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Características Gerais

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3. Características dos Sobredotados

3.1. Aproximação às Idiossincrasias

3.1.1. Características Gerais

A abordagem conceptual da inteligência e dos seus instrumentos de medida foi acompanhada de um interesse permanentemente renovado acerca da natureza do sobredotado, suas características intrínsecas e comportamentos associados.

Ainda que numa linha teórica de valorização do QI, a investigação realizada por Terman, na década de 20, representa a tentativa pioneira de levantamento das principais características idiossincráticas do indivíduo sobredotado (Colangelo & Davis, 2003:6). Foi sua intenção acompanhar um grupo de 1528 indivíduos sobredotados até aos quarenta anos, identificados através de testes de QI durante a infância, no sentido de perscrutar, por um lado, os seus traços físicos, intelectuais e de personalidade e, por outro, o tipo de adultos em que se tornariam.

Do seu estudo, concluiu, num artigo de 1954 (Terman, 2009:11), que estes indivíduos apresentavam: uma herança e um meio ambiente superior; superioridade física (estatura, peso, desenvolvimento ósseo, maturação, etc.) relativamente aos pares; saúde e êxito social; nível de interesse mais elevado e maior êxito académico; maior número de leituras realizado; pontuação superior à dos colegas de turma nos testes de rendimento em dois ou três anos.

Tais conclusões vieram derrubar muitas ideias erróneas que proliferavam na época acerca do sobredotado, entre as quais se destacam as seguintes afirmações: a sobredotação e a insanidade estão intrinsecamente associadas11, a criança precoce apresenta também um declínio precoce da sua inteligência, e a criança brilhante é fraca e doente, pelo que, a sua inteligência superior é uma forma de compensar a sua inferioridade noutras áreas, que não a intelectual.

A investigação de Terman e da sua equipa não só veio desmistificar todas aquelas ideias, como veio anunciar novos dados: os sobredotados apresentam um desenvolvimento físico mais acelerado e também um comportamento sócio-moral mais ajustado (Alencar, 2007:373; Valle, 2001:23; Alencar & Fleith, 2001:62-63).

Embora a investigação de Terman tenha recebido críticas, foi fundamental para os trabalhos posteriores, pois a partir dele, o âmbito da investigação em torno da sobredotação converte-se em terreno fértil de concepções diversas, mas que apresentam um ponto em comum – a defesa de que o QI não pode ser o critério exclusivo para definir um sobredotado e que não possibilita a identificação de indivíduos que, mais tarde, se destacaram em actividades artísticas, como a música, a pintura ou o desporto. O próprio Terman, no artigo referido anteriormente (2009:121), acabou por se convencer de que outros factores, como a personalidade e os factores ambientais, para além da inteligência, determinam, de um modo essencial, que um indivíduo alcance o êxito na vida. Registou-se, assim, uma ampliação do conceito, que passou a incluir crianças consideradas talentosas por apresentarem outros talentos e não, ou unicamente, o talento intelectual.

Foi com o aparecimento da Teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner que a abordagem à natureza idiossincrática do sobredotado – áreas/características em que se manifesta o seu comportamento – conhece novo impulso, revestindo-se de perspectivas inovadoras, como as de Renzulli, Winner e Guenther, e dos seus respectivos percursores. Ao colocar de lado o conceito unidimensional de inteligência, Gardner fundamenta a ideia de uma multiplicidade de ‘sobredotações’, de acordo com os tipos de inteligência que mais se evidenciem no indivíduo, o que terá inspirado a proposta conceptual de Falcão (1992:70):

“Criança sobredotada é aquela que possui um potencial humano de nível superior e frequência constante em qualquer uma, ou mais, das áreas operacionais das I.M. (Inteligências Múltiplas), permitindo prognosticar, se fornecidas adequadas oportunidades de desenvolvimento, um elevado grau de competência específica, quer na solução de problemas, quer na criação de problemas”.

De acordo com este enquadramento teórico, e tal como referimos anteriormente, a concepção de Renzulli (cit. in Lombardo, 1997:37-38) acerca das características dos sobredotados invoca aspectos relacionados com a capacidade intelectual em geral e aptidão académica específica, o pensamento criativo e produtivo, a liderança, as artes plásticas, a capacidade psicomotora, a motivação e a vontade. Para o autor, crianças e jovens sobredotados revelam um conjunto bem definido de traços: obtêm facilmente êxito na aquisição de conhecimentos ou competências, manifestam uma capacidade de trabalho invulgar orientada pela perseverança e motivação, e mostram um pensamento criativo e divergente, pela frequência e natureza das suas perguntas, jogos e associações de ideias. Como nos diz Renzulli (1986, cit. in Rodrigues, 1992:46- 47),

“O comportamento sobredotado consiste em comportamentos que reflectem uma interacção entre três agrupamentos básicos de traços humanos – sendo tais agrupamentos capacidades gerais ou específicas superiores à média, níveis elevados de empenho na tarefa e níveis elevados de criatividade. As crianças sobredotadas e talentosas são as que possuem ou são capazes de desenvolver este conjunto compósito de traços e de aplicá-lo a qualquer área potencialmente válida de desempenho humano”.

