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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

2.3. Comissão de Anistia

A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, criada em 2001 por meio de medida provisória do presidente reeleito Fernando Henrique Cardoso, foi aprovada pelo Congresso em 2002 (Lei n° 10.559). Tendo por objetivo promover a reparação de violações a direitos fundamentais praticados entre 1947 e 1988, a Comissão reconhecia a anistia política aos perseguidos e perseguidas políticas e proporcionava, quando pertinente, um ressarcimento econômico. É apenas em 2008, contudo, que as políticas de reparação saem do pilar da compensação econômica para buscar o direito à verdade. Entretanto, já nesse período podemos perceber o crescimento de publicações de teor testemunhal realizadas por militantes e ex-presas políticas.

Escrito originalmente em 1994 para um concurso literário de Santa Catarina, Marlene Soccas publica, em 2000, o livro Como ele veio e ficou.203 O “esclarecimento” feito entre o prefácio e o primeiro capítulo levanta algumas questões interessantes. A autora começa explicando sobre as condições exigidas por tal concurso e sobre a forma pela qual se deu a publicação do material:

Como tal, ele deveria obedecer a alguns requisitos. Não poderia ultrapassar 150 páginas. O assunto teria que ser inédito. Pelos motivos citados, eu não poderia entrar em assuntos meus, não poderia assumir minha própria identidade, pois que, por diversas vezes, dei entrevistas a jornais ou programas de rádio e TV, onde abordei fatos ocorridos comigo durante a ditadura militar, inclusive minha prisão e torturas. Portanto, a Ana não é dentista, não morou em São Paulo, não se filiou a nenhuma organização ou partido político, não foi presa, nem torturada. Ela assume o papel de uma jovem de classe média baixa, estudante, que apenas toca, tangencialmente, através de Pedro, os dramas relacionados com a ditadura. Porém, os fatos históricos são verdadeiros e alguns personagens nomeados também. Como o livro não foi premiado e o exemplar original me foi Cf. RIBEIRO, Maria Cláudia Badan. Experiência de luta na emancipação feminina: mulheres na ALN. Tese de doutorado em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2011.

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devolvido, resolvi levá-lo à gráfica para sua impressão, por minha conta.204

Marlene Soccas aproveita a oportunidade de participar de um concurso literário para escrever sobre sua militância e sobre a repressão que a atingiu – militante da VPR e VAR-Palmares, além de ter colaborado com a AP, Soccas foi levada à OBAN em maio de 1970, onde ficou por doze dias e foi severamente torturada.205 Para manifestar suas memórias em escrita, não importaria mudar alguns nomes, inclusive o seu. Mais que isso, a escrita não fica trancada com o resultado negativo do concurso: com o material já pronto, a autora o publica, ainda que fosse necessário pagar com verba própria. Parece que, nesse sentido, o mais importante era a transmissão dessa vivência, como aponta no final do esclarecimento:

É meu projeto escrever o que ocorreu comigo e outros companheiros naquele período, após a venda e o pagamento das despesas de impressão do presente livro. Não o farei achando que minha vida seja algo importante. Mas o que passei durante o regime militar creio que deva ficar registrado como depoimento. Farei isso também porque muitas pessoas para quem eu relato os acontecimentos durante a ditadura, sempre me perguntam por que eu não escrevo um livro sobre o assunto. Tanta insistência acabou por me influenciar.206

Observa-se, aqui, que a autora percebe a existência de uma acolhida para seu testemunho, e esse espaço aberto pelas muitas pessoas que insistiam na publicação foi um estímulo não apenas para a escrita de Como ele veio e ficou, mas também para seu segundo livro, como apontaremos no último item deste capítulo.

Também em 2000, Marília Guimarães relata, em Nesta terra, nesse instante,207 um período específico de sua militância na VPR e na VAR-Palmares, compreendido entre fevereiro de 1969, quando foi coagida pela repressão e conseguiu fugir de uma iminente prisão, e janeiro de 1970, quando chegou a solo cubano após o sequestro de um avião planejado pela sua organização. Diferente de outros testemunhos, este não fornece

204 Ibidem, s/p.

205 Cf.: MARTINI, Estela Maris Sartori. Uma trajetória escolar e profissional pouco provável: o caso de

Marlene Soccas. In: VI Colóquio Ensino médio, história e cidadania. UDESC. Anais... Florianópolis, agosto de 2011.

