LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
2.4. Caravanas da Anistia e Comissão Nacional da Verdade
No segundo mandato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a Comissão da Anistia passa a realizar sessões de apreciação pública em todo o território nacional dos pedidos de anistia que recebe com as chamadas Caravanas da Anistia. Buscando especialmente uma dimensão pedagógica, os trabalhos são transferidos para praças públicas, escolas, sindicatos, universidades, etc., além de lugares nos quais as perseguições, torturas e mortes ocorreram. Cria-se, também, o projeto “Marcas da Memória”, que atua em quatro campos: a) audiências públicas para promover processos de escuta das e dos perseguidos políticos sobre o passado e suas relações com o presente; b) entrevistas com perseguidos políticos baseada em critérios teórico-metodológicos próprios da História Oral, levados ao acervo do Memorial da Anistia e podendo ser disponibilizadas nas bibliotecas e centros de pesquisa das universidades participantes do projeto; c) chamadas públicas de fomento para seleção de projetos de preservação, de memória, de divulgação e difusão; d) publicações.252
Apesar desses avanços, deve-se ressaltar, como observa a socióloga Maria Lygia Quartim de Moraes, que:
Además de la discusión sobre las dimensiones jurídicas y políticas de los procesos de transición y de los beneficios de los supuestos de la justicia de transición, falta profundizar en las consecuencias subjetivas de la impunidad. Esto se debe a que la reparación es un proceso complejo y, en cierta medida, destinado a un mayor o menor fracaso. Si, como en Brasil, la reparación se limita a una contribución financiera y al reconocimiento de que el torturado y/o preso y/o asesinado y/o desaparecido era un luchador que tenía derecho a oponerse a la dictadura, la impunidad de los responsables y la ocultación de las circunstancias dejan una abrumadora sensación de frustración. Peor aún, se alimenta el miedo. Pues el dolor, la falta de los seres queridos y el temor son sentimientos compartidos por los supervivientes y sus familiares.253
252 ABRÃO, Paulo. Marcas da memória: um projeto de memória e reparação coletiva para o Brasil. In: VALA
CLANDESTINA DE PERUS. Desaparecidos Políticos... op. cit., pp. 7-9.
253 MORAES, Maria Lygia Quartim de. Límites de la justicia de transición e impactos subjetivos del
terrorismo de estado en Brasil: testimonios de militantes políticas. Revista Historia y Justicia, n. 3. Santiago de Chile, octubre 2014, p. 18. Grifos nossos.
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A implementação das Clínicas de Testemunho a partir de 2013 faz parte desse aprofundamento nas consequências subjetivas, pois, ainda de acordo com a autora, a Comissão da Anistia deu-se conta da necessidade da psicoterapia na vida dos e das atingidas. Outra forma de se pensar nessas consequências pode ser, como estamos demonstrando nesta tese, o estudo das narrativas de militantes e sobreviventes.
No livro 1968 – o tempo das escolhas,254 Catarina Meloni narra sua trajetória no movimento estudantil e na AP, bem como sua prisão e exílio. Permeando os relatos, estão seus questionamentos em relação à própria escrita, como no momento em que diz estar “tentando escrever sem avaliar. Quero que minhas mãos sejam a extensão da mente, apenas reproduzindo a memória.” Em seguida, entrelaça as formas da escrita ao desejo de transmissão:
Não quero pesquisar arquivos daquele tempo. Este não é um trabalho jornalístico. O que trago aqui são coisas vividas, sobretudo sentimentos. Procuro evitar os sentimentos atuais, mas nem sempre sou capaz. Quero transmitir a imagem que tive naquele período, com todas as minhas limitações, e ser sincera ao retratar o que vi e vivi, deixando de lado conceitos e criatividades literárias.255
Em determinado momento, mostra a ambiguidade da experiência ao apontar que, se havia proximidades entre quem militava, também havia divergências. Assim, cita o modo pelo qual a militância era nomeada pelos aparelhos repressivos: “Certos Serviços de Segurança disseram muitas coisas de nós: teleguiados de Moscou, traidores da pátria, guerrilheiros, extremistas, massa de manobra, subversivos.”256 E depois, questiona: “Em primeiro lugar convém perguntar: quem éramos nós? Será que existe um Nós? Seríamos uma coletividade? (…) Mas o que garantia tal unidade, se é que ela existia?”257
Novamente trabalhando com a questão da escrita de sua experiência, afirma que “a memória nos abre as portas para compreender o tempo e o espaço em que vivemos. A memória é palavra arquivada. Quando é solta, pode promover a libertação e permitir compreender momentos essenciais das vivências humanas.”258 Na última página do livro,
