Para desenvolver o Pantanal em sua parte do Estado de Mato Grosso do Sul, algumas tentativas foram feitas e outras estão em andamento. As várias esferas de governo, nos anos recentes, como EMBRATUR, Secretaria de Desenvolvimento Econômico e seu Instituto de Turismo, entendem que o turismo pode ser um meio para atingir esse fim.
No que se refere à economia, o Pantanal tem várias faces: ao mesmo tempo em que tem áreas primitivas, como aldeias indígenas, há, também, áreas capitalistas modernas de exploração nos segmentos do turismo e da pecuária; nesta com projetos de pesquisa.
O bezerro desmamado, produto mais importante na atividade de cria, é vendido para produtores que o recriam, e destes para o segmento de engorda, geralmente fora do Pantanal, numa prática secular, constituindo um elo da cadeia da pecuária de corte.
Quanto aos negócios dos fazendeiros pantaneiros, isto é, a bovinocultura, na qual o segmento de cria teve e tem papel preponderante, eles verificaram, desde a década de 1980, as relações desiguais de trocas, que pagavam sempre mais na compra dos insumos para a produção e recebiam menos pelo que produziam.
Era comum aos pecuaristas pantaneiros referirem-se de uma maneira simplista, mas que tinha a sua lógica, a um fato concreto: “na compra da minha camioneta são necessários mais bezerros, a cada ano”. A camioneta49 era o meio de transporte usado para o deslocamento do pecuarista pantaneiro e de sua família (daqueles que podiam comprá-la). Sua
curta durabilidade, por causa da distância e da precariedade das estradas (estrada de chão, atoleiros e outros) e ferrugem, levava à menor durabilidade do veículo.50
Diante do processo de contínua descapitalização, que se tornou mais crucial nas décadas de 1980 e 1990, muitos pecuaristas adotaram a alternativa de vender a propriedade; outros, entretanto, resistiram e, desde então, buscam alternativas para melhorar sua renda.
Os que se mudaram o fizeram para os municípios próximos, geralmente, em um primeiro momento para Corumbá, depois para Campo Grande, quando esta passou a ser hegemônica antes mesmo da criação do novo Estado (1977), mas com maior visibilidade após ela. No dizer de E1, proprietário de fazenda no Pantanal, não que [os fazendeiros] tivessem se tornado absenteístas, mas a permanência na fazenda passou a ser menor.
Os motivos alegados como decisivos para a venda da propriedade foi a dificuldade de tocar a propriedade, e desta ter se tornado um empreendimento inviável economicamente, capaz de reter as famílias pantaneiras. Essas afirmações podem ser confirmadas pela comparação dos dados estatísticos disponíveis nos dois últimos Censos Agropecuários do IBGE, 1970 e 1995, para o município de Corumbá51. Em área este é o maior município da planície pantaneira, considerado o de maior representatividade por estar 98% de sua área no Pantanal. Desta forma, tem-se:
a) no que se refere à área física dos seus estabelecimentos houve redução da área média daqueles situados na faixa de 10.000 a 100.000 hectares; a área média de 21.000 hectares em 1970 passou a 18.000 hectares em 1995;
b) em relação ao desempenho da atividade bovinocultura, o crescimento do rebanho apresentou taxa negativa: o efetivo de 2,5 milhões de cabeças em 1970 reduziu-se para 1,6 milhão em 1995, uma queda em média de 1,1% ao ano, no período. Na década de 1980, a retração foi de 1,9% e na de 1990, 0,4%. Esse desempenho, se analisado por qüinqüênio, dentro desses períodos, mostra-se em recuperação, e pode-se inferir que superava a crise; houve também redução do tamanho médio do rebanho por estabelecimento agropecuário (Censos Agropecuários), o que evidencia retração no volume do negócio e perda real no preço do bezerro em 40%, no período 1989 a 1999, o que se traduz em queda na renda do produtor; c) a taxa média anual de crescimento do rebanho bovino de Corumbá, MS, teve o
seguinte desempenho: 1975/1980, queda de (-2,8); 1980/1985 de (-1,9); 1985/1990, de (-0,8); 1990/1995, (-4,2); e 1995/2000, a taxa foi positiva, 1,2.