206 SOCCAS, Marlene. Como ele veio e ficou... op. cit.

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indicações sobre o início de sua militância, ou sobre o que pensava em relação ao ocorrido no momento de escrita.208

O texto, composto em boa parte a partir de diálogos reconstruídos pela militante, inicia com a descrição de sua chegada a Cuba para, depois, retroceder quase um ano e recuperar fatos anteriores que levaram a tal situação. Em um desses momentos, comenta: “Clandestinidade é a expressão mais sofrida e iluminada nesta história. É o obscuro. A noite em plena luz do dia, é estar na multidão tentando se confundir dentro dela. São as estradas sinuosas da minha pátria gentil. São vozes sussurradas no burburinho das ruas. É o medo do nada.” E completa: “Mas é, também, o despertar pleno da coragem. É o nascimento. É seguir em frente, sem temores. É ir em busca do encontro definitivo com a liberdade.”209

A presença dos filhos é constante nessa narrativa de encontros e desencontros com companheiros, marcada por tantos outros sentimentos tão ambíguos como o de ser clandestina. Ao explicar os últimos preparativos para a operação de sequestro de um avião que a levaria, com outros companheiros, a Cuba, demonstra sua insatisfação com o partido, que decidira que seus dois filhos não ficariam com ela até o início da ação: “Os momentos que se seguiram foram os mais tristes. Iria deixar meu país coagida pelos dois lados da moeda. A ditadura, que tortura, mata, esquarteja nossos ideais, e o sectarismo de uns, que não entendem os verdadeiros caminhos para a conquista da liberdade. Não foi à toa o racha.”210 No carro que a levaria à fronteira com o Uruguai, onde embarcaria no avião a ser sequestrado, encontra seus filhos:

Envolvidos nos meus braços, presos ao meu peito, nem vi o amanhecer, nem notei que nos distanciávamos do meu país. Não importava o futuro, nem para onde íamos. De uma única coisa eu tinha certeza: ninguém os arrancaria de mim, nem que, para defendê-los, tivesse que me matar. Hoje, trinta anos vividos, reafirmo essa promessa.211

Outros cinco militantes, além de Marília Guimarães e seus dois filhos, Marcello e Eduardo (quatro e três anos, respectivamente), participam do sequestro do avião

208 Para uma leitura desse livro preocupada com a construção da mulher guerrilheira, ver: INSUELA, Julia

Bianchi Reis. Visões das mulheres militantes na luta armada... op. cit.; pp. 186-198.

209 GUIMARÃES, Marília. Nesta terra, nesse instante... op. cit., p. 54. 210 Ibidem, p. 106.

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Caravelle, que saía de Montevidéu rumo ao Rio de Janeiro, mas teve sua trajetória desviada a Buenos Aires, Antofagasta e Lima, até finalmente chegar a Cuba. Na penúltima parada, conta que ofereceram asilo político à “mãe das crianças” e a essas:

Eu, que fora posta à margem de tantas decisões... das mais simples às mais secretas, que tiveram meus filhos afastados do meu convívio, para garantirem o sequestro... neste instante, o destino de todos, nas minhas mãos: passageiros, tripulantes, companheiros, meus próprios filhos... sim! Meus filhos, acima de todos. Olhei para os dois. Tão ternos, tão carentes de infância, de juventude e de maturidade. Tão pequeninos! Por eles, por todas as crianças do meu triste país, pelos que têm o direito de conhecer o mar, pelo direito que todos têm de ser felizes, como dizia Martí. Por todos eles.212

Nega-se, assim, a aceitar o asilo e continua a tarefa militante até o destino final, completando mais de três dias de incertezas: “De pronto, tudo havia terminado. Qualquer lugar que fosse, tínhamos chegado. Que seria de nossos sonhos, ficariam para bem depois”,213 diz.