254 MELONI, Catarina. 1968 – o tempo das escolhas. São Paulo: Nova Alexandria, 2009. 255 Ibidem, p. 32
256 Ibidem, p. 23. 257 Ibidem, p. 24. 258 Ibidem, p. 68.
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diz o que significa a própria escrita e, podemos acrescentar, afirma a importância desta para sua reconstrução subjetiva:
Hoje, escrever ajuda-me a organizar as ideias e a vida. E a entender os fatos para não ficar procurando culpados de coisas não realizadas. Sinto- me com direito à palavra, conquisto assim minha liberdade pela via da livre expressão e não fico remoendo ideias fixas. O passado, já não tenho mais a impressão de o estar carregando como um fardo.259
Vale a pena destacar, também, uma publicação de 2010 intitulada Luta, substantivo feminino,260 que reconstrói as trajetórias de mulheres mortas e desaparecidas na luta contra a ditadura e contém o depoimento de militantes que foram torturadas naquele período.261 Ainda que não seja um livro organizado ou escrito por mulheres que militaram naquela situação, trata-se de uma obra com caráter coletivo, cujos depoimentos podem ser assim analisados.
Já a peça de teatro Diálogo para uma só personagem, de Ana Mércia Silvia Roberts,262 foi escrita entre 1993 e 1994 e ficou guardada por aproximadamente quinze anos. Em 2008, ao participar do Grupo de Mulheres ex-Presas Políticas, leu seu texto para as demais companheiras que, emocionadas, acolheram seu testemunho e incentivaram sua publicação, pensando coletivamente nas estratégias para esse fim.
Não vou deter-me particularmente na peça, que retrata a prática da tortura e as repercussões desta na vida das pessoas que sofreram – e sofrem – seus efeitos, bem como os processos que levaram à Lei da Anistia em 1979. Destaco, por outro lado, o engajamento coletivo e solidário das participantes do grupo citado e o comprometimento de elaboração e transmissão de suas experiências, como pode ser observado na apresentação do livro feita por Lucia Salvia Coelho, coordenadora do projeto na época da publicação da peça. Em suas palavras, trata-se de um grupo formado por “mulheres de esquerda, que foram presas
259 Ibidem, p. 128.
260 MERLINO, Tatiana; OJEDA, Igor. Luta, substantivo feminino: mulheres torturadas, desaparecidas e
mortas na resistência à ditadura. São Paulo: Editora Caros Amigos, Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2010.
261 Essa publicação faz parte de uma série de livros lançados pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos
baseada no relatório Direito à memória e à verdade, de 2007. Em junho de 2009, durante a 2ª Conferência Nacional do Direito à Igualdade Racial, foi publicado o texto com a história de quarenta afrodescendentes que morreram na luta contra a ditadura. Na 8ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, em dezembro do mesmo ano, foi publicado o livro História de meninas e meninos marcados pela ditadura.
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durante o período da ditadura militar, empenhadas em vencer o silêncio imposto pela repressão que ainda permanece em nós mesmas, impedindo o exercício pleno de nossa liberdade de expressão e de ação.”263
Ao compartilhar e refletir sobre suas lembranças e sofrimentos na prisão, levando tais memórias para um contexto social e histórico mais amplo, esse trabalho coletivo buscava autoconhecimento e superação do sofrimento com o objetivo de que as mulheres pudessem alcançar novos projetos e realizar as ações que julgassem pertinentes. Formado por sete mulheres que sofreram torturas na prisão durante o período ditatorial, com idade entre 59 e 72 anos, o grupo reúne-se para dividir experiências da prisão e, juntas, tentam compreender suas vivências e analisar as consequências e possibilidades atuais. Baseando-se em suas capacidades de afirmação e na criatividade da imaginação, procuram reparar suas identidades, saindo do papel de vítimas para a identidade de alguém livre.
