leme (SP): JH Mizuno, 2019. p. 115-116. 112 KIST, Dário José. Prova digital no processo penal. Leme (SP): JH Mizuno, 2019. p. 117.

113 VAZ, Denise Provazi. Provas Digitais no Processo Penal: formulação do conceito, definição das características

e sistematização do procedimento probatório. Orientador Antonio Scarance Fernandes. 2012. 198 f. Tese (Doutorado em Direito) - Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo. 2012, p. 67.

2.2.1 Imaterialidade

Refere-se à Prova Digital como meio de prova imaterial, pois “não se constitui de matéria” e também “não se consegue tocar”114. Isto é, são dados eletrônicos armazenados em dispositivos físicos, contudo, independentes desses e que podem ser transmitidos sem a necessidade de movimentação física.

É justamente essa imaterialidade que assegura a independência da Prova Digital para com o suporte físico no qual se encontra armazenada. De acordo com Dário José Kist, a existência de tal meio de prova não pressupõe o objeto material, ele serve somente para mediar seu transporte.115

Não bastasse, a ausência de representação física da prova digital permite não só que essa seja de fácil transmissão, como também, que contribua para o grande armazenamento de informações nos sistemas informáticos, “já que os dados não ocupam espaço físico relevante, mostrando-se compactos”.116

Há de se pontuar, por fim, que a imaterialidade da prova digital também exige certos cuidados e conhecimentos técnicos por parte do investigador no momento de sua captação, pois, o desconhecimento de sua presença pode acarretar o risco de ser significativamente alterada.117

2.2.2 Volatilidade

Por volatilidade, entende-se a qualidade do que “sofre constante mudanças”118. Dizer que determinada coisa é volátil, significa dizer que não é firme, no sentido de que muda constantemente.

114 DICIONÁRIO Dicio, em sua versão digital. Disponível em: https://www.dicio.com.br/imaterial/. Acesso em:

23 abr. 2019.

115 KIST, Dário José. Prova digital no processo penal. Leme (SP): JH Mizuno, 2019, p.118.

116 VAZ, Denise Provazi. Provas Digitais no Processo Penal: formulação do conceito, definição das características

e sistematização do procedimento probatório. Orientador Antonio Scarance Fernandes. 2012. 198 f. Tese (Doutorado em Direito) - Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo. 2012, p. 68.

117 CANCELA, A. G. L. A prova digital: os meios de obtenção de prova na Lei do Cibercrime. Orientador:

Sónia Mariza Florêncio Fidalgo. 2016. 78 f. Dissertação (Mestrado em Direito) -Universidade de Coimbra, Coimbra, 2016, p. 22.

Disponível em: https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31398/1/A%20prova%20digital.pdf . Acesso em: 23 abr 2019.

118DICIONÁRIO Dicio, em sua versão digital. Disponível

Denise Provazi Vaz, analisando as contribuições da doutrina italiana, salienta que: “Em virtude de sua imaterialidade, o dado digital apresenta-se frágil, pois facilmente se submete a alterações ou desaparecimento, bastando a modificação da sequência numérica que o compõe”119.

Ademais, em razão dessa constante possibilidade de alteração e desaparecimento da Prova Digital, é certo que devem ser adotadas técnicas especializadas no manejo da prova digital, com o intuito de preservar a confiabilidade de seu conteúdo, bem como evitar que este seja completamente perdido.

Dário José Kist ainda assevera que tal tratamento técnico e qualificado na abordagem das Provas Digitais deve ser utilizado no momento de acesso à prova e estender-se à fase posterior da cadeia de custódia, “sob pena de alteração ou perda de dados e informações relevantes para a prova do fato em discussão”.120

2.2.3 Suscetibilidade de Clonagem e Facilidade de Dispersão

Decorrente também de sua característica da imaterialidade, a Prova Digital demonstra- se extremamente suscetível ao processo da clonagem, consistente na criação de uma réplica exata de uma coisa.

Ou seja, por tratar-se de objeto imaterial, os dados que compõem o conteúdo da Prova Digital podem ser facilmente copiados e transmitidos a outros dispositivos eletrônicos, oferecendo risco à preservação da originalidade do arquivo utilizado como meio de prova.

Aliado à suscetibilidade de ser clonada, a Prova Digital é meio de prova de fácil dispersão e armazenamento, ao passo que pode ser transmitida a qualquer dispositivo eletrônico.

Acerca do tema, contribui Dário José Kist dizendo que a dispersão da prova digital compreende duas dimensões, uma vinculada às formas de armazenamento da Prova Digital, a qual pode apresentar-se parte no formato de gravação, parte em imagens, arquivos de vídeo, etc; e outra diz respeito à própria área geográfica onde a Prova está situada, a depender do local onde está o dispositivo que a contempla.121

119 VAZ, Denise Provazi. Provas Digitais no Processo Penal: formulação do conceito, definição das características

e sistematização do procedimento probatório. Orientador:Antonio Scarance Fernandes, 2012. 198 f. Tese (Doutorado em Direito) - Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo. 2012, p. 69.

120 KIST, Dário José. Prova digital no processo penal. Leme (SP): JH Mizuno, 2019. p. 119. 121 Idem, p. 119.

Assim, Alberto Cancela afirma que, em determinadas situações, a investigação deve estar atenta ao fato de que, para a obtenção da Prova Digital original, será preciso uma árdua tarefa de captação, uma vez que esta pode encontrar-se distribuída por vários “terminais, computadores e redes que se estendem por uma vasta área espacial ou geográfica”.122

2.2.4 Necessidade de dispositivo para transmissão

Conforme reiterado, a Prova Digital é imaterial e existe independente do meio físico onde está armazenada. Entretanto, não se pode eliminar a importância do objeto físico para a repercussão do conteúdo probatório, tendo em vista que é o único meio pelo qual ocorre a exposição, extração ou transmissão da prova.

Seguindo o entendimento de Denise Vaz, a prova digital, ao ser constituída por combinações numéricas, restritas ao ambiente digital, necessita de dispositivos físicos para que sejam processadas e sua exteriorização seja compreendida pelos seres humanos.123

Portanto, tem-se que, embora não seja uma dependência que vincula a existência plena da Prova Digital, é a única forma de acesso ao teor da prova.