Oito anos depois, Marília publica em Cuba outro livro, que ainda não teve uma edição brasileira, Nuestros años en Cuba: un exilio entre sinsontes y el sabiá.214 Também com muitos diálogos, essa narrativa inicia no momento em que termina a história contada no livro anterior, ou seja, quando chega a Cuba com seus filhos, com quem divide essa fala: El año de tensión, de miedo, de fuga, terminó. Los cuatro días de terror quedaron atrás. A partir de hoy, vamos a vivir aquí. En esta isla. Vamos a descubrirla, a tomarla en los brazos, amarla, conocerla, apasionarnos por ella. Yo les prometo a ustedes que, a partir de ahora, todos los días serán de la más pura felicidad. Les prometo que serán felices, muy felices. Pueden creerme – respiré profundo alentada por mis pensamientos. ¡Ah! Cell y Edu, ¿qué saben ustedes de la vida, de sueños, de guerra, de hambre, de frío, de extrañar, de soledad, de torturas, de persecución, de clandestinidad?215

Descreve, permeando os reencontros com companheiros e companheiras de militância e as atividades realizadas, sua admiração por Cuba e por Fidel, a quem dedica o livro. E relata, um ano por capítulo, os dez anos de seu exílio na ilha.

212 Ibidem, p. 123. 213 Ibidem, p. 13.

214 GUIMARÃES, Marília. Nuestros años en Cuba: un exilio entre sinsontes y el sabiá. La Habana: Casa

Editora Abril, 2008.

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Em 2002 é publicado No corpo e na alma, livro de Derlei Catarina De Luca.216 Tentando juntar diferentes enfoques sobre o mesmo assunto, a autora busca iluminar sua experiência a partir de várias perspectivas: foto e documentos oficiais da repressão coletados no arquivo dos DOPS de São Paulo e do Paraná, um diário inacabado, pequenos contos do que veio depois. Mas o cerne desse conjunto é seu testemunho e a forma como o desenvolve. Considerando que esse livro é um dos escolhidos para trabalharmos com mais atenção no quarto capítulo, fica registrada aqui apenas sua capa (Figura 6), cuja arte é feita a partir dos documentos citados.

Figura 6: Capa do livro No corpo e na alma. (Derlei Catarina de Luca, 2002)

No ano seguinte, mais dois livros são lançados. Martha Vianna publica Uma tempestade como a sua memória: a história de Lia, biografia de Maria do Carmo Brito, militante da VPR e única mulher a assumir um posto de comando na história do movimento guerrilheiro no Brasil. Embora não seja um registro autobiográfico, incluímos nessa relação porque sua autora também participou da luta contra a ditadura, militando na AP.

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Acreditamos, assim, que é possível observar nessa narrativa o entrelaçamento das histórias dessas duas mulheres. Se, nos testemunhos mais tradicionais, as autoras falaram de suas experiências para falar, ao mesmo tempo, das vivências de outras companheiras e companheiros, aqui a autora relata a experiência de uma amiga e, ao mesmo tempo, deixa rastros sobre a sua. São as memórias construídas de uma geração que, independentemente da organização de esquerda, passaram por muitas experiências em comum. A epígrafe escolhida também dá sinais dessa simbiose: “Sou como você / Feito de coisas lembradas / e esquecidas (Ferreira Gullar).”217

Outro livro publicado em 2003 é Geração 60, Geração Esperança, de Maria Lúcia Resende Garcia.218 A autora, militante da AP, foi perseguida e presa em 1968 ao participar do já citado Congresso da UNE em Ibiúna e faz, nesse livro, um relato sobre sua vida na clandestinidade.219

Sete anos após divulgar um livro de poesias no qual retrata o período ditatorial, Wilma Ary publica Trauma do ovo: culpada e/ou inocente,220 agora num relato entrecortado por diferentes vozes narrativas – e diferentes tipos de letra/fonte, que acompanham essas vozes. Ora escreve em primeira pessoa, como no momento em que conta que “lutamos por essas transformações e eu não podia me proibir de fazer todas as coisas que se colocaram para serem feitas, todas as transgressões, ainda que com todos os traumas”221; ora em terceira pessoa, quando acompanhamos a personagem Ariana:

Ariana acordou em profunda depressão. Não entendia o porquê de tanta depressão. Aos poucos foi se lembrando do sonho da noite anterior. As imagens coloridas lhe voltavam à mente. Cenas correntes e um final estranho: um ovo – que não era feto – se quebra no corredor e, de dentro dele, saem pedaços de um ser humano: intestino, coração, pênis e tudo.222

217 Além disso, como já observamos no início desse capítulo a partir das reflexões de Leonor Arfuch em

relação às entrevistas como método de pesquisa nas ciências sociais ou no trabalho jornalístico, o trabalho final é de autoria conjunta.

