2. CAPÍTULO II – ESPAÇO DOMÉSTICO – OS LUGARES E AS
2.4 Unidade doméstica e as louças da Estância Velha do Jarau
2.4.1 Caracterização e metodologia de análise das louças
Louça é uma designação genérica, arqueologicamente utilizada para denominar os artefatos compostos, basicamente, por argila, caulim, feldspato e quartzo, vidradas (ou esmaltadas), com uma ou mais queimas, em geral brancas ou com fundo branco. Os artefatos denominados genericamente de louça são inseridos em uma categoria analítica mais ampla – a das cerâmicas, segundo pode-se visualizar no esquema abaixo:
Figura 55: Organograma de categorias cerâmicas. Grasiela Toledo, 2010.
O foco desse trabalho está sobre as cerâmicas cozidas à alta temperatura (faiança, faiança fina, grés, ironstone e porcelana), conhecidas tanto na literatura, quanto popularmente como louça.
A faiança é uma cerâmica feita com argila de grande plasticidade, porosa e resistente, recoberta por um esmalte opaco que se destaca facilmente da base. O esmalte que forma o vidrado dessa louça é à base de compostos de chumbo e estanho. (ZANETTINI, 1986, p. 120).
Essa louça recebe várias denominações conforme o país, sendo denominada faiança em Portugal e no Brasil, louça de Delft (Holanda), Delft Ware (Inglaterra),
Maiólica (Espanha, México e alguns lugares da Itália). O nome faiança vem da cidade Faenza na Itália, onde, no século XV, teve auges produtivos. (ZANETTINI, 1986, p. 120).
Apesar do auge produtivo em Faenza, a origem da faiança é persa, sendo que os árabes a introduziram na Europa (BRANCANTE, 1981, p 70).
As faianças que chegam ao Brasil são de origem ibérica, e algumas de origem holandesa. As decorações se apresentam nas cores azul, verde, amarelo, vinhoso e peças sem decoração.
A faiança fina é uma louça com a pasta permeável, opaca, de textura granular e quebra irregular que, para se tornar impermeável a líquidos, deve ser coberta com um esmalte. Intermediária entre a faiança e a porcelana, foi uma invenção inglesa do século XVIII, daí a denominação genérica louça inglesa. (ZANETTINI, 1986, p. 122). Porém, apesar dessa denominação genérica, não se pode confundir faiança fina com louça inglesa, visto que a produção de faiança fina se expandiu para outros países da Europa e do mundo e no século XX para o Brasil. Outra diferenciação que deve ser feita é entre faiança e faiança fina, ou seja, elas são produtos diferentes, apesar da semelhança do nome, a faiança fina não é uma subcategoria da faiança.
Não incluímos a faiança fina na categoria de faiança, porque a sua designação é imprópria e não corresponde ao conceito técnico de faiança verdadeira, embora integrada há mais de duzentos anos na linguagem cerâmica. Os característicos de sua constituição química, como as suas variedades, situam-na em categoria a parte (BRANCANTE, 1981, p. 129).
Um primeiro atributo que pode ser analisado na faiança fina é seu esmalte, ou seja, o produto aplicado na segunda queima da louça para torná-la impermeável, muitas vezes (conforme a técnica decorativa aplicada) cobrindo a decoração feita no biscoito (primeira queima da louça). Há decorações que são aplicadas sobre o esmalte (exemplo: decalcomania).
As colorações do esmalte podem indicar procedência e cronologias, sendo dividido em três categorias de colorações tênues de esmaltes transparentes, que são eles: amarelado/esverdeado (creamware), azulado (pearlware) e transparente (whiteware). Essas diferenças de cores seriam procedentes da adição de óxido de chumbo no esmalte
no whiteware. Porém essas diferenças são muito sutis, sendo somente perceptíveis onde há um acúmulo de esmalte na peça, geralmente na base. Para uma melhor identificação da composição química do esmalte seria importante realizar análises químicas, para poder perceber se a coloração apresentada na peça esteticamente corresponde mesmo com a presença ou ausência de determinados óxidos. Há uma grande dificuldade em definir se os fragmentos de louça recuperados em sítios arqueológicos são whiteware ou
pearlware, sendo que muitas vezes essa dúvida persiste nas análises não podendo ser
identificados.
