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Características gerais do fenômeno glocal

CAPÍTULO II – GLOCAL E HABITUS

1. Fenômeno glocal

1.1. Características gerais do fenômeno glocal

O conceito de glocal nasce na vigência da cibercultura e de sua lógica estrutural, porém, enquanto categoria conceitual, serve de prisma para a revisão social-histórica do desenvolvimento da comunicação no século XX. Os aspectos aparentemente hegemônicos da globalização econômico-financeira e o aumento dos localismos político-culturais (que Trivinho afirma serem fatores conflitivos, quando não excludentes entre si) motivaram o surgimento do glocal no âmbito da reflexão crítica (2007, p. 247). Com a categoria do glocal, Trivinho busca dissecar os fundamentos e conseqüências da civilização mediática sob o ponto de vista social- histórico. Ao mesmo tempo, reescalona a teoria da comunicação e permite a renovação da crítica social dessa mesma civilização, sobretudo no contexto da cibercultura (ibid., p. 239-243).

O glocal, em sentido estrito, está presente desde a invenção da telefonia convencional, uma vez que, em sua estrutura, podia-se constatar a condição glocal atual: tecnologias capazes de funcionamento em tempo real, infra-estrutura de rede, espectralização da interação humana e bidirecionalidade de fluxo comunicacional, acoplamento entre ser humano e máquina, dentre outras características (2001b, p. 66-67). A partir daí, progressivamente, foram surgindo outras modalidades de glocal: os mais significativos são o rádio, a TV e, na atualidade, os meios de comunicação interativos. Dessa forma, o glocal de massa equivale, a rigor, ao “glocal radiofônico” e/ou ao “glocal televisivo”, que podem ser também denominados de “glocal da cultura de massa”. Quanto aos media interativos, remetem ao glocal cibercultural, ou

ainda, ao glocal digital ou ciberespacial, que indica o glocal próprio da presente época. Trivinho afirma que a “saga da comunicação instrumental a distância” é a saga planetária do próprio glocal (2007, p. 245).

O fenômeno glocal é selo genuíno da civilização mediática, “capaz de diferi-la [...] das outras fases sociotecnológicas” (ibid., p. 258). Ele está na base da existência dessa civilização e da forma como ela se expressa e, por isso, configura-se como o “modo predominante de irradiação sociossemiótica [...] e transmissão cultural na história contemporânea” (ibid., p. 292-293).

O glocal é, assim, uma “invenção tecnocultural original da era das telecomunicações”, embora tenha sido percebido com mais clareza no âmbito ciberespacial (cf. TRIVINHO, 2007), devido ao fato de o contexto de acesso ao cyberspace8 envolver

acoplamento mais significativo do que em qualquer outro contexto glocal, tanto no que diz respeito à indexação à “técnica eletronicamente objetalizada” (material) quanto ao “acoplamento simbólico e imaginário” (imaterial) (ibid., p. 246). A cibercultura seria, assim, a fase social-histórica mais avançada da civilização glocal, na qual se faz presente a convergência dos vários meios de comunicação em um só, os “unimedia satelizados”, e conta com um “desenvolvimento tecnológico integrado” (ibid., p. 287, grifo do autor).

Ao analisar a indexação existente entre global e local, proporcionada pela glocalização, Trivinho afirma que é neste âmbito que o glocal se mostra como realmente é: um “implante tecnológico”, que uma vez fixado no “reduto imediato de ação do corpo”, dá sustentação para a “irradiação simbólica e imaginária” daquilo que é próprio da ordem global.

Com isso, percebe-se que a acepção do glocal ultrapassa o glocal técnico – que supõe a conexão em tempo real –, e chega ao âmbito cultural e econômico. Este aspecto configura o glocal em sentido lato.

O glocal sintetiza, em seu conceito e em seu modus operandi, a proliferação social das tecnologias comunicacionais, a mundialização mercadológica da cultura, a globalização econômica e financeira e a especificidade geográfica das culturas citadinas. (TRIVINHO, 2007, p. 292).

O glocal é, assim, vetor de organização de todas as instâncias sociais, influindo nas práticas políticas e na sociabilidade, bem como nas formas de produção cultural (ibid., p. 293). Em síntese, o fenômeno glocal pode ser expresso da seguinte forma:

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O autor dá preferência à utilização do termo em língua inglesa por razões de “política da teoria”, ou seja, para expressar a origem do conceito que remonta às tensões políticas e militares no período da Guerra-fria. Permanece, assim, manifestada a relação que o conceito guarda com o campo bélico (TRIVINHO, 2007, p. 337).

um bunker9 de acoplamento corporal e simbólico-imaginário entre ser

humano e máquina processado no lugar de acesso como ambiência representativa do contexto local e umbilicalmente vinculado aos conteúdos da rede como dimensão representativa do universo global. (TRIVINHO, 2007, p. 248-249).

Vale assinalar que o fenômeno glocal ou glocalização, em virtude de possuir abrangência, adquire característica civilizatória; mescla-se ao fenômeno da própria existência. Nesse sentido, Trivinho aponta alguns aspectos que derivam do fenômeno glocal: o desejo do glocal, a mentalidade glocal, as práticas glocais e as trocas glocais. Estas derivações estão imbricadas também no contexto e na condição glocais.