218 GARCIA, Maria Lúcia Resende. Geração 60, Geração Esperança. São Paulo: Editora Alfa-ômega, 2003. 219 A dissertação de mestrado de Flávia de Angelis Santana utiliza o livro de Maria Lúcia Resende como

fonte, embora não trabalhe na chave da autobiografia e/ou testemunho. Cf.: SANTANA, Flávia de Angelis. Atuação política do movimento estudantil no Brasil: 1964 a 1984. Dissertação de Mestrado em História Social. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2007.

220 ARY, Wilma. Trauma do ovo: ou culpada e/ou inocente. São Paulo: Editora Sol, 2005. 221 Ibidem, p. 13.

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No primeiro capítulo, a autora fala sobre a irrupção de um sentimento: “Foi de repente que algo se soltou. Havia longo tempo que se achava preso ou solto dentro de mim, em qualquer parte de meu corpo, no coração, no cérebro, nas entranhas ou no... Onde havia ficado preso? Não sei.” E continua, agora com a escrita em negrito: “e todas as figuras que passaram por minha vida se soltaram e uma coisa resumiu todas – era a unidade – o medo.”223

No trabalho de memória que realiza, vários outros temas são elaborados. Ao falar sobre os momentos de militância e prisão, destaca suas inquietudes em relação aos afetos, à família, a si mesma: “Descobri de repente um sentimento desconhecido e duvidado tantas vezes: eu gosto de minha mãe. Corri ao seu encontro para beijá-la, com os pés no chão,”224 conta, em determinado momento. Em outro, questiona-se: “O que sou? A mulher sendo moldada, passo a passo. Não nasci mulher. Torno-me. E nesse... processo fui, sou e serei várias. (...) Daí, a pergunta: se estou livre de todas as minhas prisões posso caminhar e só ficar? amando desamando querendo não querendo gelando não gelando acendendo (...).”225 Numa das passagens mais fortes do livro, a autora narra a profunda agonia com a tortura e morte de um companheiro quando estava na prisão:

Esta foi a grande dor. Este foi o grande pânico que pressenti durante os sete dias em que me vi fechada entre quatro paredes, ouvindo gritos, frases desconexas, palavras piedosas e falsas e um grito terrível vindo de dentro das minhas entranhas, juntamente com a dor. A dor profunda e lancinante que me impedia de raciocinar e que me tornava lúcida e ausente. Tão ausente que uma imensa bondade, absurda e atroz, tomou conta de mim, e a bondade me acompanhou até ontem, quando descobri ou redescobri a maldade necessária para sobreviver. Com ela prosseguirei, irei ao encontro do meu destino. Agora nada mais me impedirá, as últimas réstias de luz estão se apagando da janela quebrada da cela. Lá fora os gritos e lamúrias. (...) O silêncio de cumplicidade se faz absurdamente, todos compactuaram com esse assassinato. Até eu, que não gritei, que me calei para sobreviver. E eles lá fora falavam em moral revolucionária – ‘que merda!’226

E nas tramas para construir as memórias daquele período, a questão da escrita e da vida são preponderantes: “Durante muito tempo não precisei escrever. Viver somente

223 Ibidem, p. 19. 224 Ibidem, p. 32. 225 Ibidem, p. 37. 226 Ibidem, p. 49.

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me satisfazia. Era uma época de intenso vai e vem. De gente, de ideias, de fatos, de sentimentos, de música.”227

Outra biografia na qual podemos observar uma “escrita de si” ao escrever sobre o outro é Um cadáver ao sol: a história do operário brasileiro que desafiou Moscou e o PCB.228 Iza Salles, militante da VPR, escreve sobre a vida de Antonio Canellas, operário expulso do PCB. A autora, que foi presa e torturada em 1970, faz uma revisão de seu próprio posicionamento político e demonstra em seu livro uma desilusão com o marxismo- leninismo, sem deixar de apontar uma série de críticas ao que considera como autoritarismo nas organizações de esquerda.

