O conceito frances filieres (cadeias de producao) segmenta a cadeia produtiva em tres segmentos: producao de materias-primas, industrializacao e comercializacao. A trajet6ria de fluxo dos processos geralmente ocorre seguindo a trajet6ria que inicia no interior da propriedade rural e segue em direcao ao consumidor final. As exigencias do mercado e as necessidades do consumidor final determinam as mudancas no sistema. Neste ponto, de forma simplificada, a cadeia lactea (figura 8) possui uma estrutura composta de tres partes: produtores de leite, laticinios e distribuicao de produtos.
Figura 8 - Fluxograma simplificado da cadeia produtiva do leite
Fonte: adaptado de Grzybovski & Santos (2005)
O funcionamento da cadeia produtiva distribui equitativamente as responsabilidades de cada agente da cadeia: ao produtor cabe gerenciar a
41 alimentacao, ordenha do leite (realizada duas vezes ao dia e sete dias por semana) e
em local comunitario - cooperativas); ao transportador do leite ("leiteiro") o compromisso de coletar, levar em seguranca e sanidade, alem de realizar o teste do leite (acidez, quantidade de agua presente) no momento da coleta; para as industrias cabe o compromisso de receber o leite cru, pesa-lo, coa-lo e fazer o seu beneficiamento. Alem disso, a industria realiza testes mais precisos de qualidade com medidas de gorduras, proteinas, antibi6ticos, etc.; como elemento final da cadeia, surgem as empresas distribuidoras: tanto as que entregam no varejo quanto o pr6prio varejo, pois ambos precisam garantir que o leite ou seus derivados cheguem ate o consumidor final de forma pr6pria para o consumo.
Em sua estrutura, uma cadeia produtiva possui elos (etapas necessarias para transformar materia prima em produto) que determinam a competitividade economica da atividade em virtude de sua dinamica. 0 conjunto de operacoes tecnicas responsaveis pela transformacao de materia prima em produto acabado caracteriza uma cadeia produtiva, que elenca dois elementos fundamentais: identificacao (o produto, seus itinerarios, agentes e operacoes) e analise dos mecanismos de regulacao (funcionamento do mercado, intervencoes do Estado, etc.). No ponto de identificacao, encontra-se a industria, como elemento de transformacao da materia prima, onde o leite cru e processado com tratamento de calor, o qual determina a diversificacao dos produtos a partir da reducao na flexibilidade dos bens a serem produzidos. No caso do leite UHT, por exemplo, e utilizado o processo de esterilizacao. Ja para a producao de manteiga, requeijao, iogurte e queijo e utilizada a tecnica de pasteurizacao, que consiste em submeter o leite a elevadas temperaturas e depois resfria-lo rapidamente.
Neste contexto, o conceito norte-americano de agrobusiness (materia-prima) define a cadeia produtiva em virtude da producao bruta de materia prima, enquanto a definicao francesa (filieres) considera de forma mais abrangente os agentes envolvidos na cadeia. Batalha (1997) orienta que cadeia produtiva constitui uma sucessao de operacoes de transformacao dissociaveis, capazes de serem separadas e ligadas entre si por um encadeamento tecnico, que historicamente teve inicio na Franca (anos 60) a partir dos estudos de economistas agricolas e pesquisadores do setor rural.
A cadeia produtiva do leite representa grande potencial economico e social, diante do elevado numero de agentes envolvidos em todo o processo e da
42 complexidade desse sistema agroindustrial. Sob esta 6tica, Neves & Consoli (2006) apontam a competitividade como fator preponderante da especializacao das cadeias agropecuarias, em busca de uma producao
sustentavel, consoante com questoes sociais, economicas e ambientais. A caracterizacao da cadeia produtiva do leite na visao de Castro et al (1998) materializa-se a partir de componentes interativos que determinam o fluxo da cadeia, sendo a cadeia produtiva (figura
9) composta por 06 (seis) grandes elos: fornecedores de insumos e servicos, produtores, transportadores (leiteiros), industrias de processamento e transformacao, agentes de comercializacao e consumidores finais (varejo):
Figura 9 - Principais elos da cadeia produtiva do leite
Fonte: Elaborado pelo autor
Devido as exigencias de sanidade e especializacao da producao, a grande maioria das propriedades rurais possuem a tecnologia necessaria (tanques de expansao ou resfriadores para o armazenamento do produto) ate o recolhimento pelos profissionais coletores. Estudos do Governo Federal, atraves do Programa LEITELEGAL (2013) denotam intensificacao do cuidado e exigencias por parte da grande parte das industrias que, dependendo da qualidade do leite nao o recebe em seus tanques de armazenamento. Nesta parte ciclo produtivo, onde o leite e separado e padronizado (antes de iniciar o processamento) ocorrem as divergencias de qualidade, pois um leite inaceitavel para determinada industria, pode ser recebido por outra. Neste momento, segundo dados do programa LEITELEGAL (2013), aproveitadores e oportunistas, visando somente o lucro, utilizam substancias prejudiciais a saude, tais como formol, cal, agua oxigenada, etc.
