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19 1.1.3 Seres imagéticos

1.2. Caracterização das personagens

Para compreender melhor como se dá a atribuição das características das personagens e o papel delas no todo da obra, iremos percorrer rapidamente a colocação de alguns autores sobre a caracterização desse ser em alguns meios.

No textual, por exemplo, essa caracterização pode se dar através da descrição das ações e pelas características físicas ou psicológicas dadas pelo autor à personagem na narrativa. Candido et al. (2007: 75), ao nos falar da caracterização da personagem no romance, observa que ela se dá a partir “de uma escolha e distribuição conveniente de traços limitados e expressivos, que se entrosem na composição geral e sugiram a totalidade dum modo-de-ser, duma existência”. Para o autor a concentração, limitação e

distribuição desses traços, que caracterizam a personagem, ordenam-se

convenientemente no universo da obra, sendo aceitos pelo leitor “por corresponderem a uma atmosfera mais ampla, que envolve desde o início do livro" (Candido et al. 2007: 76).

Existe um ponto de discussão recente acerca da narrativa que pode trazer questões interessantes no que diz respeito à caracterização da personagem textual. Ele consiste na questão da distinção do discurso em narração e descrição e que pode muito bem corresponder ao conjunto dos atributos unido às ações das personagens que já mencionamos. Entretanto, mesmo aqui, na personagem textual, já podemos perceber a importância dos atributos qualitativos que correspondem às características físicas de todo o universo da obra.

Segundo Genette (2008), a narração consiste na representação dos acontecimentos e das ações enquanto que a descrição remete às representações de objetos e personagens. O autor explica que a simples caracterização de espaços, objetos e personagens em uma frase, já se classifica como descritiva ao passo que uma frase que explicita o desenrolar de uma ação ou acontecimento ainda contém substantivos que, por menos qualificados que estejam, já podem ser considerados como descritivos

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“somente pelo fato de designarem seres animados ou inanimados" e acrescenta que “mesmo um verbo pode ser mais ou menos descritivo, de acordo com a precisão que ele dá ao espetáculo da ação” (Genette, 2008: 273).

Dessa forma, segundo Genette (2008), a descrição se impõe como mais indispensável do que a narração, constituindo, muitas vezes a maior parte da obra, apesar de ainda ser considerada como um simples auxiliar da narrativa. Os dois tipos de discurso (narração e descrição) são colocados como exprimindo duas atitudes antitéticas, uma mais ativa e a outra mais contemplativa, “mais poética” (Genette, 2008: 275).

Mesmo não sendo reconhecida de imediato em sua importância narrativa, a descrição assume funções diferentes nas narrativas clássicas e recentes. A primeira função refere-se à tradição literária clássica e é de ordem meramente decorativa, ela é considerada apenas como um ornamento narrativo.

[...] a descrição longa e detalhada apareceria aqui como uma pausa e uma recreação na narrativa, de papel puramente estético, como o da escultura em um edifício clássico [...] (GENETTE, 2008: 274).

A segunda função é de ordem explicativa e simbólica e serve inclusive para justificar a psicologia das personagens. A substituição da descrição ornamental pela significativa é o que Genette classifica como uma evolução das formas narrativas.

[...] os retratos físicos, as descrições de roupas e móveis tendem [...] a revelar e ao mesmo tempo a justificar a psicologia dos personagens, dos quais são ao mesmo tempo signo, causa e efeito (GENETTE, 2008: 274).

Notamos que, novamente os traços físicos aparecem como fundamentadores e justificadores dos acontecimentos e ações, ainda na personagem textual. Embora inicialmente a descrição ou a caracterização físicas, relacionadas à narrativa, fossem reconhecidas apenas como meros "enfeites de obra”, as funções exigidas por ela, pelas narrativas recentes, ou seja - narrativas sem uma ordem cronológica fixa, e constituintes de uma realidade própria, não baseadas mais única e exclusivamente no que conhecemos por “realidade” - acabaram por exigir fisicamente um universo de

significados convincentes que viessem a justificar o todo da obra, sem que a narrativa parecesse no mínimo absurda.

