CAPÍTULO 2 O TEMA NA LITERATURA
2.4 Panorama das violências nas escolas no Brasil
diferente de alunos, ou seja, ampliou o número de alunos trazendo para dentro da escola um aluno de perfil diferente daquele com o qual a escola estava preparada para lidar, acarretando uma desestabilização da ordem interna histórica, criando o campo do conflito (CHRISPINO e CHRISPINO, 2002, p 12).
Observa-se hoje, uma crescente preocupação dos pais e dos educadores com várias expressões das violências no interior das escolas brasileira (CANDAU et al, 1999, p. 27). É freqüente a descrição de pesquisas sobre juventude, violência e cidadania com o objetivo de abordar questões relativas ao espaço urbano, exclusão social, violência, família, educação e trabalho (ABRAMOVAY, 2002c, p. 9).
As publicações da UNESCO detonam um processo que torna pública a preocupação com o fenômeno das violências nas escolas, no Brasil. Um dos resultados publicados em 2002 foi o estudo realizado por ABRAMOVAY; RUA intitulado “Violência nas escolas”. Os estudos foram realizados em quatorze capitais brasileira, situadas em diferentes regiões do Brasil. Esta pesquisa captou vários tipos de manifestações de violências nas escolas, entre as quais: a violência física, a violência simbólica e as chamadas incivilidades (ABRAMOVAY, 2002c, p. 14).
Através de pesquisas realizadas por Abramovay (2002c, p. 21), constatou-se que as violências nas escolas permeiam todas as relações sociais e afeta, profundamente, o cotidiano escolar. Os dados quantitativos apresentados mostram que o volume de ocorrência de manifestações de violências nas escolas brasileiras é relevante, tanto na percepção dos alunos quanto na percepção dos professores, e demais membros da equipe pedagógica nas escolas.
A literatura nacional sobre violência nas escolas, demonstra que as violências no espaço escolares vêm aumentando, consideravelmente, a cada dia atingindo todas as camadas sociais, sendo a participação de grupos de identidade jovem bastante alta. A indisciplina, as
violências, desrespeito e vandalismo vêm aumentando freqüentemente, tanto em escolas com rígido esquema de vigilância, de segurança e de punição, quanto naquelas onde há ausência quase total de tais normas e vigilâncias. As violências no Brasil têm atingido todas as pessoas de qualquer nível social e o medo e desespero também tem atingido a todos em igual instância. As violências representam o fracasso da sociedade em seu processo de humanização e esse acréscimo de manifestações de violências nas escolas pode ser considerado o resultado da ausência de educação para a formação moral, espiritual e ética do ser humano nos currículos das escolas brasileiras.
Segundo estudos sobre violências e juventude no Brasil, tanto as análises sociais quanto a imagem divulgada pelos meios de comunicação tem privilegiado a adolescência e a juventude como momento de produção das violências, como agressora, destacando seu envolvimento com a delinqüência e a criminalidade, com o tráfico de drogas e armas, com as torcidas organizadas e com espetáculos musicais nas periferias das grandes cidades (WAISELFSZ, 1998, p. 11). Candau et al (1999, p. 89-90) revelaram após pesquisa que sob o ponto de vista dos primeiros atores, na escola, as violências estão aumentando no cotidiano escolar, não só sob o ponto de vista quantitativo, mas também sob o ponto de vista qualitativo. Segundo as autoras, as violências nas escolas no Brasil, têm sido um fenômeno fundamentalmente derivado, cuja dinâmica se origina da sociedade e se reflete na escola, ou seja, cujo dinamismo é de fora para dentro da escola.