Salientam, assim, que “nosso papel nesta luta coletiva deverá ser o de esclarecimento público por meio de expressões artísticas, sobretudo o teatro, mas também de estudo e pesquisa social.”264 Tal movimento pode ser visto não apenas no conteúdo da peça publicada, mas no próprio feitio do livro, cuja apresentação é feita a partir de pesquisa sobre o tema da tortura, e cuja capa é uma aquarela feita por Rita Sipahi (Figura 8), presa política que já havia dado seu depoimento no citado livro Tiradentes, um presídio da
ditadura,265 e uma das participantes do grupo.
Ainda na apresentação, há uma discussão sobre a especificidade feminina na tortura: “no caso da vítima ser uma mulher, a situação ainda torna-se mais delicada: apela- se à sua responsabilidade filial, ao seu amor materno, ao seu pudor feminino.”266 Além disso, as implicações da experiência também são abordadas:
Quando muito sensibilizadas e marcadas pelo sofrimento da prisão, muitas destas mulheres, mesmo após o final da ditadura militar, já não mais encontram forças para a denúncia dos abusos sofridos – temem as consequências, sobretudo pelo fato dos torturadores continuarem livres e poderosos. (...) a mulher que sofreu a prisão política submeteu-se a um
263 COELHO, Lucia Salvia. Apresentação. In: ROBERTS, Ana Mércia Silvia. Diálogo para uma só... op. cit.,
p. 11.
264 Ibidem, p. 12.
265 FREIRE, Alípio; ALMADA, Izaías; PONCE, J. A. de Granville (orgs). Tiradentes, um presídio da ditadura... op. cit.
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sofrimento singular: a invasão da privacidade da sua casa e do seu corpo, o atentado ao pudor e à sua condição feminina, os insultos verbais, estupros, apalpamentos de suas partes mais íntimas sempre acompanhadas de comentários grosseiros.267
Esse trabalho de memória coletivo busca “transmitir às novas gerações as nossas experiências políticas e conhecimentos pessoais, construindo assim uma via ininterrupta de solidariedade,”268 a qual tem início no acolhimento de suas histórias, na tentativa de elaborá-las e pensá-las duplamente, tanto em suas decorrências subjetivas como nas políticas e sociais.
Figura 8: Capa do livro Diálogo para uma só personagem. (Ana Mércia Silva Roberts, 2011)
No dia 16 de maio de 2012, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff (PT), foi instituída a Comissão Nacional da Verdade. Criada no ano anterior pela Lei 12.528, teve como finalidade apurar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Com os debates para a criação da CNV, muitas outras comissões foram criadas (municipais, estaduais, sindicais, universitárias, etc.),
267 Ibidem, pp. 18-19. 268 Ibidem, p. 12.
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envolvendo amplos setores da sociedade interessados no passado recente brasileiro. Abriram-se espaços para novos depoimentos de militantes e ex-presas e presos políticos, parte dos quais integra o relatório final da Comissão.
Mesmo recente, podemos citar alguns testemunhos publicados nesse período, como a autobiografia da atriz e jornalista Vera Gertal, Um gosto amargo de bala,269 livro de 2013 no qual narra sua trajetória ao lado de militantes e artistas que resistiram à ditadura. Em 1964, atuava em peças teatrais e estava na sede da União Nacional dos Estudantes quando o prédio foi atacado por ativistas de direita. Em um trecho, relata sua posição dentro do partido:
Compareci ao Congresso Nacional do Comitê Cultural do PCB, em 1967, logo após minha viagem à Europa muito despreparada para defender a luta armada diante da maciça oposição do Partido. Os delegados, todos homens – eu era a única mulher. Conhecedores de minha linha, os companheiros me nomearam secretária, para me manter ocupada na mesa diretora, responsável pela ata.270
Vera ainda descreve várias atividades de apoio à ALN, que tinha como um de seus principais líderes seu padrinho, Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo.
Também em 2013, Sylvia de Montarroyos publicou Réquiem por Tatiana: memórias de um tempo de guerra e de uma descida aos infernos.271 Primeiro de uma trilogia que a autora está preparando, o livro apresenta suas memórias como militante trotskista e presa política. Ao fugir da primeira prisão em 1964, foi recapturada e passou por torturas violentas, o que a fez perder temporariamente a razão. Internada no Hospital Psiquiátrico da Tamarineira em coma e em estado lastimável, com o corpo cheio de marcas de feridas, sofreu duplamente as torturas do choque elétrico: primeiro, nos quartéis militares, depois, no abusivo tratamento psiquiátrico da época.