0 programa LEITELEGAL (2013) aponta a necessidade de um conjunto de medidas de qualidade e padronizacao dos processos. No processo de envasamento do leite, cabe a industria detectar adulteracoes e, se necessario, "condenar" aquela carga de materia prima. A venda da producao para industrias
43 maiores (como CCGL e BRF) deveria trazer maior tranquilidade e credibilidade aos produtores rurais, pois teoricamente estas empresas tem
melhor capacidade de realizar analises para verificar a qualidade do leite. No entanto, nem sempre as premissas de qualidade sao respeitadas. Tais fatos, relatados em reportagem do jornal ZEROHORA (2013), configuram as fraudes na cadeia produtiva do leite8: 10% (dez por cento) dos mais de 10 milhoes de litros de leite que abastecem as 160 (cento e sessenta) industrias lacteas do RS sao coletados por atravessadores, que se beneficiam da falta de regulacao legislativa e fiscalizacao precaria das rotas do leite. Dentre os elos da cadeia produtiva somente os postos de resfriamento e a industria recebem atencao dos 6rgaos fiscalizadores, permanecendo enorme lacuna em elos da cadeia produtiva.
O Governo Federal, no combate as fraudes evidentes da cadeia produtiva do leite, lancou em fevereiro de 2013 o Programa Leite Legal9. O programa visa
aperfeicoar toda a cadeia produtiva, para que se produza leite de qualidade no pais. Para atingir esse objetivo sao utilizadas 03 normas de regulamentacao da qualidade no leite: Instrucao Normativa 62 - IN62 (responsavel pela higiene e sanidade do ubere), Plano Nacional de Controle de Residuos e Contaminadores - PNCRC (responsavel pelo controle de residuos) e o Programa Nacional de Controle e Erradicacao da Brucelose e Tuberculose - PNCEBT (responsavel pelo controle as doencas bovinas). No estado de Minas Gerais (maior produtor nacional) o programa iniciou em agosto de 2013 e pretende ate 2015 capacitar 15.000 (quinze mil) produtores rurais, para que os mesmos possam atender aos padroes de qualidade previstos na Instrucao Normativa 62 do Ministerio da Agricultura (MAPA).
A Instrucao Normativa 51, publicada em 2002 pelo MAPA, precisava de modificacoes e aperfeicoamento, para tanto, foi instituida em 2013 a Instrucao Normativa 62 (IN62). No entanto, se os novos parametros fossem aplicados rapidamente, um percentual de 57% (cinquenta e sete por cento) dos produtores de leite estariam produzindo na ilegalidade. Desta forma, a nivel nacional gradativamente mais de 80.000 (oitenta mil) propriedades pretendem
ser atendidas pelo programa. Como forma de comprometer e sensibilizar o produtor, e
8 Reportagem do mes de novembro de 2013, na qual Jornal Zero Hora demonstrou a descoberta de
fraudes com ureia e formol nas industrias Italac, Bom Gosto e BRF. As empresas citadas formalizaram termo de ajuste de conduta (TACs) com o Ministerio Publico Estadual (MPE), pois a assinatura do referido "termo de conduta" isenta as industrias de responder processos judiciais, apesar das substancias cancerigenas terem chegado ao mercado consumidor. Alem destes fatos, a reportagem tambem identificou intensa migracao para pequenas industrias, por parte dos atravessadores, que tentam "empurrar" leite de ma qualidade para industrias de derivados, como e o caso das queijarias (ZEROHORA, 2013).
45 45 9 O Programa Leite Legal e um programa nacional idealizado pela CNA e SENAR, promovido em
parceria com
o Sebrae. O objetivo e capacitar produtores para que estejam aptos a atender, principalmente, as exigencias
minimas dos parametros de contagem bacteriana total (CBT) e de contagem de celulas somaticas (CCS). No
Brasil, o objetivo e alcancar 81 mil propriedades em dois anos (CANALDOPRODUTOR, 2013).
utilizada argumentacao financeira, o Programa Leite Legal (figura 10) incentiva o pagamento por qualidade no leite, o qual se da sob a forma de pagamento por s6lidos. 0 programa LEITELEGAL (2013) torna explicito que a modificacao do convencional pagamento por volume de leite produzido, para o pagamento por quantidade de s6lidos (gordura, lactose, minerais, proteina) no leite tem a possibilidade de reduzir as fraudes de adulteracao do leite, eliminando os indesejados "leites mistos" com a adicao de agua, aditivos ou simplesmente soro de leite.
