1 NOÇÕES SOBRE A TEORIA DA PROVA
1.3 PROVAS ADMITIDAS NO PROCESSO PENAL BRASILEIRO
1.3.6 Da Prova Testemunhal
Dentro ainda da categoria das provas denominadas como pessoais, existe a prova testemunhal. A testemunha, no conceito de Eberhardt, “é toda pessoa que comparece perante a autoridade (policial, ministerial ou judicial) para dizer que viu ou ouviu dizer acerca de fato juridicamente relevante”.71
Para Renato Brasileiro: “Testemunha é a pessoa desinteressada e capaz de depor que, perante a autoridade judiciária, declara o que sabe acerca dos fatos percebidos por seus sentidos que interessam à decisão da causa”.72
69 Art. 201. Sempre que possível, o ofendido será qualificado e perguntado sobre as circunstâncias da infração,
quem seja ou presuma ser o seu autor, as provas que possa indicar, tomando-se por termo as suas declarações.
70 EBERHARDT, Marcos. Provas no Processo Penal: análise crítica, doutrinária e jurisprudencial. Porto Alegre:
Livraria do Advogado Editora, 2016, p. 134.
71 Idem, p. 134.
72 LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de Processo Penal. 3. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: Ed. Juspodium,
No processo penal brasileiro, admite-se que qualquer pessoa seja testemunha (art. 202 do CPP)73, desde que tenha capacidade física para tanto, não importando a capacidade jurídica, vez que é permitido que menores de 16 (dezesseis) anos74 prestem depoimento, observados os requisitos da legislação especial que trata sobre o assunto.
A doutrina ainda subdivide a testemunha em modalidades, admitindo a existência das seguintes espécies: testemunhas numerárias; testemunhas extranumerárias; testemunha direta; testemunha indireta; testemunha própria; testemunha imprópria; informante; testemunha anônima; testemunha ausente; testemunha remota.75
Aliás, cumpre informar que tal meio de prova se trata de um dever e não de um direito; a legislação processual penal elenca as pessoas que podem recusar-se a depor ou aquelas que são proibidas de depor.
As pessoas que podem recusar-se a depor são aqueles previstas no art. 206 do Código de Processo Penal76, quais sejam: “ascendente ou descendente, o afim em linha reta, o cônjuge, ainda que desquitado, o irmão e o pai, a mãe, ou o filho adotivo do acusado”, com a ressalva de que subsiste o dever de depor, caso não for possível obter ou integrar por outro modo a prova do fato e de suas circunstâncias ou, ainda, quando assim o quiserem.
Como assevera Renato Brasileiro, o dispositivo supra tem a intenção de preservar o bem-estar familiar, evitando que tais pessoas que possuem laços de parentesco ou conjugais sejam obrigadas a declarar algo contra algum ente querido.77
Nas hipóteses de proibição, situam-se: “[...] as pessoas que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho.”78. É o que acontece, por exemplo, no caso do padre, com relação ao conteúdo da confissão religiosa; do psicólogo; do advogado, etc.
De acordo com Nucci, a proibição constante do art. 207 do CPP é uma imposição legal em razão da qualidade de determinadas pessoas. Faz-se exigência de sigilo, em nome de
73 Art. 202. Toda pessoa poderá ser testemunha.
74 Art. 3º do Código Civil trata sobre a incapacidade civil absoluta, estabelecendo que "São absolutamente
incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 (dezesseis) anos.".
75 LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de Processo Penal. 3. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: Ed. Juspodium,
2015. p. 687
76 Art. 206. A testemunha não poderá eximir-se da obrigação de depor. Poderão, entretanto, recusar-se a fazê-lo o
ascendente ou descendente, o afim em linha reta, o cônjuge, ainda que desquitado, o irmão e o pai, a mãe, ou o filho adotivo do acusado, salvo quando não for possível, por outro modo, obter-se ou integrar-se a prova do fato e de suas circunstâncias.
77 LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de Processo Penal. 3. ed. Rev., atual e ampl. Salvador: Ed. Juspodium,
2015, p. 681
78 Art. 207 do CPP. São proibidas de depor as pessoas que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão,
interesses maiores, igualmente protegidos pela norma processual penal, normas específicas, costumes, regulamentos, estatutos de ética...79
Assim, em se tratando de um dever, após devidamente intimada, a testemunha será obrigada a ir até o Juízo e prestar seu depoimento no local, dia e hora designados. Caso não compareça sem motivo justificado, o magistrado pode requisitar à Autoridade Policial a sua apresentação ou determinar a condução coercitiva por meio do Oficial de Justiça. Conforme os artigos 458 e 436, §2.º, ambos do CPP, o não comparecimento desmotivado pode ensejar também a imposição de multa ou processo criminal por desobediência.80
Existe outra peculiaridade que merece ser destacada na Prova Testemunhal, a regra do dever de dizer a verdade, nos termos do art. 203 do CPP81. Nas palavras de Brasileiro, “Significa dizer, portanto, que a testemunha deve dizer o que sabe, não pode se calar sobre o que sabe, nem pode negar a verdade ou declarar fato inverídico”.82
Considerando que se trata de depoimento prestado por alguém que não figura como parte no processo, teoricamente neutro para narrar os fatos e repassar todo o conhecimento sobre o ocorrido e, ainda, que tal testemunho é prestado sob o compromisso de dizer a verdade, não há dúvidas quanto ao alto grau de relevância que a prova testemunhal adquire para o deslinde do processo.
No entanto, conforme já salientado inúmeras vezes, no Ordenamento Jurídico brasileiro, pelo fato de não existirem regras pré-estabelecidas para a valoração das provas, a prova testemunhal também possui valor relativo. Desse modo, cabe somente ao juiz avaliar as provas testemunhais com cautela, utilizando-se das contribuições das mais diversas áreas, como a psicologia, sociologia e economia, no momento da interpretação e avaliação dos depoimentos.