• Nenhum resultado encontrado

2. T EORIA DOS C OMPLEX R ESPONSIVE P ROCESSES

2.2. Caraterísticas

No nosso entender, a co-evolução da perspetiva de Stacey e seus colaboradores (Stacey et al., 2000), marca um momento de viragem com a criação de uma abordagem que denominaram como

complex responsive processes, tendo como objetivo contribuir para a compreensão da visão

paradoxal associada à gestão estratégica em complexidade. A teoria dos complex responsive

processes pretende ser uma alternativa às teorias da complexidade matemática, que advogam a

simulação ou modelação computorizada, numa lógica de agente-based approach. Isto porque, os autores consideram que os estudos desenvolvidos no âmbito dos CAS analisam os humanos como

seres seguidores de regras, sem equacionar a sua natureza diferenciada. As simulações computorizadas, denominadas agente-based approach têm sido desenvolvidas com colónias de formigas ou com bandos de pássaros (Allen, 1998). Através de um conjunto de instruções e regras para cada agente, criam possibilidades de inter-relacionamento entre todos, sem qualquer programa global. Estes estudos demonstraram que as interações locais entre os diversos agentes, através de processos auto-organizados, criam padrões globais. Os padrões criados são paradoxalmente previsíveis e imprevisíveis e a diversidade entre os agentes permite que, através da evolução da interação, se dê a inovação (Stacey & Griffin, 2006). No entanto, os autores consideram que apesar dos seres humanos, nas suas ações, respeitarem certas regras, não o fazem de uma forma cega como os agentes digitais em simulações computorizadas. Os humanos apresentam caraterísticas únicas, como a consciência a autoconsciência, a espontaneidade, a imaginação, a criatividade, a reflexão, o poder, a escolha, a avaliação, a sociabilização. Por exemplo, itens como a não-linearidade e a auto-organização devem ser traduzidos para o domínio do humano, como consciência, autoconsciência e escolha (Stacey, 2006). Neste sentido, torna-se fundamental integrar estas caraterísticas nas interpretações que façamos sobre os seres humanos como sistemas adaptativos complexos, pois estes não agem de acordo com regras mecanicistas mas de acordo com interações comunicativas significantes.

A gestão estratégica e as dinâmicas organizacionais são então abordadas de acordo com a teoria dos complex responsive processes (Stacey, 2006). A abordagem que é feita na aplicação das ciências da complexidade integra paradoxalmente a ordem e a desordem, a estabilidade e a instabilidade, mas diverge da sua aplicação das teorias da complexidade matemática, pois a gestão estratégica é entendida, mais como a consequência da interação dos agentes, do que de equações determinísticas. Para compreender como os seres humanos interagem, a teoria dos CRP assenta, por um lado, nas analogias das ciências da complexidade e dos sistemas adaptativos complexos, mas por outro lado, integra ainda os trabalhos de Mead (1910, 1934) em termos da teoria da mente, do eu e da sociedade; de Elias (1939) de poder, figuração, ideologia e formação identitária (as cited in Stacey et al., 2000) e a teoria dos valores de Dewey (1934) (as cited in Stacey & Griffin, 2005). Desta forma, esta teoria incorpora as caraterísticas essenciais dos agentes humanos de forma a aprender como estes pensam sobre a vida nas organizações e como lidam com o desconhecido, ao mesmo tempo que criam em conjunto a estratégia (Stacey & Griffin, 2006).