São mais de 450 páginas de suas memórias, nomeadas pela autora como “testemunho da primeira mulher a ser torturada pela ditadura militar no Brasil.” Na página da catalogação bibliográfica, uma interessante “nota do editor” explica a escolha da capa do livro (Figura 9):
269 GERTEL, Vera. Um gosto amargo de bala. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. 270 Ibidem, p. 179.
271 MONTARROYOS, Sylvia de. Réquiem por Tatiana: memórias de um tempo de guerra e de uma descida
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A foto de Tatiana, na capa deste livro, foi tirada em 2 de novembro de 1964, na Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco. Quando ela escapou da prisão, a foto foi divulgada por jornais e empresas de televisão, e também nos aeroportos, fronteiras nacionais e internacionais do país, sob o título ‘Perigosa terrorista foragida: Procura-se’.272
Figura 9: Capa do livro Réquiem por Tatiana. (Sylvia de Montarroyos, 2013)
Em 2014, Marlene Soccas publica Meu querido Paulo,273 apresentando a história de Paulo Stuart Wright, cassado quando deputado pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina e militante da AP, cujo corpo continua desaparecido até hoje. Nesse livro, a autora realiza, a todo momento, uma narração também de sua militância e prisão, como podemos observar no seguinte trecho:
Meu querido Paulo – há uma questão que quero discutir contigo. Primeiro, porque é um testemunho do que sofri nas mãos dos torturadores. Segundo, é uma autocrítica que desejo fazer, refletindo em cima dos meus erros, de minhas fraquezas. Terceiro, para esclarecer a importância da luta dentro de uma ditadura, evitando-se as organizações clandestinas ao mínimo necessário, que não sejam edificadas nos muitos elos fracos, que somos nós, ou sabendo muito bem como combinar a luta legal com a ilegal.274
272 Ibidem, s/p.
273 SOCCAS, Marlene. Meu querido Paulo. Criciúma: Edição do Autor, 2014. 274 Ibidem, p. 218.
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Por meio do diálogo com um companheiro, como faz Marlene Soccas, ou através de poesias, de peças de teatro, de filmes ou de romances: as mulheres utilizaram diferentes formas para a manifestação de seus testemunhos. Percorrendo quase 40 anos das políticas da memória brasileiras, o presente capítulo elencou diversas vozes femininas que narraram suas vivências e a de uma geração na luta contra o Terrorismo de Estado brasileiro. Como procuramos observar, as diferentes estratégias narrativas buscaram dar conta de várias dimensões: encontrar um espaço de escuta para transmitir suas experiências, mesmo que para isso seja necessário criá-lo; problematizar o testemunho como um todo, e a escrita em particular; articular suas memórias com as de companheiros e companheiras de militância, clandestinidade, prisão ou exílio; além de construir um espaço próprio como prática de subjetivação.
Após apresentar essa pesquisa que reúne cerca de 30 testemunhos brasileiros realizados por mulheres, mostraremos, no próximo capítulo, nossa investigação referente à produção testemunhal de militantes, ex-desaparecidas e ex-presas políticas do Terrorismo de Estado argentino.
95 CAPÍTULO 3:
Políticas da memória e testemunhos na Argentina (1984-2014)
O trabalho iniciado no capítulo anterior tem segmento neste capítulo, percorrendo, agora, as políticas da memória construídas na Argentina para apresentar um panorama com os testemunhos femininos produzidos naquele país. De acordo com nossa proposta, realçaremos temas relevantes nas obras mencionadas, além de indicarmos pesquisas acadêmicas sobre esses títulos. Finalmente, vale destacar que as reflexões acerca dos testemunhos que fazem parte específica do nosso corpus de análise serão apresentadas nos três últimos capítulos desta tese.
Nesse momento, a comparação entre os dois países embasa-se menos no interesse em estabelecer vagas semelhanças, e mais em mapear as diferenças e as singularidades, pois estas contribuem para uma análise dos diversos mecanismos específicos das justiças de transição adotadas e como estas se relacionam com as políticas de memória. Para isso, observamos os contextos nos quais as manifestações da memória são socialmente incorporadas – sem esquecer, entretanto, que essas manifestações também provocam tensão nas condições dadas. Não se trata, portanto, da memória construída sobre os acontecimentos de uma sociedade, mas da disputa em torno dessa construção, que é especialmente marcada pelo contexto temporal no qual essas narrativas foram realizadas, pois novos temas e perspectivas incorporadas variam de acordo com os cenários e momentos do presente de sua enunciação, demandando e possibilitando diferentes formas de ouvir e de falar.