O contexto glocal significa o espaço concreto onde o corpo se encontra no contexto de acesso/recepção/retransmissão, ou seja, na ambiência glocal. A condição glocal, por sua vez, significa a condição típica de vida na era mediática, que se realiza de forma mais abstrata, social-histórica, configurando-se como situação de época e envolvendo todos os contextos glocais (ibid., p. 296).

Na análise do fenômeno glocal, é necessário considerar a reconfiguração do espaço e do tempo empreendida pelo glocal, assim como se dá sua reconfiguração no processo dromológico, de Paul Virilio, em virtude das características próprias da velocidade e aceleração dos meios telecomunicacionais. O espaço, em sua acepção geográfica, materializado, é objeto de reescritura por parte do glocal, uma vez que é transformado em “arena tecnológica”, seja do ponto de vista do contexto da vivência concreta do “espaço imediato da condição glocal”, como sob o prisma da “socioespacialização tecnoimagética do aparelho de base” (a tela). No glocal interativo, até mesmo a percepção do próprio espaço local é alterada e obliterada, em virtude do isolamento corporal operado diante da tela interativa.

[...] na medida em que a consciência centra-se apenas na socioespacialização da tela, deprecia-se, do ponto de vista da vivência, a espacialização convencional imediata. (TRIVINHO, 2007, p. 254).

Dessa forma, o espaço se converte num “bunker glocal” (ibid., p. 253). Trivinho utiliza a metáfora do bunker para significar a infra-estrutura tecnológica estabelecida no campo próprio de ação do sujeito para possibilitar o acesso e a troca glocais (ibid., p. 310). O bunker (considerando a origem bélica do termo) não seria somente construção material, mas abrange o imaginário social de necessidade de defesa em relação ao mundo fora do contexto glocal. É sobretudo no bunker glocal interativo que se percebe esta configuração como uma espécie de proteção e confinamento do “sujeito interativo”.

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Bunker significa um reduto cavado no solo como proteção/defesa contra ataques inimigos em contextos de guerra (ibid., 2007). Trivinho aponta Virilio como o primeiro autor a utilizar a metáfora do bunker nas ciências humanas e sociais contemporâneas.

Não raro, os equipamentos envolvidos [...] são fixados de maneira tal que o sujeito, assim tecnologicamente “rodeado”, como numa arquitetura mínima e glacialmente rústica a lhe fazer cerco justamente para melhor resguardá-lo de ameaças exógenas, vê-se realmente autocartografado numa redoma (em geral, invisível ao si-próprio) cujo ponto capital (o seu lugar como sujeito interativo) é, por assim dizer, percebido, ao mesmo tempo, como relativamente sitiado por quem observa o cenário de fora. (TRIVINHO, 2007, p. 310).

Também a categoria do tempo sofre reconfiguração em sua representação. Torna-se “um tempo tecnicamente produzido, o tempo da instantaneidade da luz, o tempo real”. Um tempo que Virilio já havia detectado como o “tempo sem tempo” porque infinitesimal, gerado pela velocidade da luz (ibid., p. 255-256).

O fenômeno glocal se traduz, assim, em uma cadeia de “anulações empíricas”, quando espaço e tempo, por exemplo, são reduzidos a “puro fluxo”. Trivinho reforça, inclusive, que a “interface” vigora como “vértice mediático-operacional entre o espaço destruído e o tempo nulo” (ibid., p. 257).

Dentre as anulações empíricas forjadas pelo glocal, Trivinho nos recorda também a dissolução dos conteúdos das informações e imagens que, a princípio, vigeram como motivo da “invenção sociotecnológica” do glocal, em virtude da necessidade de multiplicação e proliferação das mesmas. Porém, uma vez envolvidas na lógica de “hipercircularidade” própria da ambiência do glocal, são absorvidas pelo fenômeno glocal. Por conseguinte, perdem muito de sua força de expressão e reforçam o glocal como sendo a própria informação e a própria imagem (ibid., p. 262-266).

[...] doravante é o glocal que, na realidade, se põe como sendo a própria informação e a própria imagem, ou melhor, é ele que, do ponto de vista social-histórico, passa a ser a mensagem, aquilo que, por si só, significa, independentemente dos fluxos que o perpassam. (TRIVINHO, 2007, p. 266).

Dessa forma, as informações e imagens não vigem mais como o principal valor de troca na era mediática, mas antes como “uma espécie de energia básica do glocal, o seu capital”, e contribuem para a sustentação do processo civilizatório do glocal (ibid., p. 265).

O glocal, segundo Trivinho, rege-se pela “lógica do objeto”10, isto é, significa que o

objeto passa a ocupar mais o centro da cena que o sujeito, o que registra o encontro da civilização glocal com a descentralização em relação ao sujeito da condição pós-moderna. Assim, o glocal atinge sua “consagração histórica” e seu desenvolvimento engloba um estilo de vida baseado na “teleexistência”. A “existência em tempo real” permeia o processo de glocalização da existência.

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O autor utiliza o termo objeto em sentido lato para significar “[...] todo e qualquer ente formalmente constituído [...] e todo e qualquer processo plena ou tendencialmente configurado”.

O conceito de glocalização da existência significa, precisamente, o processo pelo qual toma forma o fenômeno glocal. Este processo conhece seu mais alto grau na cibercultura, com as “socioespacializações audiovisuais” próprias desta época.

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