Por ser a economia pantaneira de monocultura, com base na pecuária de corte (extensiva), as crises internas e externas nela se refletem. Estas levam à retração nos negócios e certa letargia econômica, o que motiva a população a migrar. Com a migração, há o desenraizamento de pessoas e famílias, assim, importantes laços afetivos, de pertinência ao lugar, culturais e saberes são rompidos, com perda não quantificável. Essas questões são abordadas no item sobre o capital social.
Sobre as vendas das propriedades rurais, concretamente pode-se verificar que aproximadamente sete por cento das propriedades pantaneiras foram vendidas para agropecuárias (CEZAR, 1999). Seus proprietários têm forma diferente de “tocar a
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As sucessões cheias e secas tornam as estradas intransitáveis parte do ano, a sua salinização por lixívia das chuvas e resultado do “pouso” do gado (que dorme nos locais limpos, de preferência estradas, ali defecando). 51
Dos quatro municípios que formam o Parque Natural Regional do Pantanal, tem-se Corumbá. Embora não seja aquele que tem maior área no Parque, é o de maior representatividade pantaneira, uma vez que 98% de sua área está no Pantanal.
propriedade”52, entre elas o gerenciamento, principalmente naquelas unidades nas quais o proprietário não está presente permanentemente, caso de pecuaristas com residência fora do Estado, principalmente paulistas. Essas propriedades são modernas, usam tecnologia de porte na produção pecuária e são geridas nos moldes da “definição marshalliana” do empresário, cuja função empresarial é exercida pelo mannagement em seu sentido mais amplo. Seus proprietários geralmente estão diversificando suas atividades e têm pouca identidade com o lugar e suas peculiaridades.
Aquelas fazendas pertencentes à família pantaneira exploram a pecuária de corte como atividade principal, com predominância de cria e, em algumas delas é que estão se operando mudanças econômicas, principalmente a partir da década de 1990. Unidades turísticas rurais, como hotéis, pousadas, áreas de camping e acampamentos de pescadores, estão sendo instaladas, graças à paisagem exuberante, com riqueza de fauna e flora, rios e lagos. As relações de produção, comparativamente com as outras, são as mais bem estruturadas.
A letargia no crescimento econômico e populacional reflete-se na organização e no desenvolvimento econômico dos moldes de desenvolvimento capitalista. Observa-se frágil organização social. As relações de trabalho são fundamentadas em estrutura regional e nesta não há organização dos trabalhadores.
De maneira geral, os proprietários rurais ainda exploram e gerenciam sua propriedade exercendo as funções de técnico, agente de compra e venda, chefe de escritório, diretor de pessoal, e, às vezes, seu próprio consultor geral de negócios. Isto, entretanto, não exclui novas combinações de formas de gerenciamento.
Muitas vezes é o fazendeiro tradicional que opta pelas mudanças. Alguns residem nas fazendas com a sua família, em especial aqueles que “tocam” pousadas pantaneiras e, em um trabalho coletivo, exercem a função de anfitriões dos grupos, ao mesmo tempo em que administram seu negócio e estão atentos às inovações em uma forma mista de exploração: a pecuária associada ao turismo rural na forma de acolhimento em pousada.
Vale registrar que há casos de retorno da família a morar no campo, inclusive com filhos com formação acadêmica em área rural, para trabalharem em conjunto. Adotando novas formas de exploração e gestão, diversificam a propriedade com turismo, melhoramento genético e outros. Nas propriedades rurais popularizou-se o uso de computadores e aparelhos de comunicação, conectados assim à economia da informação.
Isto é chamado de mudança de base técnica: a pecuária dá sinergia para o turismo rural e este para a pecuária, já que são interdependentes, e eles são fertilizados pelas inovações introduzidas. Essas inovações envolvem mudança institucional e psicológica, uma vez que mudaram suas formas de agir e pensar.