Figura 10 - Logomarca do programa Leite Legal
Fonte: LEITELEGAL (2013)
Alem das medidas aplicadas ao produtor de leite, melhorias em outros elos da cadeia produtiva tambem sao necessarias: melhoria na eficiencia dos laborat6rios de analise do leite, fiscalizacao da producao, melhoria na infraestrutura e logistica rural. Como possiveis resultados futuros esperados das medidas de capacitacao estao as modificacoes (figura 11) nos niveis de contagem de celulas somaticas (CCS) e de contagem bacteriana total (CBT), qualificando o leite produzido.
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Figura 11 - Possiveis resultados futuros esperados com o programa Leite Legal
Fonte: LEITELEGAL (2013)
Outra iniciativa da promocao do pagamento por s6lidos no leite vem a ser o Concurso de S6lidos da empresa Lacteos Brasil S. A (LBR)10. Este concurso, procura incentivar o uso de dieta alimentar e genetica apropriadas a producao de leite, com enfoque de criar uma nova cultura: o aumento do teor de s6lidos. O estimulo para a adocao (por parte de produtores e tecnicos) de tecnicas de producao que aumentem os s6lidos do leite e a busca de tecnologias relacionadas se deu com a premiacao aos vencedores do concurso: televisao de 42 polegadas (1° colocado), notebook (2° colocado) e aparelho microssystem (3° colocado). Alem das premiacoes, os vencedores qualificaram sua producao no Sistema de Valorizacao da Qualidade (SVQ), que representa um modelo de formacao de preco implantado pela LBR para valorizar a qualidade da materia-prima de seus fornecedores. Demonstrando o aperfeicoamento da producao gaucha, os dois primeiros lugares foram conquistados por familias do RS: Girua (1° lugar a nivel nacional) e Santo Augusto (2° lugar). Tais iniciativas melhoram a qualidade do leite que, dentro de sua composicao caracteriza-se pela combinacao de substancias conhecidas como s6lidos, tais como: gorduras, lactose, sais minerais e vitaminas (LBR, 2013).
A intensificacao da producao leiteira e consequente aumento das rotas de recolhimento despontou a necessidade de modernizacao do processo. Anteriormente (decada de 70), quando
10 A LBR - Lacteos Brasil S. A. e a maior companhia privada de produtos lacteos do Brasil, oriunda da
fusao das empresas Bom Gosto e Leite Bom no ano de 2010. Atualmente possui uma capacidade de producao de mais de 2 bilhoes de litros de leite por ano, alem de contar com 5,8 mil colaboradores e
48 48 havia poucas rotas, o recolhimento era realizado com a utilizacao de "baldes" de aluminio (os tarros de leite) individuais e comunitarios, ou seja, em um mesmo vasilhame poderia estar presente a producao de diferentes produtores. O aperfeicoamento dos meios de producao inicia "antes da porteira" com a especializacao da producao e consumo de alimentos, desde o armazenamento de feno a silagem (limitado pela perecibilidade) ate o consumo mais elevado com vacas que necessitam ate tres ordenhadas por dia. Com o desenvolvimento de modernas formas de armazenamento e transporte do leite, o recolhimento ficou mais espacado (tabela 1)
ocorrendo tres vezes por semana (situacao totalmente inviavel na epoca dos tarros de leite).
Componente Periodo de producao Periodo de utilizacao
Alimento 1 a 3 vezes por ano 2 vezes por dia
Vaca 12 meses 5 anos
Leite 2 vezes por dia 3 vezes por semana
Tabela 1 - Producao e utilizacao dos principais componentes da producao lactea em
propriedades rurais no Rio Grande do Sul no ano de 2004 Fonte: adaptado de Grzybovski & Santos (2005)
O jornal COOPERJORNAL (2013) aponta as contribuicoes para a cadeia produtiva do leite da Cooperativa Central Gaucha de Leite (CCGL), a qual mantem um nucleo de pesquisa e difusao de tecnologia para contribuir na reducao dos custos de producao e manter a qualidade de alimentacao dos animais. Tais conceitos tem por base a "matematica do leite": o aporte nutricional do alimento define a producao leite/vaca/dia. A difusao das iniciativas para as cooperativas associadas a CCGL traz resultados significativos, como e o caso da Cooperativa Agro-pecuaria Alto Uruguai Ltda (Cootrimaio), localizada no municipio de Tres de Maio. Na unidade tresmaiense, avancos significativos sao alcancados com diversificacao de materiais geneticos, tecnologia de adubacao e manejo de forragens. Das forragens de campo, alguns produtores de graos especializam-se na producao e fornecimento de alimento para a producao leiteira. Desta pratica, destaca a reportagem COOPERJORNAL (2013), sao identificados dois agentes de producao: o produtor de leite (utiliza a area produtiva da propriedade para producao de forragem) e o produtor de sementes para a producao (utiliza a area produtiva da propriedade para a producao de sementes para a atividade pecuaria).
