CAPÍTULO II – GLOCAL E HABITUS
2. Conceito de habitus em Bourdieu
A definição de habitus será imprescindível para a análise da dependência do glocal. Assim, reservou-se um tópico exclusivamente para tratar deste conceito, elaborado por Pierre Bourdieu em sua teoria da ação.
Buscar-se-á definir o habitus e destacar suas principais características, que permitirão especificar posteriormente o habitus glocalizado. O habitus em Bourdieu tem uma dinâmica própria, que demonstra o quanto ele é, a um só tempo, produto e produtor de práticas.
Sob o prisma das práticas glocais, o habitus é aspecto primordial na conservação do regime sociodromocrático cibercultural e no fenômeno da dependência do glocal.
Para abordar o conceito de habitus em Bourdieu seria interessante citar o conceito de hábito em Aristóteles, em razão de ser, segundo Barros Filho e Martino (2003), a reflexão sobre esta temática que mais se aproxima da definição de habitus como proposta pelo sociólogo francês. Para Aristóteles, o hábito está relacionado tanto a um saber prático do cotidiano quanto a um saber científico. O pensamento aristotélico a respeito do tema engloba desde a arte até a ciência, bem como a compreensão do mundo no dia-a-dia (ibid., p. 61).11
O conceito de habitus de Pierre Bourdieu muito herdou do hábito aristotélico, porém, levando em conta a relação dialética entre a prática incorporada como habitus (“sistema de classificações”) e as estruturas sociais objetivas, que Bourdieu denomina de “campo”. Este seria o espaço social onde se encontram inseridos os atores sociais, que possuem posições
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Os autores recordam que o conceito de hábito foi, também, tratado por Tomás de Aquino, exegeta de Aristóteles, para o qual o hábito seria um mediador entre “a possibilidade do conhecimento e sua efetivação”. O hábito seria, assim, mediação entre potência e ato. Outro autor que abordou este conceito foi Wittgenstein, uma das fontes filósóficas de Bourdieu. Em sua concepção, o hábito estaria vinculado a um repertório cognitivo, que uma vez incorporado passa a gerar estruturas lógicas para percepção e compreensão da realidade. (BARROS FILHO; MARTINO, 2003, p. 66-67).
fixadas a priori, mas que, posteriormente, no embate das forças concorrenciais entre os vários atores do respectivo campo, adquirem novas posições.
A teoria da prática, erigida por Bourdieu, está fundamentada no conhecimento praxiológico, que considera tanto as estruturas objetivas do mundo social, as disposições estruturadas nas quais elas se atualizam, bem como as “relações dialéticas” entre ambas. De fato, considera tanto as “necessidades dos agentes” (regidas por “sistemas de disposições duráveis”, ou seja, o habitus) quanto a “objetividade da sociedade” (ORTIZ, 1983, p. 19). Com efeito, Bourdieu buscou a superação, no âmbito da teoria social, tanto da perspectiva fenomenológica, que parte da experiência do indivíduo, quanto da perspectiva objetivista, que parte das relações objetivas que estruturam as práticas individuais (ibid., p. 8), e chegou à seguinte definição de habitus:
Sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações que podem ser objetivamente “reguladas” e “regulares” sem ser o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas, sem ser o produto da ação organizadora de um regente. (BOURDIEU, 1983, p. 61).
Bourdieu considera o habitus como conjunto de “esquemas generativos” que presidem a ação do indivíduo. À medida que há a interiorização de normas e princípios sociais, passa a existir a adequação entre as “ações do sujeito e a realidade objetiva da sociedade como um todo” (ibid., p. 15). Existiria, assim, um processo de “interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade”. Dessa forma, o habitus é orientador da ação, porém funcionando como reprodutor das estruturas objetivas que lhe deram ensejo.
[...] as práticas que o habitus produz (enquanto princípio gerador de estratégias que permitem fazer face a situações imprevisíveis e sem cessar renovadas) são determinadas pela antecipação implícita de suas conseqüências, isto é, pelas condições passadas da produção de seu princípio de produção de modo que elas tendem a reproduzir as estruturas objetivas das quais elas são, em última análise, o produto. (BOURDIEU, 1983, p. 61).
Neste ponto, pode-se retomar a reflexão de Barros Filho e Martino (2003, p. 62-63), que frisam a limitação na capacidade de atribuição de sentido em virtude do habitus, que estará sempre condicionada pelas experiências anteriores do indivíduo. A “exposição sensorial a um determinado recorte da realidade” prevê esta dimensão limitante do habitus, uma vez que haverá “caráter seletivo” no contato entre o sujeito e qualquer realidade. Uma vez que o hábito aristotélico na práxis do cidadão comum, como na práxis científica, é experienciado
sensorialmente, Aristóteles confere grande ênfase na singularidade da trajetória de cada indivíduo no meio social. O hábito constaria, assim, como construção social que leva em conta a “trajetória singular de experiências” do indivíduo e que atua, por conseguinte, como fator determinante de percepção, “dispensando, em grande medida, a reflexão do receptor”.
Entretanto, ainda que se encontre intensamente condicionada pelo habitus de trajetórias particulares, a prática do sujeito é relativamente autônoma porque é produto da relação dialética entre uma situação e um habitus. Em razão disso, não se poder afirmar que um
habitus é determinante em si mesmo, mas sempre conta com as “transferências analógicas de
esquemas” possíveis ao ator social.
