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Características fundamentais do casamento

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2.1 FAMÍLIA ISRAELITA NO PERÍODO DOS PATRIARCAS

2.1.3 Características fundamentais do casamento

Sobre casamento, De Vaux (2004, p. 56) faz uma declaração interessante convidando o leitor a observar que

[...]em Israel, como na Mesopotâmia, o casamento é um assunto puramente civil e não é sancionado por nenhum ato religioso. Malaquias (2,12) chama a esposa ‘mulher de tua aliança’ berît, e que com frequência berît se refere a

um pacto religioso, mas aqui este pacto não é senão o contrato de casamento.

YHWH é introduzido como testemunha da aliança matrimonial. Em Pr 2,17 o casamento é chamado “a aliança com Deus” e, na alegoria de Ez 16,8, a aliança do Sinai torna-se o contrato de casamento entre YHWH e Israel. Wolff (1978) observou que ao analisar o Antigo Testamento em busca de aspectos sobre direito matrimonial, não há um termo próprio que defina a instituição, pois de fato, os dois, homem e mulher, compreendem o conjunto da família da qual participavam quatro gerações garantindo a continuidade da “casa paterna” (bet’ab= grande família).

Na época patriarcal, o costume era o de que o homem possuísse somente uma mulher, como foi no início, no relato da criação, onde os casamentos eram monogâmicos (Gn 2,21-24). Abraão possuía apenas uma mulher. Holanda (2011, p. 17) defendeu que, embora Abraão, Jacó, Davi e Salomão tivessem mais de uma mulher, o modelo de família idealizado por Deus é monogâmico. Com origem em Gênesis, Deus criou uma mulher só para Adão quando percebeu que este estava só. Eva seria a auxiliadora adequada, suficiente para cumprir o propósito de Deus de dar uma companheira a Adão (Gn 2,18). De acordo com Soares (apud HOLANDA, 2011, p. 17) “O fato de alguns homens bíblicos possuírem duas mulheres, não quer dizer que Deus aprova tal prática”. Nos escritos históricos, encontram-se as mulheres, principalmente no papel de mãe, que ensina e nutre ou a esposa, ajudante de seu marido.

Os patriarcas seguiam os costumes do oriente e dos seus ambientes. Era a Canaã da Idade Média do Bronze, e não a Canaã do Império Egípcio. Segundo o código de Hamurabi (1700 a.C.), marido não poderia tomar uma segunda mulher a não ser em caso de esterilidade da primeira. A mulher estéril era quem arrumava uma concubina escrava para o seu marido. A esposa titular era única e só ela possuía o direito de esposa (HOLANDA, 2011, p.18).

Havia uma preferência por casamentos dentro do clã, de acordo com Douglas (2006, p. 490), como por exemplo os casamentos de Isaque com Rebeca (Gn 24,4) e de Jacó com Raquel e Lia (Gn 28,2). Esta escolha por parentes era uma herança da vida tribal. A forma que se usava para ter uma esposa era por compra36, no

entanto, o serviço poderia substituir o pagamento, como no caso de Jacó, que serviu a Labão por catorze anos para ter direito a casar-se com suas filhas (Gn 29,16-18). Há referência a casos em que as exigências aumentaram no decorrer do tempo, como o caso de Jacó e também Davi, do qual Saul exigiu serviços militares por sua filha Mical, a saber, a entrega de cem prepúcios de filisteus (1 Sm 18,25). Pago o valor da taxa, o casamento fica ratificado (WOLFF, 2007, p. 256). A mulher então, entra na comunidade de moradia da família do homem (Gn 24,5-8), mas também outras modalidades parecem possíveis, como o caso de Jacó que entra na família de Labão (Gn 31,26-43).

Havia, contudo, casamentos fora da parentela, e inclusive casamentos com mulheres estrangeiras Esaú tem mulheres hititas (Gn 26,34), José uma egípcia (Gn 41,45), Moisés uma midianita (Ex 2,21), as duas noras de Noemi são moabitas (Rt 1,4), e tantos outros exemplos. E por outro lado, moças de Israel que se casaram com estrangeiros como Bate-Seba com um hitita (2 Sm 11,3). Casamentos mistos eram proibidos por lei em Israel (Ex 34, 15-16; Dt 7,3-4), consideravam como atentado à pureza de sangue e colocavam em perigo a fé religiosa (1 Rs 11,4). De acordo com De Vaux (2004, p.54) a comunidade que voltou do Exílio, continuou realizando casamentos mistos (Ml 2,11-12), Esdras e Neemias tomaram algumas

36 Via de regra, o homem que quer obter para si uma mulher precisa pagar uma taxa de casamento

(mohar) ao pai da noiva (Ex 22,16). Seu valor estava regulamentado por todas as disposições práticas de Deuteronômio 22,29 que fixa a soma de 50 siclos de prata. Trata-se aí de um caso de castigo por ocasião de um casamento obrigatório depois da violação de uma moça que não era noiva. Em tal caso, o homem também pode facultar a respectiva família que determine o valor da taxa de casamento, pois em Gênesis 34,11s Siquém propõe pagar por Diná. Em Levítico 27,4s, o valor geral de uma mulher é de 30 siclos se ela tem mais de 20 anos, e 10 em caso de idade inferior (WOLF, 1978, p. 255-256).

medidas que não parecem ter sido muito eficazes (Esd 9,10; Ne 10,31; 13,23-27). Essas proibições não foram muito consideradas.

Wolff (1978, p. 260-261) faz um destaque importante em relação ao casamento no Israel antigo. Não faltam nos textos sagrados, descrições comoventes em relação ao amor, entre marido e mulher. Jacó amava Raquel, aumentou o tempo de serviço por mais sete anos e o texto diz que “aos seus olhos eram como um dia, tanto que ele amava” (Gn 29,16-18). Elcana procurava consolar sua mulher que não tinha filhos (1 Sm 1,5). Em outras situações, a mulher tomava iniciativa no amor, Mical filha de Saul enamora-se de Davi (1 Sm 18,20). Como geralmente o casamento era uma escolha do pai, frequentemente o amor só aparecia após o casamento, como por exemplo, a relação de Isaque e Rebeca, que Eliezer lhe trouxe de longe (Gn 24,67). Coleman (1991, p. 110) descreve que “o conceito de amor daquela época era bastante diferente de algumas das noções que temos em nossos dias [...] naquela ocasião a crença era de que depois que se casassem viriam a amar-se”.

A relação matrimonial era regulamentada com cuidado extraordinário para a grande família, pois a lei do levirato, sobre a qual dissertaremos a seguir, parte do pressuposto de que os irmãos moram juntos, portanto, que existe a grande família, a qual deve continuar também no futuro, e também tinha importância e interesse de conservar unidos os bens da família por meio da exclusão de estranhos.

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