O volume de producao tem efeito direto sob o preco pago ao produtor. No caso da negociacao individual com a empresa coletora, os valores podem ser pagos a um produtor especifico, contudo, o poder de barganha de um grupo de agricultores
48 48 retorno sobre o investimento, com um preco maior por litro de leite. Em reportagem de COOPERJORNAL (2013) e ilustrada a producao individual acima de 800 (oitocentos) litros/leite/dia de produtores do municipio gaucho de Alegria - RS (municipio vizinho de Tres de Maio). No exemplo dos produtores do municipio de Alegria, o valor pago por litro de leite fica em torno de R$ 0,95 (noventa e cinco centavos), o que torna mais interessante o retorno sobre a atividade. A variacao do preco do litro de leite pago ao produtor (figura 12) demonstra a crescente valorizacao pela materia prima e retorno para o produtor rural.
Figura 12 - Variacao do preco do litro de leite pago ao produtor no periodo 2012-2013
Fonte: CILEITE (2013)
Tendo como caracteristica fundamental: a producao de alimento destinado ao consumo humano, a atividade leiteira possui como elementos imprescindiveis: as condicoes de sanidade do rebanho e a higiene da cadeia (desde a coleta ate a distribuicao ao consumidor final). Neste contexto, desde a substituicao do procedimento manual pela ordenha mecanica, ate as condicoes de coleta, transporte, envasamento e distribuicao fazem parte de um contexto bem mais complexo do que aparenta. Oliveira (2012) orienta sobre as variacoes a montante (antes da porteira) e a jusante (depois da porteira) compreendem importantes etapas do processo produtivo: tratamento do animal (alimentacao, utilizacao de antibi6ticos, hormonios), coleta do leite (higiene e combate a doencas oriundas), armazenamento do leite (baldes e tanques resfriadores), transporte (conservacao ), analise do
49 49 A orientacao de Grzybovski & Santos (2005) e de que para a industria e laticinios a coleta a granel reduziu grandemente os custos da logistica de producao, sendo que a viabilizacao deste procedimento contou com a uniao dos produtores, para a utilizacao de tanques comunitarios que pudessem dar maior poder de barganha para o leite produzido. Estas associacoes comunitarias sao incentivadas pela industria, pois se acredita que a reducao das linhas de coleta e concentracao de um maior volume de leite possa melhorar a fiscalizacao e qualidade do leite, alem de reduzir o numero de mao-de-obra das plantas industriais. Em contrapartida, esta opcao colocou o produtor "contra a parede", pois a aquisicao de equipamentos para viabilizar a coleta a granel envolveu altos volumes de capital e exigiu que os produtores aumentassem a escala de producao para ter retorno sobre o investimento. Devido a este fator financeiro muitos agricultores tem dificuldade em continuar na atividade e, neste ponto, reside a importancia do projeto Balde Cheio ao possibilitar o crescimento do retorno sobre o investimento, como orienta Camargo (2012): "Em razao da dificuldade de obtencao de credito bancario para investimentos, os recursos para o inicio do trabalho devem ser gerados dentro da propriedade, mesmo que o montante inicial seja pequeno".
Quando se fala em transferencia de tecnologia, o sentido e bem mais amplo do que aparenta. Transferir tecnologia e transferir conhecimento. Tal processo ocorre gradativamente na medida em que as atividades sao realizadas. Contudo, Krug & Kliks (2003) enfatizam a necessidade de demonstrar, tanto para produtores quanto para os 6rgaos envolvidos (publicos e privados) a importancia de ter uma assistencia tecnica de qualidade que viabilize o crescimento da producao leiteira. Desta forma, investir no setor primario de producao caracteriza-se como atividade global e sistemica, a qual exige o envolvimento de toda a cadeia produtiva.