LABORATÓRIO DE AGRICULTURA
4. EMERGÊNCIA DA ECONOMIA SOLIDÁRIA DISCUTINDO UM CONCEITO
4.3 Caracterizando os Empreendimentos Solidários
Para Moura e Meira (2002, p. 79), o “empreendimento solidário é uma forma de expressão da economia solidária que pode assumir formato de cooperativa, empresa autogestionária, rede e outra forma de associação para produção e/ou aquisição de produtos e serviços”. De acordo com Gaiger (1996), o conceito teórico de empreendimento solidário ainda apresenta-se em construção, no entanto, ele aponta características ideais para um empreendimento solidário, que seriam: autogestão, democracia, participação, igualitarismo, cooperação, autosustentação, desenvolvimento humano e responsabilidade social.
Os conceitos, acima expostos, se complementam, mas ainda necessitam de um último suplemento para que possam se sustentar, ou seja, além de evocarem o aspecto econômico, ressalte o social, o político, o cultural e o ambiental. Estes aspectos são acrescentados e apresentados em França Filho (2002, p. 13). Para este autor, os empreendimentos solidários seriam “experiências que se apóiam sobre o desenvolvimento de atividades econômicas para a realização de objetivos sociais, concorrendo para a afirmação de ideais de cidadania”. Tais aspectos, também são apontados por Andion (2002) que revela as seguintes características dos empreendimentos solidários: têm um papel social oriundo de um projeto definido em que demanda e oferta são construídas conjuntamente e, ao mesmo tempo, são espaços enraizados na esfera pública, constituindo-se em uma comunidade política local.
Do ponto de vista deste caráter econômico, estes autores encontram nos empreendimentos solidários a presença de elementos de uma economia mercantil (relações de compra e venda de produtos e serviços), na capacidade de gerar renda para os seus membros, através do reforço da cadeia sócio-produtiva local. Em tais ações encontramos, também, a presença de elementos de uma economia não-monetária oriundos da subvenção público-
estatal ligadas a melhoria das condições de vida gerais da comunidade. Ainda é possível perceber a presença de uma economia não-monetária, quando estes empreendimentos recorrem ao trabalho voluntário ou mutirões para atender as demandas dos seus públicos beneficiários.
Em relação ao caráter político-social dos empreendimentos da economia solidária, se evidencia uma perspectiva emancipatória de ampliação da vida democrática e conquista dos direitos sociais, através da identificação e uso das relações de confiança da comunidade – dito “capital social” – na busca da promoção do desenvolvimento sustentável local. Além, de se oportunizar um grau de consciência acerca dos problemas vividos localmente que leva à execução de ações que buscam ir além da satisfação imediata das necessidades das pessoas implicadas.
Afirmando o caráter de hibridação de economias próprio às dinâmicas de economia solidária – conforme encontrado em Andion (1998; 2002), França Filho (2001), França Filho & Dizimira (1999), e França Filho & Laville (2004) – podemos perceber uma clara articulação entre recursos mercantis, não mercantis e não monetários na gestão da ASMOCONP/Banco Palmas. Notamos isto ao assistirmos algumas ações que supõem comercialização de bens e serviços, implicando uma fonte mercantil de recursos, como nos casos dos produtos e serviços gerados nas unidades produtivas. Neste caso, a ASMOCONP/Banco Palmas estimulou a criação de grupos setoriais produtivos (PalmaFashion; PalmaCouros; PalmArt; PalmaLimpe) em que a produção de bens tende, inicialmente, a atender à demanda local, e às relações de trocas desenvolvidas são, fundamentalmente, de mercado.
Um outro circuito econômico utilizado é o que incorpora a execução de atividades
redistributivas equivalentes ao papel do Estado e se encontra presente nas ações do
Programa Incubadora Feminina (assistência psicológica, nutricional, profissionalizante e de segurança alimentar às mulheres do bairro que vivem em situação de risco econômico- social) e da Palmatech (Escola de Capacitação de Jovens e Adultos na Socioeconomia Solidária). Estas ações contam com subvenções de entidades externas (como no caso do apoio financeiro prestado pela GTZ, ICCO e outras entidades como Cearah Periferia), numa relação com uma fonte não mercantil de recursos.
Finalmente, prevalecem ainda aquelas ações onde não circula dinheiro nacional, no máximo uma moeda social, e estão fundadas em relações de reciprocidade e no trabalho voluntário, constituindo dessa forma uma fonte não monetária de recursos importantes para a
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dinâmica associativa. Estes programas e projetos são a Moeda Social – Palma$, o Programa de apoio à Agricultura Urbana (Impulso ao plantio de hortaliças e legumes nos quintais para consumo, venda ou mesmo para troca entre os vizinhos) e o Palmoricó (Estimulo a criação de galinha nos quintais com os mesmos objetivos do programa anterior).
Desta forma evidencia-se na ASMOCONP/Banco Palmas, a presença de uma economia plural, ou melhor, de vários circuitos econômicos que contribuem para consolidarmos a análise da ASMOCONP/Banco Palmas como um tipo de empreendimento solidário e sugere refletirmos sobre o que foi dito na análise da tensão entre as lógicas mercantil e solidária na gestão da ASMOCONP/Banco Palmas. Algumas destas ponderações que irão aproximar a parte prática da pesquisa com as abordagens conceituais são descritas, em seguida, na conclusão deste trabalho.
A guisa de conclusão desta dissertação, faremos algumas reflexões acerca da caracterização da tensão entre lógicas distintas na gestão da ASMOCONP/Banco Palmas, como resposta à questão de partida, como o objetivo de interpretar como a ação gestionária da ASMOCONP/Banco Palmas vem funcionando na regulação da tensão entre essas lógicas e como contribuem para a sobrevivência de um empreendimento da economia solidária na sociedade de mercado. Além disso, apresentaremos as principais contribuições e recomendações para trabalhos futuros, a partir dos resultados desta dissertação.