Em 2005, é publicado Estilhaços: em tempos de luta contra a ditadura, escrito pela militante da AP e do PCdoB Loreta Valadares.229 Esse livro é uma publicação póstuma: a autora havia terminado de escrevê-lo menos de um mês antes de realizar um transplante cardíaco, falecendo no pós-operatório, como explica seu companheiro Carlos Valadares em uma das muitas homenagens que fazem parte do livro.230

Em sua narrativa, Loreta retoma desde as primeiras influências, passando pela militância, clandestinidade, prisão, tortura e exílio. Feminista, dividiu os capítulos de seu livro de modo a incluir, em cada um deles, subcapítulos sempre intitulados “olhar de gênero,” nos quais apresenta uma perspectiva da experiência feminina nos momentos relatados. Em determinado trecho, explica que “durante toda a minha experiência de militância, prisão e exílio, fui aos poucos adquirindo uma consciência de gênero a princípio difusa e inconsistente. Foi no exílio que me tornei feminista, alcançando arguta consciência da opressão de gênero.”231 Sobre o período de militância, seu olhar de gênero reconstrói da seguinte maneira um episódio:232

227 Ibidem, p. 84.

228 SALLES, Iza. Um cadáver ao sol: a história do operário brasileiro que desafiou Moscou e o PCB. Rio de

Janeiro: Ediouro, 2005.

229 VALADARES, Loreta. Estilhaços: em tempos de luta contra a ditadura. Salvador: Secretaria da Cultura e

Turismo, 2005.

230 VALADARES, Carlos. Pronunciamento de Carlos Valadares. In: VALADARES, Loreta. Estilhaços... op. cit., pp. 278-285.

231 VALADARES, Loreta. Estilhaços... op. cit., p. 215.

232 Para uma análise dos escritos sobre a militância no livro de Loreta Valadares, ver: SANTOS, Heloísia

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Ele anda à frente, carrega uma espécie de canga nos ombros de onde pendem dois sacos de aniagem com os poucos pertences que levamos. Eu carrego um terceiro saco, menos pesado. Visto roupas largas e um tanto compridas, um lenço amarrado nos cabelos, um outro cobre os ombros para proteger-me do sol. Venho matutando: ‘será que não é o caso de romper com o costume de a mulher, nesta região, andar atrás do marido?’. Afinal, na história que montamos para a nossa integração, para não chamar a atenção por eventuais deslizes cometidos quanto a costumes, vínhamos da cidade tentar uma posse para sobrevivência. Carlos pequeno comerciante, eu professora primária, enfrentávamos uma situação financeira difícil. A história é a de uma pessoa mais esclarecida, não há porque sujeitar-me a esta forma explícita de submissão da mulher. Isto vai-me dando um mal-estar, resolvo caminhar ao lado de Carlos. Ora, se vamos fazer um trabalho de mobilização para a luta, será tanto entre os camponeses como entre as camponesas.233

Sua experiência já havia sido abordada em As moças de minas, de Luiz Manfredini,234 obra que Loreta cita logo no início de seu livro. E explica que “apesar de instada por tantas pessoas amigas, ao longo dos anos, a escrever sobre o tempo vivido na clandestinidade, na prisão e no exílio, hesitei muito.”235 Também a importância da transmissão e do acolhimento das palavras de quem passou por experiências traumáticas são ressaltadas em seu texto, no qual destaca como “a solidariedade das companheiras e dos companheiros, de todos a quem relatei as torturas” foi decisiva para “forjar o espírito e fortalecer a alma. (...) Saí da prisão querendo contar para todo mundo os acontecimentos da prisão, as torturas infligidas, os métodos da repressão.” E acrescenta que “queria tirar ensinamentos, transmitir aos companheiros e companheiras a experiência da prisão.”236

No livro de 2007 Mergulho no passado: a ditadura que vivi,237 Yara Falcon procura, numa linguagem simples e direta, contar histórias de sua militância, prisão e outras formas de luta após desligar-se dos partidos. Logo no primeiro parágrafo, expõe os motivos que a levaram a escrever:

na Ação Popular- AP. In: XV Encontro Estadual de História “1964-2014: Memórias, Testemunhos e