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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.2 CARACTERÍSTICAS EMPREENDEDORAS E COMPORTAMENTO EMPREENDEDOR

Schumpeter (1997) descreveu os empreendedores como indivíduos inovadores, que visam reformar ou revolucionar o padrão de produção, gerando inovação de processos e de tecnologia por meio da atividade empreendedora. Esta atividade é entendida por ele como a ação empresarial, desenvolvida por indivíduos com características especiais, sendo que estes são detentores de habilidades específicas (SCHUMPETER, 1997).

A respeito do processo de incubação, Engelman e Fracasso (2013) salientam que considerar as características empreendedoras – busca de oportunidades e proatividade, tolerância ao risco, persistência, exigência de qualidade, comprometimento, busca de informações, estabelecimento de metas, planejamento, persuasão, independência (MCCLELLAND, 1972) e outras habilidades e características individuais – pode contribuir para o sucesso dos empreendimentos que vivenciaram este processo, razão pela qual tais características ganham relevância, devendo ser desenvolvidas (RAUPP e BEUREN, 2009). Para estes autores, nem todos possuem habilidades que permitem empreender. Entende-se que são necessárias algumas características inerentes ao indivíduo e outras que possam ser aprendidas. O conjunto dessas características permite converter o esforço desse indivíduo, denominado empreendedor, em desenvolvimento de uma nova ideia, que culminará com a criação de um empreendimento.

Segundo Câmara e Andalécio (2012), é vasta a literatura sobre o que são os empreendedores e suas características mais marcantes. As características dos empreendedores que apareceram com mais frequência nessa perspectiva foram: inovação, liderança, riscos moderados, independência, criatividade, energia, tenacidade, originalidade, otimismo, orientação para resultados, flexibilidade, iniciativa, envolvimento em longo prazo, autoconfiança, agressividade, sensibilidade a outros, tendência a confiar nas pessoas, dinheiro como medida de desempenho, entre outras (CÂMARA e ANDALÉCIO, 2012).

McClelland (1972), tendo como premissas o enfrentamento de desafios e a percepção de oportunidades dos indivíduos, classificou a sociedade em dois grupos, os que apresentam predisposição para empreender, minoria da população, e os que não se disporiam a correr riscos de tal natureza, que representam a maioria da população.

O estudo das características do primeiro grupo permitiu a McClelland traçar um perfil empreendedor, que está continuamente em busca de realização profissional e pessoal. Zampier e Takahashi (2011) salientam que este perfil é marcado por ações empreendedoras, sendo que tais ações refletem o comportamento empreendedor, o que corrobora a ideia de McClelland (1972), que segmentou estas características em três conjuntos de ações: realização, planejamento e poder. Esses conjuntos apontam uma série de competências, caracterizadas pelo comportamento empreendedor frente aos desafios vivenciados em seu cotidiano.

O empreendedor não é um ator social estático no que se refere ao seu comportamento, e sim um ser dinâmico nessa questão comportamental. Estes indivíduos não se desviam de seus objetivos, eles agem repetidamente ou mudam de estratégia, a fim de enfrentar desafios e superar obstáculos, mesmo que, para tanto, seja necessário o sacrifício pessoal (CARREIRA et al., 2015).

Seu comportamento empreendedor depende não só das características empreendedoras, mas também de contextos ambientais específicos (STOROPOLI; BINDER; MACCARI, 2013),daí sua transitoriedade, entendida às motivações para empreender. Para Frota; Brasil e Fontenele (2014), os empreendedores são impulsionados pela necessidade de sobrevivência, de concretização de uma ideia ou simplesmente pelo desejo de se tornarem donos do próprio negócio.

Ante os desafios demandados pela criação de um novo negócio, o empreendedorismo e a inovação têm se destacado como alguns dos temas emergentes, constituindo-se em importantes instrumentos na busca de soluções para os problemas sociais, para a geração de trabalho e renda, e na busca pelo desenvolvimento social e econômico (CASADO; SILUK; ZAMPIERI, 2012). Diante da relevância destes temas, Filardi et al., (2012) investigaram em seu estudo os principais fatores associados à mortalidade precoce das micro e pequenas empresas e constataram que as características ligadas diretamente ao comportamento do empreendedor à frente do negócio, mostraram-se decisivas na

(continua)

sobrevivência das empresas estudadas. Daí a importância de políticas públicas de apoio à ações que visam melhorar a visão estratégica e a competitividade destas empresas, por meio da aprendizagem empreendedora (MORAIS e BERMÚDEZ, 2013).