Nesta teoria, a noção de paradoxo, advogada por Hegel, assume uma tónica basilar na gestão estratégica em complexidade (Stacey, 2007). Paradoxo, pode ser entendido de várias formas, a mais comum situa o conceito em questões contraditórias, ou conflituantes, que devem ser resolvidas. No entanto, se nos posicionarmos na perspetiva da lógica dialética de Hegel, a palavra paradoxo significa a presença conjunta, simultaneamente da contradição, ideias conflituais, em que nenhuma delas pode ser eliminada ou resolvida (Stacey et al., 2000). Neste sentido o paradoxo não pode ser resolvido ou harmonizado mas apenas interminavelmente transformado. Hegel preconizava esta visão paradoxal para o pensamento do indivíduo, que é simultânea e essencialmente, social (Stacey, 2007). Para Stacey (2006) a complexidade é uma dinâmica paradoxal de estabilidade e instabilidade, simultaneamente formando e sendo formado por esta dinâmica. Nesta perspetiva, o processo da interação humana é paradoxal, na medida em que é necessariamente contínuo e potencialmente transformador, e ao mesmo tempo, repetitivo e potencialmente mutável. Stacey (2007) considera que os processos são processos sociais, que se consubstanciam pela interação entre os indivíduos, sem que existam pontos de vista externos. Desta forma, a consciência individual e a autoconsciência surgem nas relações sociais, através das quais os indivíduos estão simultaneamente a formar e a ser formados. Esta é sem dúvida uma noção diferente de causalidade a que Stacey et al. (2000) denominam de causalidade transformativa.

Na linha de Hegel, Mead (1910) sugeriu a consciência do significado em detrimento da autoconsciência de si, evidenciando que o significado surge nas interações sociais. Para Mead (1934), considerado o pai da psicologia social, a mente, a autoconsciência e a sociedade surgem simultaneamente (as cited in Stacey et al., 2000). Os autores afirmam que Mead (1910) explica a mente humana e a interação social, como o singular e o plural do mesmo processo, e denomina-o de processo de interação simbólica. Como enfatizam Stacey et al. (2000, p. 349), a mente “is formed by the social/the group at the same time it is forming the social/the group”. Estas perspetivas levam a que a abordagem dos complex responsive processes foque a atenção no facto dos seres humanos criarem padrões de significado nas suas “iterated interaction” com os outros. Os significados repetem-se na interação, mas apresentam também um potencial transformador. Stacey et al. (2000) consideram que o individual e o social não podem ser separados, porque tanto a consciência individual como a autoconsciência surgem nas relações sociais que simultaneamente os indivíduos constroem. É na interação comunicativa, através do diálogo comum, que os humanos realizam aquilo que pretendem (Stacey, 2007).

Elias (1939) preconiza também que a unicidade individual emerge no processo de interação social. O autor salienta que o individual é o singular e o social é o plural de pessoas interdependentes. Não há níveis separados, apenas processos paradoxais de indivíduos formando a sociedade, enquanto simultaneamente são formados por esta. A interdependência é alicerçada na ideia de que a preservação da identidade e a satisfação dos desejos requer uma ação conjunta com os outros. É a interdependência, o paradoxo singular/plural, que permite a possibilidade da transformação numa dimensão claramente social. Formam-se assim as bases das relações de poder, porque existe uma diferença de dependência, num grupo particular, entre os seus membros. As diferenças de poder formam grupos, nos quais algumas pessoas são incluídas e outras excluídas (as cited in Stacey, 2007). Stacey e Griffin (2005) consideram que o aspeto chave baseado no trabalho de Elias (2000) é o facto de todos os seres humanos imporem constrangimentos àqueles com quem se relacionam, enquanto, em simultâneo, possibilitam aos mesmos, fazer aquilo que de outra forma não poderiam. Em vez de pensar no poder como a possessão de alguns e não de todos, o poder é uma caraterística estrutural, um padrão, em todos os relacionamentos humanos. O facto de dependermos uns dos outros, faz com que o poder, simultânea e mutuamente, habilite e limite. À medida que interagimos, as relações de poder, o padrão de possibilidades e constrangimentos, emerge, muda e evolui (Stacey & Griffin, 2006). E nesta interdependência, os humanos constrangem e possibilitam as ações uns dos outros. Para os autores, e no seguimento da linha de Elias (1939, 1970), a partir do momento em que o poder é como um constrangimento que possibilita outro tipo de ações, ele assume um aspeto irremovível de toda a relação humana. Padrões de relações de poder estão constantemente a emergir na interação humana (as cited in Stacey, 2007).

