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Carne: vida e nascimento

No documento ronaldochicrearaujo (páginas 104-107)

3 FENOMENOLOGIA DA CARNE

3.3 CARNE

3.3.1 Carne: vida e nascimento

A fenomenologia da carne põe em evidência duas correlações essenciais: a da carne e da vida, e a da carne e do nascimento. A vida não é mais o que aparece, mas o próprio aparecer. Por um lado tem-se a concepção grega do corpo, e por outro lado a concepção cristã da carne: a afirmação da vinda de Deus na condição humana, sua encarnação. Contra a heresia, os Padres defendem que a carne de Cristo é parecida com a dos homens. Trata-se para eles de explicar a intuição judeu-cristã da carne à luz da concepção grega do corpo. O que é próprio do homem, e do Cristo que toma a condição humana, é apreendido de modo hebraico e não mais grego, a saber, como uma carne.

Tertuliano, em De carne Christi, afirma que “Não há nascimento sem carne nem carne sem nascimento”. Para Henry, do ponto de vista filosófico, essa correlação permanece indeterminada enquanto não se sabe o que é carne e o que é nascimento. Henry reconhece que Tertuliano o sabe bem. Tertuliano reprova a heresia, Valentino e seus seguidores, pelo fato de reconhecerem a carne e o nascimento dando-lhes um outro sentido. Segundo Henry, a questão central é saber a partir de qual pressuposto fenomenológico e ontológico, Tertuliano compreende o nascimento e a carne, e sua correlação.

No horizonte histórico no qual se dá a problemática dos Padres da Igreja, a correlação carne e nascimento têm uma significação filosófica incontestável. Nascimento e morte estão ligados. Se Cristo nasceu, sua missão era morrer para salvar o mundo. Sua carne tinha então que ser mortal, como a do homem. O que está em questão para Tertuliano e os Padres é a realidade da encarnação de Cristo, e consequentemente de sua carne. Se a origem e a natureza da carne de Cristo não são idênticas à do homem, se encarnando, ele não tomou a condição humana, não morreu e não ressuscitou. “É todo o processo cristão da identificação real do verbo ao homem como condição da identificação real do homem a Deus que se encontra reduzido a uma série de aparências e, por isso mesmo, a um tipo de mistificação.” (HENRY, 2000, p. 183). Mistificação de Cristo e de seu ensinamento.

Se a carne de Cristo não é real, também não o é seu sofrimento. Tudo o que ele sentiu é uma aparência. Portanto, ele é um impostor. Ele enganou seus contemporâneos e todos aqueles que deviam acreditar nele através dos séculos. A questão para Henry é saber no que consiste a realidade da carne. Tertuliano analisa a realidade da carne interpretando-a a partir do nascimento. “Ele lhe dá como origem a argila do solo, o horizonte fenomenológico e

ontológico que preside a essa concepção da carne, de seu nascimento, de sua realidade, é o aparecer do mundo.” (HENRY, 2000, p. 184).

Isso se dá em um duplo sentido: a carne é apreendida como conteúdo do mundo e é no fora do mundo que tal conteúdo se mostra, como um corpo exterior. Henry observa que as metáforas empreendidas por Tertuliano para estabelecer a realidade da carne contra a heresia são de origem hebraica, remetendo ao texto do Gênesis e não a um tratado grego.

Na problemática dos Padres opera uma virada na qual as determinações objetivas do corpo material que se mostram no mundo dão lugar às determinações impressionais e afetivas que se revelam no pathos da vida. Essas determinações impressionais e afetivas constituem a matéria fenomenológica da qual a carne é feita. A natureza da carne depende de seu nascimento que quer dizer vir a aparecer. Vir no aparecer se dá tanto no fora de si do mundo como no pathos da vida. Vir no mundo é se mostrar à maneira de um corpo exterior insensível. No mundo, não há carne, nem nascimento, considerando-se que nascer é vir em uma carne. A carne só é possível na vida, uma carne cuja materialidade fenomenológica impressional é marcada por um pathos da vida. Essa substituição das determinações objetivas pelas impressionais possibilita a dissociação do corpo e da carne na problemática cristã. O corpo concerne ao mundo e a carne concerne à vida.

Em Tertuliano, essa dissociação é feita de maneira que na enumeração das propriedades da carne, há a passagem das determinações objetivas do corpo material às determinações subjetivas da carne e ao sofrimento. Segundo Henry, o sofrimento não é um dado que dever-se-ia se limitar a constatar sem compreendê-lo, um conteúdo contingente, empírico da filosofia clássica. Na afirmação da realidade da carne, seu sofrimento é colocado em primeiro plano. Em seu sofrimento, a carne não exprime uma modalidade afetiva qualquer de nossa vida, o sofrimento é uma cogitatio. “Ele (sofrimento) remete à verdade absoluta, ao processo escondido no qual a vida advém originariamente em si no seu sofrer primitivo, na Arqui-Carne e Arqui-Pathos de sua Arquirrevelação.” (HENRY, 2000, p. 187).

