CAPÍTULO 3 – A PESQUISA E SEUS COMPONENTES
3.1 Caracterização da comunidade
O bairro em que se situa a escola pesquisada, está situado na região sudoeste da cidade de Montes Claros, MG, distanciado do centro da cidade aproximadamente 20 km. É bairro considerado periférico, porém de ampla área territorial, considerado grande para a região. No bairro há um conjunto habitacional, motivo que levou a uma explosão demográfica num período de três anos aproximadamente, possuindo hoje cerca de 17.000 (dezessete mil
habitantes), sendo que a maioria é advinda de outros bairros e de pequenas cidades do interior de Minas Gerais e da Bahia que vem em busca de moradia.
Esse conjunto habitacional oferecido pela Prefeitura teve o objetivo de ceder casas gratuitamente para a população de baixa renda que não possuía moradia, ou seja, que vivia debaixo de lonas pretas na periferia da cidade, população esta oriunda de cidades do interior (êxodo rural), em busca de melhoria de vida na cidade.
Dentro do bairro ainda existe uma favela, cujas habitações na sua maioria são feitas de lona preta e alguns poucos casebres de enchimento (casas de paredes feitas com varas e preenchidas com barro). Apenas as ruas principais do bairro são asfaltadas, as demais são apenas cascalhadas, algumas nem possuem rede de esgoto, fato que leva a uma subdivisão sócio-econômica dentro do bairro, estabelecida pelos próprios moradores.
A área de ocupação do bairro, devido à sua extensão, ainda é bastante irregular, possuindo vastos terrenos vagos nas suas fronteiras e é assim nas imediações da escola.
Apenas umas poucas ruas e avenidas são asfaltadas, as demais são cascalhadas. No centro do bairro ficam as residências mais estruturadas e as casas de comércio, todas próximas à escola, que fica ladeada por uma Igreja Católica e pelo Posto Policial. Na sua infra-estrutura o bairro conta com linha telefônica e cinco linhas de ônibus. Existe, além de uma Igreja Católica, duas Igrejas Evangélicas. No bairro existe um único clube e seu acesso é restrito aos sócios, porém a escola pesquisada possui parceria com ele, que desenvolve junto às escolas programas profissionalizantes para atender aos alunos com idade de ingresso no primeiro emprego.
O bairro conta também com a assistência de duas escolas públicas, uma é esta, onde foi realizada esta pesquisa, e outra, uma escola estadual.
O bairro onde foi realizado esta pesquisa, ainda sofre grande discriminação pelos moradores de outras áreas e dos moradores do centro da cidade, por apresentar um aspecto
empoeirado, pela falta de pavimentação na maioria das suas ruas e possuir um número grande de pessoas de baixa renda familiar, algumas sem nenhuma renda, cuja sobrevivência se deve a programas sociais desenvolvidos pelo Governo Federal. A carência de programas de assistência social é um dos fatores que leva à existência de diversas crianças que brincam nas ruas depois do período escolar e algumas, em número considerável, que se dirigem ao centro da cidade em busca de conseguir alguns trocados nos pontos de ônibus e no mercado municipal. Esta situação está relacionada a um índice elevado de abandono escolar e reprovação por desistência.
Esses fatores também têm contribuído para a ocorrência, no bairro de pequenos furtos em casas comerciais e residências. Outro fato citado pelos moradores é a existência de tráfico de drogas, embora bastante diminuído hoje, na região, e o conseqüente aparecimento de violências no bairro e imediações da Escola.Conforme alguns depoimentos:
“O bairro aqui só oferece o que não presta, só violência. Eu acho que esse bairro é muito violento. Aqui a maioria dos meninos só fala assim...de droga, de...essa coisas assim de gangue, entendeu?”. (pai de aluno)
“Tudo você tenta evitar, mas aqui é muito violento, o bairro é sim. Esse bairro é muito violento. Muita droga, inclusive já ofereceram pra meu filho na porta da escola, ele me contou, ele falou: - ‘Eu não mexo com isso não moço, se a minha mãe sonhar um trem desse, ela me mata’”. (pai de aluno)
A maioria das famílias se encontra sob a responsabilidade da mulher, isto é, são família monogovernamentais, dirigidas por mulheres. Em um número considerável de casos a criança conta apenas com o que a escola oferece para seu crescimento pessoal e cultural. No bairro, assim como na escola, não há opções de lazer para as crianças, ficando estas à mercê das ruas e suas oferendas.
Grande parte da população do bairro é jovem e a sexualidade começa de forma bastante precoce, para as meninas com cerca de 12 e 13 anos de idade, a maioria com conseqüências de abandono escolar devido à gravidez e falta de apoio da família. Os meninos
iniciam a vida de trabalho remunerado muito cedo, na tentativa de aumentar as rendas familiares, que é muito baixa, principalmente pela ausência do pai e falta de formação profissional da mãe. Isto tem trazido conseqüências muito graves para a vida dos meninos, pois estes com freqüência acabam por abandonar os estudos, devido à incompatibilidade de horário com o trabalho e à escola e também devido ao cansaço.
O processo de socialização do bairro, segundo os moradores mais antigos, tem evoluído consideravelmente depois da chegada da escola e da Igreja. Na opinião destes as pessoas melhoraram seu comportamento (conduta) no trato com os outros. A escola e a Igreja chegaram juntas ao bairro. Os moradores apontaram para a existência de uma segregação relacionada às condições de infra-estrutura do bairro, de saneamento básico, e também sócio- econômica entre os moradores. Segundo estes, as pessoas que moram nas ruas pavimentadas não se relacionam com as que moram nas ruas sem pavimentação, que, por sua vez, não se relacionam com as que moram nas ruas que não possuem rede de esgoto: “são muito orgulhosas”, diz uma moradora. Esta segregação se reflete dentro da escola, gerando conflitos entre os alunos advindos destas famílias e manifestações de violências, principalmente na saída do turno de aulas.
Na opinião dos moradores e dos representantes da comunidade, o bairro já foi bastante violento, porém esse problema tem diminuído consideravelmente depois do atendimento da escola e da presença do Posto Policial de fato são hoje quase inexistentes. Quando ocorre alguma manifestação até chama a atenção dos moradores, o que antes não acontecia. Segundo o presidente da Associação do Bairro, também responsável pelo Posto Policial, o tráfico de drogas, que era comum na porta da escola, desapareceu, e no bairro também foi bastante reduzido, restando apenas alguns focos, porém distantes da escola:
“Era um bairro muito discriminado dentro da cidade, pelo alto índice de violência
que apresentava, a escola também era muito violenta, era constantemente invadida...”. (pai de aluno)
“Guerra entre as famílias, brigas, desrespeito ao próximo. As famílias desse bairro... tem umas que são boas, gente honesta, mas tem umas que querem brigar com todo mundo”.(aluno-líder)
“No bairro tem três gangues que brigam direto aqui no bairro. Ali pra baixo falam que é a gangue ‘Caga na lata’, ali no outro lado é a gangue do ‘Bombal’ e no meio do bairro é a gangue ‘Escorrega lá vai um’. Elas brigam na porta da igreja aqui do lado da escola. Há um mês houve uma guerra entre elas com pedradas, foi tanto que os comerciantes tiveram que fechar as portas do seu estabelecimento”. (aluno- líder)