4. Agentes Educativos
4.1. O Papel da Família
A família, instituição que providencia a socialização da criança e a sua educação primária, de acordo com os padrões socioculturais vigentes, deve ser entendida não apenas no sentido biológico do termo, por referência exclusiva aos progenitores que deram origem à criança, mas no sentido mais alargado, por alusão ao conjunto dos adultos que vivem e convivem com a criança no seu quotidiano, respondendo às suas necessidades de manutenção e crescimento, constituindo exemplos e modelos para inspiração e imitação, e proporcionando-lhe os primeiros dados necessários para a compreensão do mundo (Freeman & Guenther, 2000:153).
Pela vasta literatura da Psicologia e da Sociologia, a influência da família na formação de qualquer criança é incontornável. No desenvolvimento de sobredotados, surge confirmada num estudo longitudinal de quatro anos, com adolescentes talentosos americanos, realizado por Csikszentmihalyi et al. (1993, cit. in Freeman & Guenther, 2000:153). Os resultados desta pesquisa indicam, por um lado, que o jovem sobredotado, ao aprender a enfrentar tarefas difíceis, quanto mais forte é o apoio social recebido, mais desenvolvidas são as suas capacidades e, por outro, que, de um modo geral, a escola é menos influente como fonte de apoio do que a família.
Ainda que a influência da família na vida de crianças/ jovens dotados e talentosos seja evidente, segundo Winner (2009a:279; 1996:201-217), não existem características familiares específicas que conduzam à sobredotação. Refere a autora que, por norma, as crianças sobredotadas crescem em ambientes enriquecidos – interessantes, variados e estimulantes – com pais que possuem um certo nível de instrução e que, por isso, proporcionam o acesso a livros, visitas a museus e a concertos, e o envolvimento em conversas complexas desde cedo. Todavia, acrescenta que nem todas as crianças sobredotadas crescem em famílias com níveis de instrução e poder económico elevados, dado que o que está em causa é, antes, a valorização da educação dos filhos, preocupando-se em proporcionar-lhes ambientes estimulantes e enriquecidos. Assim, segundo a autora (Winner, 1996:215), um estudo das famílias de sobredotados, realizado por Csikszentmihalyi, revela que as condições ideais ao desenvolvimento de talentos estão patentes nas famílias que combinam afecto, apoio, um forte grau de estimulação e expectativas elevadas.
De um modo geral, as investigações (Olszewski-Kubilius, 2002:207) sugerem que a família constitui um factor ambiental importante, ao promover um contexto favorável ao desenvolvimento da identidade do jovem sobredotado, permitindo-lhe expressar livremente os seus pensamentos, fomentar a criatividade e encarar os desafios intelectuais. Assim, caberá aos pais contribuir, de um modo positivo, para a construção de uma identidade pessoal do seu filho, proporcionando-lhe experiências de vida significativas,
acompanhando as suas descobertas, aproveitando as suas capacidades e revelando confiança nas suas habilidades (Serra, 2004a:25).
Todavia, a reacção dos pais à presença de um filho sobredotado carece de alguma invariabilidade, indo desde a incredulidade ao sentimento de orgulho, do temor à alegria, da confiança ao sentir-se perdidos (Vilas Boas & Peixoto, 2003:63). Para além disso, preparar os pais para lidar com a capacidade e o talento dos seus filhos está longe de ser uma medida directa e linear (Freeman & Guenther, 2000:159).
Tal como refere Landau (1990; cit. in Alencar, 2007:377), um dos principais obstáculos apontados pelos pais, diz respeito à dificuldade em lidar com a discrepância entre o desenvolvimento intelectual e o desenvolvimento emocional do seu filho.
Todavia, há que ter em conta algumas pressões que o contexto familiar pode exercer no percurso de vida do sobredotado, tal como foram enfatizadas por Alencar (2007:376-377): por um lado, o jovem pode encontrar na família uma oposição à sua escolha profissional, uma vez que esta não deseja vê-lo desperdiçar o talento em áreas tidas como de menor prestígio e, por outro, pode conviver com a ambição exagerada de pais que o pressionam cada vez mais, vendo nele uma alternativa para a sua própria realização e satisfação de desejos frustrados de sucesso e projecção.