96 3.1. Transição por colapso
Se no Brasil a transição foi pactuada, sob o controle militar, sem punição aos repressores e mantendo, assim, o legado autoritário em diferentes domínios, o mesmo não se pode dizer da Argentina. Apesar da existência de elementos comuns para as quedas das ditaduras militares, fortemente relacionadas a crises econômicas e sociais, as formas como elas se encaminharam para a transição foram diferentes. Além do envolvimento popular na questão dos desaparecidos, foram fundamentais para o término do Terrorismo de Estado argentino os conflitos internos que levaram o país à Guerra das Malvinas e, consequentemente, a ser derrotado. Diante desse cenário, deu-se uma transição por colapso, na qual as pressões para a criminalização das autoridades repressivas puderam ser, em alguma medida, efetivadas.275
Embora em colapso, as eleições de outubro de 1983 foram articuladas pela nova Junta Militar. Com a posse de Raul Alfonsín (UCR) em dezembro do mesmo ano, é anunciada a criação da CONADEP (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas). Após as atividades da Comissão, que colheu testemunhos e inspecionou centros clandestinos de detenção, foi divulgado em setembro de 1984 o informe Nunca Más, apresentando à sociedade os horrores cometidos pela ditadura argentina.276 Outras medidas firmadas pelo presidente Raul Alfonsín nesse momento foram os decretos 157 e 158, de 13 de dezembro de 1983,
(…) que ordenaban enjuiciar a siete jefes guerrilleros y a las tres primeras Juntas Militares de la dictadura. Mediante el primero, propuso la indagación a la violencia guerrillera desde 1973 hasta 1983, interpretándola como fruto de ‘intereses externos al país.’ En el segundo acusó a las Juntas de haber concebido e instrumentado un plan de operaciones contra la actividad subversiva basado en métodos ilegales.277
275 Cf.: 1) LÓPEZ, Ernesto. A construção do controle civil: Argentina, Brasil e Chile. In: SAINT-PIERRE,
Héctor L.; MATHIAS, Suzeley. (orgs.). Entre votos e botas: As forças armadas no labirinto latino-americano do novo milênio. Franca: UNESP, 2001. 2) MACHADO, Patrícia da Costa. Transições pactuadas e transições por ruptura: a manutenção do legado autoritário no Brasil e sua influência no processo de justiça transicional. Aedos, n. 13, vol. 5, Ago/Dez 2013, pp. 38-57. 3) MORAES, Maria Lygia Quartim de. Límites de la justicia de transición e impactos subjetivos del terrorismo de estado en Brasil: testimonios de militantes políticas. Revista Historia y Justicia, n. 3. Santiago de Chile, octubre/ 2014, pp. 12-32.
276 NUNCA MÁS: Informe de la Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas. Buenos Aires:
Eudeba, 2012.
277 CRENZEL, Emilio. La historia política del Nunca Más: la memoria de las desapariciones en la Argentina.
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Para levar adiante o julgamento dos militares, o Congresso Nacional anula, por meio da Lei nº 23.040 de 22 de dezembro de 1983, a Ley de la Pacificación Nacional, que em setembro do mesmo ano havia anistiado os militares. Em 1985 ocorre, assim, o Juício a
las Juntas, processo judicial realizado pela justiça civil para julgar os chefes de governo
militar que cometeram ou idealizaram crimes ligados à perseguição, tortura e desaparecimentos durante a ditadura. A sentença foi estabelecida em 09 de dezembro de 1985, com o julgamento e a condenação dos comandantes das Forças Armadas, e o processo significou “um marco institucional que oferecia suporte material e prático para a memória sobre a ditadura civil-militar argentina, baseada na condenação ética e moral dos crimes que aconteceram.”278
Em 23 de dezembro de 1986, contudo, foi promulgada a Lei nº 23.049, também conhecida como Ley del Punto Final, que determinava um prazo para a abertura de