Características epidemiológicas e clínicas das populações

No documento ÍNDICE AGRADECIMENTOS...4 RESUMO...6 ABSTRACT...13 ABREVIATURAS...20 (páginas 165-168)

3.3 Modelos preditivos

4.2.4 Comparação com modelos desenvolvidos em doentes idosos com AVC

4.2.4.2 Características epidemiológicas e clínicas das populações

A importância da comparação dos dados epidemiológicos e clínicos das populações dos vários estudos, e das variáveis utilizadas para as descrever, deve-se a que o resultado duma análise multivariável é fortemente afectado pelas variáveis independentes utilizadas e suas características.83

Os doentes incluídos no presente estudo tinham idade igual ou superior a 70 anos, sendo este limiar diferente do limiar utilizado em todos os estudos seleccionados para esta comparação: ≥65 anos, para o estudo de Shen et al;116 ≥75 anos, para o estudo de Bhalla et al;121 ≥80 anos, para o estudo de Di Carlo et al;109 ≥85 anos, para o estudo de Arboix et al.114

Aproximadamente dois terços dos doentes, no presente estudo, eram do género feminino.

Esta proporção, aparentemente muito semelhante às proporções encontradas por Di Carlo et al,109 Arboix et al114 e Bhalla et al,121 que são, respectivamente, 66,9%, 70% e 68%, deixa de o ser se se entrar em consideração com os limites de idade que definem cada coorte. No estudo de Shen et al116 a proporção de mulheres era muito inferior à dos outros estudos (52%), o que pode, pelo menos em parte, ser explicado pela idade mais jovem dos doentes deste estudo. A proporção de mulheres na população geral aumenta com a idade, devido à sua esperança de vida mais longa, o que se reflecte num número progressivamente mais elevado de doentes do género feminino à medida que a idade avança, embora a razão entre as taxas de incidência específicas de cada género se mantenha inalterada.27 Como cada coorte tem um limiar de idade para inclusão de doentes diferente, as proporções de doentes do sexo feminino encontradas em cada estudo não são comparáveis.

A caracterização quanto a condições de vida e a factores de risco cerebrovasculares é muito variável de estudo para estudo, sendo mais exaustiva nuns estudos do que noutros.

Apenas no estudo de Di Carlo et al são apresentados os dados relativos a todos os

factores de risco considerados mais importantes, enquanto que, em relação a condições de vida, é apenas referida a proporção de doentes institucionalizada pré-AVC.109 Nos outros três estudos, os dados relativos a factores de risco cerebrovasculares são mais escassos, não havendo sequer informação sobre fibrilhação auricular no estudo de Bhalla et al.121 Nos estudos de Bhalla et al121 e de Shen et al116 os dados referentes a condições de vida são mais detalhados do que nos outros estudos. Outro aspecto a dificultar a comparação entre os estudos está na utilização de diferentes critérios para definir cada factor de risco, o que acontece mesmo no caso dos factores de risco mais importantes, como HTA e fibrilhação auricular. No estudo de Arboix et al114 não é dada qualquer definição para a maior parte dos factores de risco.

No presente estudo a proporção de doentes com HTA pré-AVC foi muito elevada (73,9%), superior às proporções encontradas no estudos de Di Carlo et al109 e Shen et al116 (44% e 63%, respectivamente). Nos outros dois estudos não são fornecidos dados sobre este factor de risco.114,121 No estudo de Di Carlo et al,109 o limiar utilizado para definir hipertensão arterial foi mais elevado do que o do presente estudo, devendo ser esta, pelo menos, uma das explicações para a diferença nos valores de prevalência encontrados. Em relação a fibrilhação auricular, no presente estudo, a proporção de doentes com este factor de risco foi de 36%, ligeiramente mais elevada do que a encontrada nos estudos de Arboix et al114 e Shen et al116 (32% em cada), e bastante mais elevada do que a encontrada no estudo de Di Carlo et al109 (26,3%). É de referir que a definição da variável fibrilhação auricular, usada neste último estudo, foi semelhante à do presente estudo, e, sendo os doentes do estudo de Di Carlo et al109 mais velhos, deveriam ter uma prevalência mais elevada de fibrilhação auricular. Contudo, o estudo de Di Carlo et al109 inclui vários subtipos patológicos de AVC, o que torna difícil qualquer comparação entre as populações.

Subjacente a todas estas comparações deve estar sempre presente que a coorte do presente estudo é, à partida, muito diferente das coortes dos outros estudos, em particular, relativamente aos tipos patológicos de AVC incluídos e relativamente à idade, que vai desde doentes com 65 anos ou mais, até doentes com 85 anos ou mais. Para além disso, a coorte do presente estudo sofreu ainda um processo de selecção adicional, ao serem excluídos os doentes com incapacidade prévia ao AVC.

A caracterização do estado funcional anterior ao AVC, quando existe, é feita de maneira

114

estudos, foi utilizada uma escala diferente em cada estudo: a escala de Rankin modificada (score <2 versus ≥2), no estudo de Di Carlo et al;109 o índice de Barthel (score>18 versus

≤18, numa escala de 0 a 20) no estudo de Bhalla et al;121 e a escala “Functional Independence Measure” (FIM)214 no estudo de Shen et al.116 No presente estudo, como já referido, foram excluídos os doentes com incapacidade prévia ao AVC, definida como um score de Rankin > 2. Ligada com o estado funcional pré-AVC está a presença de comorbilidades, cuja descrição foi muito limitada em todos os estudos em análise, e em nenhum deles foi utilizada uma escala de comorbilidade, como no presente estudo.

A forma como é avaliada a gravidade do AVC, que é um factor fundamental para modelos de prognóstico a aplicar em doentes com AVC agudo, é um dos aspectos em que os estudos mais diferem. Todos os estudos em análise utilizam formas não padronizadas para avaliar a gravidade neurológica dos AVCs.109,114,116,121

São diferentes tanto o número como o tipo das variáveis neurológicas individuais escolhidas. Uma variável de prognóstico tão importante como nível de consciência é avaliada em dois estudos através da escala de coma de Glasgow, dicotomizada em coma/não coma,109,121 noutro estudo é feita uma avaliação qualitativa (estado de consciência alterado/não alterado),114 e no último é avaliado apenas o componente verbal da escala de coma de Glasgow.116 No presente estudo, a gravidade do AVC foi avaliada duma forma padronizada, através da escala de NIHSS. Vários estudos, do mesmo modo que o presente estudo, têm demonstrado que, após ajustamento para a gravidade do AVC, medida através do NIHSS, muitos preditores de prognóstico potenciais perdem significado estatístico.82,215 Estas diferenças, por si só, tornam os estudos dificilmente comparáveis.

Outra forma de avaliar clinicamente o AVC agudo é através da aplicação da classificação clínica do OCSP. Esta classificação considera quatro subtipos clínicos, de gravidade distinta e com implicações de prognóstico, e tem boa fiabilidade e validade.133 Foi aplicada apenas num dos estudos,109 tendo sido encontradas proporções dos vários subtipos clínicos muito diferentes das do presente estudo. Contudo, nesse estudo, 41,3%

dos doentes, no grupo com idade igual ou superior a 80 anos, não tiveram o seu tipo patológico de AVC definido, por falta de imagiologia cerebral, tornando impossível qualquer comparação relevante.

No documento ÍNDICE AGRADECIMENTOS...4 RESUMO...6 ABSTRACT...13 ABREVIATURAS...20 (páginas 165-168)