Nesta perspectiva, as estratégias de apoio e aconselhamento às famílias desta população específica deve ser prioritária. De assinalar que, dado que, por diversas vezes, a atitude da família para com a criança ou o jovem em muito tem a ver com a concepção de sobredotação, entendemos que tal atendimento deve surgir no sentido de lhes proporcionar uma concepção adequada e actualizada sobre a sobredotação, suas características e necessidades educativas. Desta forma, procurar-se-á evitar atitudes desfavoráveis para com a criança, tais como, inveja e desconfiança; vaidade e exibicionismo; excessos de expectativa e de exigência; afastamento e marginalização; incompreensão e repressão (Vilas Boas & Peixoto, 2003:63).
Constatamos também que, para lá da influência que a família pode exercer no futuro da criança, esta condiciona, igualmente, a estrutura familiar, o
que confere assentimento às palavras de Winner (1996:221): “Não é apenas a família que cria a criança; a criança também desempenha um papel na criação da família”.
Esta interacção ‘criança sobredotada/família’ fundamenta a necessária intervenção junto de determinadas atitudes e comportamentos, pelo que, Serra (2004a: 25), aconselha pais e restante família a agirem no sentido de dar à criança ou ao jovem sobredotado a oportunidade de: i) seleccionar algumas experiências de aprendizagem; ii) falar com um adulto interessado; iii) representar; iv) experimentar; v) explicar-se às outras crianças; vi) ser entusiasta e receber respostas de entusiasmo.
Para a concretização de tais finalidades, sugere ainda as seguintes estratégias: i) ouvir a criança, com atenção, e estimular a sua curiosidade; ii) responder às perguntas, com paciência e bom humor; iii) promover uma convivência com crianças de diferentes talentos; iv) evitar criticá-la, comparando-a com irmãos ou colegas; v) adoptar atitudes firmes e correctas, não muito rígidas, nem demasiado permissivas; vi) demonstrar amor e carinho, não tanto pelos desempenhos da criança, mas sobretudo pela própria; vii) proporcionar um livre acesso a livros e materiais, de modo a possibilitar o aprofundamento de assuntos do seu interesse; viii) promover a sua inserção em grupos de comunidade; ix) evitar um excesso de pressão sobre os seus desempenhos excepcionais; x) resistir ao desejo de exibição da criança a parentes e amigos; xi) incentivá-la a estabelecer elevadas metas educacionais e vocacionais; xii) demonstrar coerência nas suas observações; xiii) encorajá-la a planear reuniões e comemorações com a família, colegas e amigos, propiciando a expressão da sua criatividade e originalidade; xiv) promover o diálogo com apreciações críticas sobre filmes, peças de teatro, desenho, música, pintura, investigação, economia, etc., sobretudo nos domínios que mais aprecia; xv) procurar uma real compreensão das suas dificuldades e ansiedades, de forma a favorecer a sua aceitação social; xvi) promover o confronto com outras perguntas e respostas, analisando-as e considerando que todos temos contribuições a dar, embora nem todas sejam absolutamente originais (Serra, 2004a: 26-27).
A adequação da atitude dos pais face às características e necessidades destes jovens e crianças, exige a dinamização de programas de apoio que cumpram essencialmente dois objectivos: i) a necessidade de informação, que eles transmitirão aos restantes membros da família; ii) a necessidade de se sentirem úteis na educação dos seus filhos, prevenindo situações de conflito e desajustamento familiar (Vilas Boas & Peixoto, 2003:66).
Em suma, é fundamental que a família saiba encontrar as condições essenciais para conseguir uma estimulação equilibrada do potencial dos seus filhos, ou seja, conhecer e dominar os factores que se consubstanciem nas formas adequadas de lhes proporcionar enriquecimento de vida por meio da presença e da disponibilidade, pelos estímulos possibilitados e pelas relações afectivas estabelecidas (Serra, 2008:144).
Todavia, perspectivamos o sucesso do desenvolvimento do potencial do sobredotado, mais amplamente concretizado no âmbito do estabelecimento de uma cooperação família-escola, pois só um trabalho educativo dinâmico, que contemple a iniciativa conjunta de pais e professores, será mais susceptível de conceder à criança ou ao jovem as orientações necessárias à construção harmoniosa do seu projecto individual.