Nesta medida, e no sentido de facilitar a avaliação do professor em relação às características do aluno, Renzulli, Smith, White, Callahan e Hartman, em 1976 (cit. in Alencar & Fleith, 2001:73-74), desenvolveram as

Escalas para Avaliação das Características Comportamentais de Alunos com Capacidades Superiores, revistas em 2000, as quais contemplam os seguintes

itens: (i) possui um vocabulário avançado para o seu nível etário, com riqueza expressiva, elaboração e fluência (na área de aprendizagem); (ii) necessita de pouca motivação externa para dar continuidade a um trabalho que lhe agrada (na área de motivação); (iii) demonstra grande curiosidade acerca de várias coisas, o que evidencia mediante um questionamento constante (na área de criatividade); (iv) revela auto-confiança, tanto no seu relacionamento com os pares como com os adultos (na área da liderança); (v) tende a seleccionar a arte como meio de expressão para actividades livres ou projectos em sala de aula (na área das artes); (vi) é sensível ao ritmo da música (na área da música); (vii) usa gestos e expressões faciais de forma efectiva para comunicar os seus sentimentos (na área do teatro); (viii) possui várias formas de expressar ideias, de modo a ser compreendido pelos outros (na área da comunicação); (ix) determina as informações e os recursos que são necessários à realização de uma tarefa (na área da planificação).

Esta tentativa de encontrar alguns traços específicos de crianças e jovens sobredotados também está patente nas pesquisas de Winner. Para a investigadora em Psicologia Infantil em Harvard, não obstante a constatação dos grandes avanços no estudo da sobredotação, não se pode ignorar os mitos e concepções falaciosas em que o mesmo se encontra enredado e que já tratamos anteriormente (cf.cap1,1.3:14). Para lá destas ideias erróneas, Winner

(1996:16-17) chama a atenção para algumas características atípicas da criança sobredotada e que fazem dela um ser qualitativamente distinto da criança normal: a precocidade, uma insistência em se desenvencilharem sozinhas e uma sede enorme de conhecimentos. Tal significa que, por um lado, inicia a aprendizagem de um domínio numa idade inferior à média das outras crianças; por outro, goza de autonomia e de um ritmo próprio na resolução de problemas

e, finalmente, é intrinsecamente motivada no domínio em que revela maior precocidade. Assim, como nos diz, “Se existem indivíduos capazes de resolver a vasta panóplia de problemas que ameaçam a sobrevivência humana, vamos encontrá-los certamente neste grupo” (Winner, 1996:25).

Na sequência dos trabalhos realizados por Renzulli (1984), que contribuíram para a aproximação à especificidade das competências e dos comportamentos do sobredotado, o Ministério da Educação Português divulgou, em 1998, um documento que pretendia, por um lado, esclarecer a problemática da sobredotação e, por outro, propor estratégias diversificadas de intervenção educativa junto destas crianças e destes jovens, nos seus meios privilegiados de actuação: a escola e a família. Deste texto retiramos as principais características comportamentais de crianças e jovens sobredotados, de acordo com diversas áreas – aprendizagem, motivação, criatividade,

liderança e domínio sócio-moral – e que elencamos no quadro 2.

No referido documento salienta-se a natureza geral e aberta da formulação de tais características que devem ser meramente identificativas e referência para uma intervenção educativa adequada. Trata-se, pois, de facilitar um trabalho de sinalização de alguns traços relativamente abstractos e, por diversas vezes, escondidos ou disfarçados na sala de aula, e que Serra (2004b:48) enunciou de acordo com os seguintes atributos:

“ […] percepção e memória elevadas, raciocínio rápido, habilidade para conceptualizar e abstrair, fluência de ideias, flexibilidade de pensamento, originalidade e rapidez na resolução de problemas, superior inventividade e produtividade, elevado envolvimento na tarefa, persistência, entusiasmo, grande concentração, fluência verbal, curiosidade, independência, rapidez na aprendizagem, capacidade de observação, sensibilidade e energia, auto-direcção, vulnerabilidade e motivação intrínseca”.

O esforço de cada professor e educador, no atendimento às diferenças individuais dos alunos que apresentam capacidades e talentos acima da média, leva-os a procurar não só as características gerais que enunciámos, como a identificar as áreas nas quais a capacidade e o talento se expressam e que, no item seguinte, explicitamos.

Quadro 2 – Características gerais de comportamento de crianças e jovens sobredotados

CARACTERÍSTICAS NO PLANO DAS

APRENDIZAGENS

Vocabulário avançado para a idade e para o nível escolar;

Hábitos de leitura independente (por iniciativa própria); preferência por livros que normalmente interessam a crianças ou jovens mais velhos;

Domínio rápido da informação e facilidade na evocação de factos; Fácil compreensão de princípios subjacentes; capacidade para generalizar conhecimentos, ideias, soluções;

Resultados e/ou conhecimentos excepcionais numa ou mais áreas de actividade ou de conhecimento.

CARACTERÍSTICAS MOTIVACIONAIS

Tendência a iniciar as suas próprias actividades; Persistência na realização e finalização das tarefas; Busca da perfeição;

Aborrecimento face a tarefas de rotina.

CARACTERÍSTICAS NO PLANO DA CRIATIVIDADE

Curiosidade elevada perante um grande número de coisas;

Originalidade na resolução de problemas e relacionamento de ideias;

Pouco interesse pelas situações de conformismo.

CARACTERÍSTICAS DE LIDERANÇA

Auto-confiança e sucesso com os pares;

Tendência a assumir a responsabilidade nas situações; Fácil adaptação às situações novas e às mudanças de rotina.

CARACTERÍSTICAS NOS PLANOS SOCIAL E DO JUÍZO MORAL

Interesse e preocupação pelos problemas do mundo; Ideias e ambições muito elevadas;

Juízo crítico face às suas capacidades e às dos outros;

Interesse marcado para se relacionarem com indivíduos mais velhos e/ou adultos.

In Ministério da Educação (1998:8).

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