Henry considera que não é por acaso que a realidade da carne é estabelecida a partir da realidade do sofrimento. O sofrimento pertence à edificação interior de toda realidade, à realidade absoluta da qual ele procede. A conexão entre realidade, carne e sofrimento, remete Tertuliano e os outros Padres à Paixão de Cristo. Os que esperam a salvação são levados pelo evento da Paixão a uma reflexão paradoxal concernente a Deus, quer dizer, se um Deus impassível pode sofrer, se um Deus inteligível pode ter uma carne sensível como a do homem, se um Deus eterno pode morrer. Essas interrogações são ininteligíveis em um horizonte grego. Torna-se necessário demonstrar a realidade da carne,

visto que a encarnação e a paixão de Cristo não têm sentido sem essa realidade. Tertuliano, ao demonstrar a realidade da carne, precisa dispor de uma carne cuja realidade é evidente. Ele deve dispor também de um corpo do qual ele utiliza o conceito da experiência ordinária, que pode o pensamento grego suportar.

Também a carne é assimilada ao corpo material se mostrando no mundo, cujas propriedades e as estruturas objetivas oferecidas à evidência são indubitáveis – “Uma carne como a nossa, irrigada pelo sangue, sustentada pelos ossos, atravessada pelas veias” (op. Cit., 229).É sem transição filosófica, sem nenhuma justificação conceitual, que a essa concepção do corpo objetivo cuja realidade é a matéria do mundo se justapõe a pressuposição de uma carne radicalmente diferente, de uma outra ordem – uma carne sofredora tendo a realidade de seu sofrimento de sua fenomenalização patética (pathétique) na vida. É da realidade de uma carne definida por seu sofrimento que a Encarnação do Cristo e, de modo exemplar, sua paixão recebem agora sua realidade e sua verdade. (HENRY, 2000, p. 188).

Essa modificação da concepção do corpo objetivo material tornado uma carne que sofre surge na polêmica contra Marcião. A realidade do sofrimento, da paixão de Cristo, Marcião considera uma aparência, atacando a carne de Cristo e negando a realidade verdadeira de seu corpo.

A realidade da carne definida pelo sofrimento, pela matéria fenomenológica da vida, e não pela matéria do mundo, é o tema de Irineu. A carne é compreendida como revelação da vida. A vida não é mais a que conhecem os gregos – o bios de sua biologia. Trata-se da vida fenomenológica transcendental. O pensamento de Irineu como de outros Padres remete à Encarnação do verbo na formulação de João. Há uma correlação entre carne, a vinda na carne e a autorrevelação da vida absoluta em seu verbo. Essa carne vem no pathos da vida, portanto não é a carne da heresia. A gnose não queria para Cristo uma carne real como a do homem. Mas, para Henry, é no mundo que toda carne é uma irrealidade, uma aparência. A carne é desprovida de sua realidade no aparecer do mundo. A atribuição da carne à vida encontra em Irineu um aprofundamento extraordinário. A vida é a vida fenomenológica absoluta, a vida de Deus autorrevelada em seu verbo, que se faz carne. A questão dos gnósticos de onde provém a carne de Cristo encontra em Irineu a resposta inscrita na Palavra. A carne na qual vem o verbo vem do verbo, da vida. Trata-se de compreender como se dá essa vinda. Conforme Henry, a vida vem em uma carne vindo em si.

Irineu toma a questão diferentemente, ao perguntar se a carne é capaz de receber a vida. A questão da possibilidade da carne receber a vida de preferência que a da vida se fazer

carne, Henry considera que o pensamento de Irineu permanece parcialmente tributário da Grécia.

“Nós somos um corpo tirado da terra.” Cristo tinha então um corpo desse tipo “senão ele não teria tomado os alimentos tirados da terra pelos quais se alimenta o corpo tirado da terra”. [...] O corpo material e mundano dos gregos é parecido com esse pedaço de terra que se torna carne sob o sopro divino – que é o sopro da Vida. Entretanto, quando o corpo é transformado em carne pela operação da Vida, ele tem sua condição de carne apenas da Vida que lhe dá a experienciar a si mesmo nela e a tornar-se carne desse modo. (HENRY, 2000, p. 191).

No documento ronaldochicrearaujo (páginas 104-107)