Segundo Candau et al (1999, p. 90), os tipos de violências assinaladas como estando mais presentes no cotidiano das escolas brasileiras, são as ameaças e agressões verbais entre pares (alunos/alunos) e entre estes e os adultos. Na opinião das autoras, embora menos freqüentes, há também a presença das agressões físicas, algumas com graves conseqüências. Segundo estas autoras, no caso brasileiro, é possível afirmar que uma cultura marcada pela violência acompanha toda a história do Brasil, multiplicando-se, ao longo do
tempo, nas foram de autoritarismo, exclusão, discriminação e repreensão (CANDAU et al, 1999, p. 92).
No Brasil, também, distintos estudos vêm dando visibilidade ao crescimento das mortes por violência entre os jovens. Em 1980, as “causas externas” (acidentes de trânsito e homicídios) eram responsáveis pela metade dos óbitos entre os jovens, 52 %, ou seja, um quinto do total anual. No ano 2000 este número se elevou para 70,3 %, ou seja, dois terços do total anual (WAISELFSZ, 2002, p. 26).
Em ABRAMOVAY; RUA (2002, p. 84-85), também se pode verificar que desde 1980 houve uma preocupação em se estudar o fenômeno das violências nas escolas no Brasil, sendo que a princípio foi observada em maior parte agressões contra o patrimônio escolar, estendendo-se às formas de agressões interpessoais, principalmente entre os próprios alunos (entre pares), na década de 90. Observa-se que na década de 90, no Brasil, a preocupação com as violências nas escolas ultrapassa seus muros e o problema do narcotráfico passa a ser mais um elemento causador deste fenômeno, presente no espaço escolar. A maioria dos estudos realizados a partir da década de 90, tem por contexto a cidade do Rio de Janeiro e a cidade de São Paulo, dando prioridade ao ambiente de localização das escolas, configurando situações marcadas pelo narcotráfico ou pelas violências e pobreza acentuadas (ABRAMOVAY; RUA, 2002, p. 85).
Na pesquisa realizada nas quatorze capitais do Brasil, nos depoimentos dos alunos das escolas pesquisadas, os dados mostram que os alunos não brancos sofrem mais violências verbais e ameaças que os brancos (ABRAMOVAY; RUA, 20002, p. 229). Entre os tipos de violências as que mais se destacaram nestas pesquisas são: ameaças, sendo mais mencionadas por alunos do Distrito Federal e de São Paulo, 40 % dos alunos participantes das pesquisas, porém entre os membros do corpo técnico-pedagógico houve predominância no Estado de Goiânia, 58 % dos entrevistados. Quanto às retaliações físicas depois do horário escolar e fora
do estabelecimento de ensino são as formas mais comuns de ameaças, sendo que estas podem ou não se concretizar em violências físicas, mas geram um clima de tensões cotidianas (ABRAMOVAY; RUA, 2002, p. 234).
Nestas pesquisas também foram reveladas que as brigas representam uma das modalidades de violências mais freqüentes nas escolas brasileira, abrangendo desde as formas de sociabilidades juvenis até condutas brutais. As brigas são consideradas acontecimentos corriqueiros, nas escolas, sugerindo a banalização das violências e sua legitimação como mecanismos de resolução de conflitos (ABRAMOVAY; RUA, 2002, p. 236).
As informações sobre ocorrências de agressões ou espancamento foram em níveis baixos, sugerindo que a maioria das ameaças não se concretizou. Porém considerando que o confronto físico entre os indivíduos não deveria ocorrer, os dados assumem expressividade (1/5 do alunado), representando um traço de uma cultura de violência (ABRAMOVAY; RUA, 2002, p. 237).
Segundo ABRAMOVAY; RUA (2002, p. 244), as violências nas escolas no Brasil, têm ecologia própria redefinindo lugares sociais. Ao mesmo tempo as violências vêm delimitando territórios com propriedades e se menciona os “de dentro” da escola e os “de fora” da escola; esta situação se agrava a cada dia estendendo-se o lócus das violências, pois as situações de brigas entre os alunos, em sua maioria ultrapassam o espaço físico da escola, envolvendo colegas que se desentendem dentro dos muros escolares, no horário escolar.