Outra identificação é que parte da peça está representada em um determinado fragmento, ou seja, se é um fragmento de base, de parede, de borda ou de ombro (parte do ângulo) e ainda partes de alças, asas ou apêndices. Com essa identificação é possível, em algumas peças, perceber se eram objetos planos ou côncavos, ou mesmo através de medidas de base ou borda estabelecer a forma do recipiente. Esses dados podem indicar funcionalidades para os recipientes na unidade doméstica, como por exemplo: objetos do jantar ou do chá/café; ou ainda, recipientes para consumo de alimentos líquidos/pastosos (fragmentos côncavos) ou alimentos sólidos (fragmentos planos).
É também importante medir os fragmentos. Saber o tamanho do fragmento permite ter uma noção de quão fragmentadas estão as peças, se é possível perceber a forma ou se o fragmento de fato é muito pequeno. E através da espessura é possível relacionar um fragmento com outro, na tentativa tanto de remontagem, como para saber se os fragmentos podem ser pertencentes a uma mesma peça. A espessura ainda pode ajudar a identificar se a louça é importada ou nacional (SOUZA, 2010).
Outro atributo que revela muito sobre as faianças finas é a presença ou ausência de decoração, técnicas e padrões decorativos, temas e cores. Algumas técnicas que são aplicadas na faiança fina, objetivando sua decoração, são: superfície modificada sem pintura, pintado à mão (carimbada, esponjada, spatter, pintado à mão livre, dipped) e
transfer printing (impressão por transferência), decalcomania, entre outras, além de
combinações de técnicas em uma mesma peça.
Depois, de identificada a técnica decorativa, é possível estabelecer alguns padrões e estilos decorativos. Em peças de superfície modificada, encontra-se com mais freqüência o padrão Trigal, Royal rim e Gótico. Em peças pintadas a mão livre é identificada o estilo peasant e spring, e ainda o padrão borrão, que pode também ser encontrado em peças fabricadas em impressão por transferência. Peças feitas com impressão por transferência têm uma multiplicidade de padrões e temas decorativos,
sendo o padrão Willow (Pombinhos) o mais conhecido. Os motivos decorativos presente nesse tipo de técnica podem ser chinoserie, pastoral, exótico, floral, clássico e romântico, conforme porpões Samford (1997). Todos esses motivos são datados, ou seja, tem um início e fim de produção conhecidos, que podem ajudar na datação de um sítio arqueológico. Encontra-se ainda padrões como faixas e friso e shell edged (que podem ter sua superfície modificada ou não).
Essas decorações se apresentam em várias cores, sendo o mais freqüente o azul (principalmente para transfer printing, borrão e shell edged), porém encontra-se rosa, verde, marrom, preto, violeta, laranja, entre outras em peças monocrômicas ou policrômicas. As cores também são um indicativo de época de produção de determinadas peças.
Outro material identificado no registro arqueológico é o grés, uma cerâmica vitrificada, de textura muito forte, densa, impermeável, de grão fino, cozida a alta temperatura e levada assim a vitrificação total (PILEGGI, 1958 apud ZANETTINI, 1986:121).
Através da manipulação durante a fabricação do grés, os chineses chegaram à porcelana e os ingleses descobrem a faiança fina (BRANCANTE, 1981, p. 141). Na China o grés é produzido desde o século III a.C., e na Alemanha no século VIII (amplamente difundido no Medievo). Porém essas datas não são unânimes, sendo que segundo Zanettini (1986) o grés seria de origem alemã do século XV. Essa divergência demonstra a necessidade de estudos mais específicos sobre esse tipo de material, para que se confrontem essas datas, assim como se conheça melhor suas origens e inserções.