Bourdieu também enfatiza o habitus como sendo resultante das trajetórias singulares dos agentes, mas cuja experiência está relacionada a sua posição no mundo social, e que produzem esquemas de percepção e apreciação, de acordo com a posição ocupada. O habitus é, por conseguinte, produtor de práticas e representações.
[...] as representações dos agentes variam segundo sua posição (e os interesses que estão associados a ela) e segundo seu habitus como sistema de esquemas de percepção e apreciação, como estruturas cognitivas e avaliatórias que eles adquirem através da experiência durável de uma posição do mundo social. O habitus é ao mesmo tempo um sistema de esquemas de produção de práticas e um sistema de esquemas de percepção e apreciação das práticas. (BOURDIEU, 2004, p. 158).
Embora os hábitos internalizados se tornem “regulares”, não se põem necessariamente como obediência a regras. Entretanto, influem no processo de construção de representações do mundo, em virtude das experiências anteriores. O habitus possui uma dimensão perceptiva que rege a atribuição de sentido e a influência sobre a “exposição seletiva” às mensagens (BARROS FILHO e MARTINO, 2003, p. 74). O indivíduo tende a buscar mensagens que sejam conformes ao hábito já incorporado. Configura-se, assim, como método de abordagem do mundo e funciona como controlador da própria trajetória. Revela-se, então, como “regulador” da exposição do sujeito ao mundo, ou seja, é o princípio da exposição seletiva que definirá as instâncias de socialização a serem freqüentadas pelo sujeito, e que já estejam de acordo com seu hábito (ibid., p. 74-81). Portanto, o habitus não seria pura obediência a normas, mas
“a mediação universalizante que faz com que as práticas sem razão explícita e sem intenção significante de um agente singular sejam, no entanto, “sensatas”, “razoáveis” e objetivamente orquestradas. (BOURDIEU, 1983, p. 73).
Bourdieu, assim como enfatiza o habitus como prática incorporada, reforça a existência e influência dos princípios sociais objetivamente estruturados na ação do indivíduo. Aqui, surge a questão da dominação, tão frisada por Bourdieu (e nisto ele segue o trabalho pedagógico de Durkheim), que pressupõe um processo de inculcação de um sistema de classificações. Este é, ao mesmo tempo, um trabalho pedagógico que administra o processo de inculcação, reproduzindo com isso as “relações hierarquizadas que estruturam a sociedade global” (ORTIZ, 1983, p. 16).
A princípio, pode parecer que o hábito seja somente produto e produtor de regras
externas ao sujeito, mas ele possui sempre duas dimensões:
O habitus se apresenta, pois, como social e individual: refere-se a um grupo ou a uma classe, mas também ao elemento individual; o processo de interiorização implica sempre internalização da objetividade, o que ocorre certamente de forma subjetiva, mas que não pertence exclusivamente ao domínio da individualidade. (ORTIZ, 1983, p. 17).
Obviamente, para Bourdieu, uma vez que os indivíduos internalizam as representações objetivas de acordo com a posição social ocupada por cada agente, ocorre uma “relativa homogeneidade” dos habitus subjetivos. Os agentes que ocupam posições semelhantes tendem a produzir práticas semelhantes, pois “as disposições adquiridas na posição ocupada implicam um ajustamento a essa posição” (BOURDIEU, 2004, p. 155). Até a busca por produtos existentes em sociedade teria sua escolha condicionada à posição ocupada pelo sujeito em um determinado “sistema de estratificação”. Isso decorre precisamente da ação pedagógica, que equivale ao processo de manutenção da socialização já desenvolvida na trajetória marcada por distintos hábitos, sendo que o hábito primário está na base de estruturação de novos hábitos e assim sucessivamente (ORTIZ, 1983, p. 17-18).
Bourdieu atenta, ainda, para as relações de poder existentes no campo, que se estruturam conforme a distribuição do que o autor denomina de “capital social”. Este “quantum social” determinaria o pólo dominante e o dominado dentro de um campo e estabeleceria as regras do jogo. Em vista do fator determinante do capital social, o ator buscaria “investir” nesse capital a fim de acumulá-lo. Entretanto, este investimento estaria condicionado à posição “atual e potencial” do ator no campo.
Dentre as modalidades de capital, Bourdieu trata, com ênfase, o capital simbólico, que detém relevante papel, uma vez que engloba todas as formas de capital, que são apreendidas por meio de percepções já internalizadas como habitus. É bastante nítido, por
exemplo, o capital simbólico na comunicação mediática como visão de mundo, como forma de representação da realidade.
O capital simbólico é uma propriedade qualquer (de qualquer tipo de capital, físico, econômico, cultural, social), percebida pelos agentes sociais cujas categorias de percepção são tais que eles podem percebê-las, entendê-las e reconhecê-las, atribuindo-lhes valor (BOURDIEU, 2007, p. 107).
Uma vez abordado satisfatoriamente o conceito de habitus na teoria da ação de Bourdieu, resta averiguar em quais aspectos este conceito poderia auxiliar na análise da intersecção entre habitus e fenômeno glocal. A apreensão das características do habitus em Bourdieu permite captar suas confluências com o habitus glocalizado, conforme explanação a seguir.