Para Nassif, Hashimoto e Amaral (2014), as características pessoais, incluindo a sua capacidade inovadora e a experiência acumulada, bem como o constante aprimoramento das habilidades para criar e gerenciar negócios, são a chave para os empreendedores alcançarem o sucesso. Diante disso, e de um mercado altamente competitivo, constata-se a importância em levantar algumas questões relacionadas ao comportamento empreendedor frente ao desafio do mundo dos negócios (SIQUEIRA et al., 2015).

O Quadro 4 demonstra a relação entre as características empreendedoras e o comportamento empreendedor, dentro das categorias descritas por McClelland (1972; 1987).

Quadro 4 – Características empreendedoras e comportamento empreendedor

Categoria Características Comportamentos

Realização

Busca de oportunidades e

iniciativa

Faz as coisas antes de solicitado, ou antes, de forçado pelas circunstâncias; Age para expandir o negócio a novas áreas, produtos ou serviços; Aproveita oportunidades fora do comum para começar um negócio, obter financiamentos, equipamentos, terrenos, local de trabalho ou assistência.

Correr riscos calculados

Avalia alternativa e calcula riscos deliberadamente; Age para reduzir os riscos ou controlar os resultados; Coloca-se em situações que implicam desafios ou riscos moderados.

Persistência

Age diante de um obstáculo significativo; Age repetidamente ou muda de estratégia, a fim de enfrentar um desafio ou superar um obstáculo; Faz um sacrifício pessoal ou desenvolve um esforço extraordinário para completar uma tarefa.

Exigência de qualidade e

eficiência

Encontra maneiras de fazer as coisas melhor, mais rápido ou mais barato; Age de maneira a fazer coisas que satisfazem ou excedem padrões de excelência; Desenvolve ou utiliza procedimentos para assegurar que o trabalho seja terminado a tempo ou que o trabalho atenda a padrões de qualidade previamente combinados.

Comprometimento

Assume responsabilidade pessoal pelo desempenho necessário ao atingimento de metas e objetivos; Colabora com os empregados ou se coloca no lugar deles, se necessário, para terminar um trabalho; Esmera-se em manter os clientes satisfeitos e coloca em primeiro lugar a boa vontade a longo prazo, acima do lucro a curto prazo.

Categoria Características Comportamentos

Planejamento

Busca de informações

Dedica-se pessoalmente a obter informações de clientes, fornecedores e concorrentes; Investiga pessoalmente como fabricar um produto ou fornecer um serviço; Consulta especialista para obter assessoria técnica ou comercial.

Estabelecimento de metas

Estabelece metas e objetivos que são desafiantes e que têm significado pessoal; Define metas de longo prazo, claras e específicas; Estabelece objetivos mensuráveis e de curto prazo.

Planejamento e monitoramento sistemáticos

Planeja dividindo tarefas de grande porte em subtarefas com prazos definidos; Constantemente revisa seus planos, levando em conta os resultados obtidos e mudanças circunstanciais; Mantém registros financeiros e utiliza-os para tomar decisões.

Categoria Características Comportamentos

Poder

Persuasão e redes de contato

Utiliza estratégias deliberadas para influenciar ou persuadir os outros; Utiliza pessoas-chave como agentes para atingir seus próprios objetivos; Age para desenvolver e manter relações comerciais.

Independência e autoconfiança

Busca autonomia em relação a normas e controles de outros; Mantém seu ponto de vista mesmo diante da oposição ou de resultados inicialmente desanimadores; Expressa confiança na sua própria capacidade de completar uma tarefa difícil ou de enfrentar um desafio. Fonte: Adaptado de McClelland (1972; 1987).

Tais características podem ajudar os indivíduos a enfrentar os desafios de empreender (MCCLELLAND, 1972), assim como a inexistência delas, pode inviabilizar a formação de um negócio. Para Minello (2014), o comportamento do empreendedor, no papel de gestor do seu próprio negócio, evidencia-se também na sua capacidade de lidar com a adversidade e na própria adversidade. Mizumoto etal. (2010) detectaram que uma das principais razões para interrupção dos negócios é a falta de práticas de gestão, particularmente planejamento e busca de informações. Neste sentido, o ensino do empreendedorismo pode ajudar a aprimorar tais características e habilidades de gestão, promovendo a aprendizagem empreendedora (FIALA, 2012; ZAMPIER; TAKAHASHI, 2014; LEIVA; ALEGRE; MONGE, 2015), tema do tópico a seguir.

Cabe ressaltar, que os conceitos de características empreendedoras e comportamento empreendedor apresentados no Quadro 4, adotados para fins de análise dos dados, são os descritos por David McClelland (1972).