Stacey et al. (2000) considera que tanto o poder como a ansiedade são variáveis-chave relevantes nos processos de mudança nos sistemas complexos humanos, para além da conetividade, fluxo de informação e diversidade. O poder e nomeadamente, as diferenças de poder, são relevantes na mudança, sendo que quando existe muito controlo por parte de alguns setores da organização podem surgir sufocamentos ao nível da criatividade e da capacidade de mudança. No entanto, no caso dos mecanismos de controlo serem débeis, o sistema pode tornar-se caótico e com um comportamento aleatório. A ansiedade também é considerada uma variável significativa, na medida em que um elevado nível de ansiedade contida, dificulta a possibilidade de mudança e a criatividade, assim como o contrário irá facilitar a tendência para o desnorteamento e para o aumento de defesas inúteis.

Elias (2000) avança com outro contributo relevante, ao argumentar que, mesmo quando os grupos interagem a nível local de uma forma intencional e planeada, é impossível prever o resultado a longo prazo, pois dessa interação emergirá um padrão sem qualquer plano global ou modelo, ou seja, não se consegue planear interação. As consequências a longo prazo não são previsíveis porque a interação de ações e intenções dos indivíduos permite constantemente o aparecimento de algo que não tinha sido idealizado, planeado ou criado por nenhum dos indivíduos. Neste sentido, o que acontece emerge do jogo de todas as intenções e assim podemos considerar que intenção e emergência são simultâneas (as cited in Stacey, 2007).

Dewey (1934), um dos mais influentes pragmatistas americanos, teve também influência na teoria dos CRP. Este autor considera que um grupo ou uma organização é um imaginative whole, composto por um conjunto de desejos, valores e normas (as cited in Stacey, 2007). Os desejos ou preferências dos indivíduos podem traduzir-se como impulsos físicos e fluidos, expressos por ações não refletidas. As normas têm a capacidade de constranger esses desejos de acordo com o que está certo, ou seja, retraem a ação. Segundo o autor, são os valores que nos fornecem os critérios gerais e duráveis para avaliarmos os desejos e as normas.

Em consequência do exposto, Stacey et al. (2000) consideram que os sistemas humanos e os seres humanos são construídos por processos de resposta complexos de conversação. Primeiro, porque a conversação é a construção de narrativas de significado, das quais emergem temas e modelos mentais que facilitam e constrangem o comportamento. A comunicação, ou seja a conversação, facilita alguns tipos de ação e constrange outros tipos de ação. Segundo, porque a comunicação induz a criatividade na organização. Neste sentido, Shaw (2002) advoga que processos mais fluidos e espontâneos de conversação no dia-a-dia, permitem mais oportunidades para a criatividade, para a mudança e consequentemente para a estratégia. Stacey (2007) alerta para o facto das dinâmicas espontâneas e fluidas só serem possíveis, caso existam níveis de confiança suficientes, capacidade para lidar com a ansiedade e relações de poder que sejam simultaneamente cooperativas e competitivas. Nesta perspetiva, torna-se relevante compreender a dinâmica da conversação, ou seja, os padrões ao longo do tempo.

Stacey (2007) assume a rutura com a lógica sistémica, ao deixar de utilizar a noção de sistema na teoria dos CRP. Esclarece que, em interação, as pessoas produzem mais padrões de interação e constroem imaginariamente “o todo”, que têm tendência a idealizar. Estes imaginative wholes são entendidos como ideologias e não como sistemas (Stacey, 2007). Já anteriormente, Stacey (2006)

tinha referido que na aplicação das ciências da complexidade à análise da ação humana, numa perspetiva social, a organização como um todo real e materializável, existe apenas como uma ideologia. Sendo esta uma forma de comunicação, que preserva a ordem corrente e faz com que a mesma pareça natural. Uma vez que os humanos interdependentes, seguem, até certo ponto, uma ideologia dominante (Stacey, 2007). Para o autor, a ideologia deve ser entendida em termos paradoxais, na medida em que é simultaneamente a restrição obrigatória das normas e a compulsão voluntária dos valores, constituindo o critério avaliativo para a escolha das ações. Para Elias (1939) é a ideologia que fornece o critério para escolher uma ação em detrimento de outra, constituindo-se como a base inconsciente das relações de poder (as cited in Stacey, 2007). Assim, as ações que os indivíduos expressam publicamente são contingenciais, pois estes antecipam como serão julgadas ou respondidas as ações que façam, numa situação em particular (Stacey, 2007).