Segundo Joaquim de Vasconcelos, existem duas categoria de grés – o grés comum, para atender a indústria de construção, como manilhas, tubulações, sifões, etc. e o grés fino, para uso doméstico, empregado para fabricar botijas, jarros, canecas, louça de mesa, etc. (BRANCANTE, 1981, p. 141).
Os materiais em grés que chegaram ao Brasil (a partir do século XVII) foram basicamente garrafas e tinteiros, além de manilhas e outros materiais construtivos. Conforme algumas características das garrafas é possível estabelecer para que finalidade estavam sendo usadas.
Conforme Santos (2005), as garrafas de grés para gim podem ser caracterizadas por sua terminação muito estreita, ausência de pescoço e corpo cilíndrico de dimensões esguias. Podem apresentar ou não uma alça na altura do ombro. E as garrafas para cerveja podem ter duas categorias, ou seja, as cilíndricas com o pescoço gradual e ombro pouco acentuado, e as cilíndricas com o pescoço abrupto, com o predomínio, em ambas, da cor bege, com ou sem banho da coloração marrom claro ou chocolate.
O ironstone é uma categoria intermediária entre a faiança fina e a porcelana. É uma louça semivítrea, de dureza intermediária, que começou a ser produzida na Inglaterra no século XIX. Sua identificação é difícil, por ser muito parecida com a porcelana. Uma característica que as diferencia é no ironstone ainda haver a diferenciação entre a pasta e o esmalte, coisa que desaparece na porcelana. Por essas categorias de louça serem muito parecidas, na produção brasileira não há essa distinção, muitas vezes sendo o ―ironstone brasileiro‖ chamado de porcelana.
A porcelana é uma louça branca, vitrificada, translúcida e sonora. Não se percebe o limite entre a pasta e o esmalte, sendo, portanto uma louça mais homogênea. Começou a ser produzida na China, durante a dinastia Tang (618 a 906), sendo que somente no século XVIII começa a ser produzida na Europa (primeiramente na Alemanha). No Brasil a porcelana chinesa faz-se presente desde os primeiros séculos coloniais, trazidas pelos europeus, declinando no século XIX. No século XX, este horizonte se amplia com a presença de porcelana europeia (alemã, americana, etc.), além da produção nacional. (ZANETTINI, 1986, p. 124).
Com essa pequena descrição dos tipos cerâmicos encontrados em sítios arqueológicos históricos objetiva-se mostrar como esses materiais são múltiplos e podem suscitar diversas análises aprofundadas, explorando as possibilidades interpretativas.
A forma com que um grupo se apropriou de um objeto e como ele o utilizou é mais interessante do que perceber simplesmente o tipo de objeto consumido. Claro que o primeiro passo para a análise dos usos e significados de um objeto é entender quais itens estão sendo adquiridos pelo grupo doméstico. Assim afirma Tocchetto (2004, p. 183): ―O consumo não pode ser reduzido à exibição de status e à utilidade, mas deve ser analisado considerando, também, a construção de significados simbólicos‖.
Tendo como base bibliográfica as informações apresentadas, as louças recuperadas na Estância Velha do Jarau foram classificadas quanto à pasta (cerâmica, cerâmica vidrada, faiança, faiança fina, porcelana, ironstone e grés), quanto à técnica
decorativa (transfer printed, pintado à mão, decalque e superfície modificada sem pintura), quanto ao tipo de decoração (padrões, estilo, motivos e cores), quanto ao fragmento (alça, borda, fundo, parede, ombro e se côncavo ou plano/aberto) e quanto ao recipiente (quando possível).
Os materiais foram analisados em fichas tipológicas e quantificados por meio de gráfico. Feita a análise e a quantificação, os dados foram interpretados com a finalidade de apresentar informações sobre o modo de vida dos grupos domésticos que usaram a Estância Velha do Jarau como residência no século XIX.