Deste modo, o papel da descrição, como foi abordada pelo autor (ponto de caracterização da personagem), acaba sendo o mesmo que a imagem visual desempenha nas figuras de um livro, na fotografia, no teatro, no cinema e nos meios digitais: um contextualizador e justificador dos acontecimentos e das ações das personagens.

No teatro, portanto, a personagem assume uma responsabilidade bem maior dentro do universo geral da obra. O cenário é limitado, e tudo só passa a ser e acontecer no momento em que interage com a personagem. De acordo com Candido et al. (2007: 84), as personagens do teatro “constituem praticamente a totalidade da obra: nada existe a não ser através delas". A caracterização da personagem nesse meio é explicada pelo autor através dos manuais de playwriting que indicam três vias principais: o que a personagem revela sobre si mesma, o que ela faz e o que os outros dizem a seu respeito (Candido et al. 2007: 88). No teatro, o que se quer passar a respeito de uma personagem, tem que ser externalizado de alguma forma (fala, gestos, ações, comportamento) através das próprias personagens. Isso acontece devido ao fato de o espectador não ter acesso direto à consciência delas, como ocorre no texto.

No cinema, Candido et al. (2007: 112) misturam a personagem romanesca com a teatral. Para os autores, a personagem cinematográfica pode ser tanto uma personagem romanesca encarnada em pessoa, como uma personagem teatral com a mobilidade e desenvoltura de estar num romance (Candido et al. 2007: 112). Em outro momento Candido et al. (2007: 111) nos falam da existência de personagens feitas exclusivamente de palavras no cinema, mas afirma que

[...] mesmo nos casos minoritários e extremos em que a palavra falada no cinema tem papel preponderante na constituição de uma personagem, a cristalização definitiva desta fica condicionada a um contexto visual.

Isso demonstra, mais uma vez, a importância que a imagem visual adquiriu, materializando idéias através desses meios e chegando ao digital numa expansão da dimensão do visual nunca imaginada antes. O digital permitiu efeitos e características inimagináveis até então na fotografia e no cinema, até o ponto de percebermos hoje que existe, cada vez mais, a utilização de imagens de um meio por outro como é o exemplo

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do cinema, que utiliza ao mesmo tempo imagens fotográficas e efeitos digitais e a fotografia, que ao conhecer o digital, chega ao limite da manipulação e edição.

É sob tais perspectivas abordadas que colocamos a personagem em caracterização dentro de um plano de imagem que, segundo Candido et al. (2007: 78), "está sujeita, antes de mais nada, às leis de composição das palavras, à sua expansão em imagens, à sua articulação em sistemas expressivos coerentes”. Acrescentamos ainda que a personagem, no universo amplo de narrativas que se manifestam nos mais diversos meios, pode encontrar sua constituição também condicionada ao visual, nos traços de um desenho colocado no papel por um artista, na dramatização de atores teatrais, nas composições e manipulações fotográficas, nas edições e exposições cinematográficas, nas animações, simulações e efeitos computadorizados, tudo isso reunindo, de formas diferentes e cada vez mais híbridas, seus atributos e suas ações com o objetivo de significar a interpretação, identificação, e incorporação do sujeito que desfruta da obra.

É, portanto, dentro desse universo visual híbrido que se apresenta a imagem de síntese, propondo uma personagem que, ao mesmo tempo em que representa, oferece a possibilidade da interação em um universo imagético “adentrável” e “navegável”. Além disso, esse novo tipo de personagem vem metamorfosear todo esse universo de caracterização da personagem proposto até então, expandindo e criando um novo mundo de características disponíveis para compô-la, ao mesmo tempo em que cria novos recursos identificativos e incorporativos no meio digital. Ela une os traços descritivos ornamentais e simbólicos do texto narrativo, colocados por Genette (2008), a encenação incorporada do teatro e o acompanhamento psicológico da personagem do cinema aliado à interatividade e ao controle das ações da personagem dos meios digitais.