• Nenhum resultado encontrado

4. BASE NORMATIVA E ESTRUTURAL DOS DIREITOS HUMANOS

4.2. A Carta da ONU

A Carta das Nações Unidas foi assinada em São Francisco, a 26 de junho de 1945, após o encerramento da Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional, entrando em vigor a 24 de outubro daquele mesmo ano.164

Os princípios elencados na Carta das Nações Unidas além de nortearem a interpretação desta, são lembrados, considerados e reafirmados em outros acordos posteriores à referida Carta, nos seus artigos e preâmbulos.

É baseado no intuito de manter a paz e a segurança, de desenvolver relações de amizade entre as nações respeitando o princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos, de abster-se de intervir em assuntos que dependam essencialmente da jurisdição interna de qualquer Estado que vários acordos posteriores à Carta das Nações Unidas apresentam dispositivos destinados à preservação da identidade cultural local. A título exemplificativo:

“Os Estados Partes no presente Pacto:

Considerando que, em conformidade com os princípios enunciados na Carta das Nações Unidas, o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no Mundo”.165

Os Objetivos e Princípios da Carta da ONU, que serão apresentados abaixo, inspiram acordos que tratam de proteger a identidade cultural, como mais tarde serão detalhados. Dada a antiguidade da Carta das Nações Unidas, a sua importância para a Comunidade Internacional e o momento histórico da sua aparição – a saída da Humanidade do mais grave conflito da sua história, os seus princípios servem como vértices norteadores para a criação de novas leis internacionais, novas constituições de Estados e, consequentemente, suas leis internas infraconstitucionais.

Já no artigo primeiro do primeiro capítulo A Carta demonstra claramente a ênfase na manutenção da paz, característica da época da sua aparição. É dentro dessa perspetiva de manutenção da paz que a Carta, aqui no inciso 3º fala em cooperação para a resolução que problemas internacionais de caráter cultural. É erro grave imaginar que a proteção à identidade cultural seria uma forma de salientar-se-ia traços culturais próprios locais. A mesma Carta da ONU estabelece objetivos de resolução de problemas 164 Cf. Disponível em: https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2017/11/A-Carta-das-Na %C3%A7%C3%B5es-Unidas.pdf. Acesso a 30.05.2019.

165 Cf. primeiro parágrafo do preâmbulo do Pacto Internacional Sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

internacionais de caráter cultural, por meio de cooperação, tudo dentro de um objetivo maior da manutenção da paz. Dito isso não há que se dizer que a proteção à identidade cultural seria uma manifestação de distanciamento entre os povos ou fomento de discórdias. O artigo 1º fala de desenvolvimento de relações de amizade e de combate às várias formas de discriminação.

Sucintamente, os seus objetivos passam por: 1. Manter a paz e a segurança internacionais; 2. Desenvolver relações de amizade entre as nações baseadas no respeito do princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos; 3. Realizar a cooperação internacional, resolvendo diferentes problemas internacionais; 4. Ser um centro destinado a harmonizar a acção das nações para a consecução desses objectivos comuns166.

A Carta da ONU é um acordo que deu origem à ONU. A sua própria existência é oriunda do somatório de vontades soberanas e o próprio documento, nele próprio, prevê que a paz, a estabilidade, assim como os objetivos nela elencados, só podem ser concretizados quando a autonomia e autodeterminação dos Estados são respeitadas. Os artigos 11º e 55º que se seguem falam da cooperação. A cooperação é um dos instrumentos mais importantes para a consecução dos objetivos elencados tanto na Carta da ONU quanto na Declaração Universal dos Direitos do Homem. A cooperação portanto remanesce figurando-se como uma ferramenta essencial para a proteção da identidade cultural local. Existem países com aspetos, traços culturais muito parecidos, comuns nas suas regiões fronteiriças. Os países escandinavos mais a Rússia, somente a título exemplificativo, somam esforços regionais para a promoção e preservação da língua sámi, conhecida também como lapão. É, como é óbvio, interesse comum desses Estados a preservação desse traço comum.

Existe, para além dos governos centrais dos Estados, a cooperação subnacional, ou seja, a cooperação exercida por divisões administrativas abaixo do governo centrais dos respetivos Estado. Essa prática, cada vez mais utilizada, chama-se paradiplomacia. É nesse sentido que explica Gomes FILHO167:

“(...) as unidades subnacionais passaram a ter interesses em estabelecer participações no plano internacional pelo fato de serem também responsáveis pelos assuntos econômicos, 166 Art. 1.º da Carta da ONU.

167 GOMES FILHO, Francisco. (2011). A paradiplomacia subnacional no Brasil: uma análise da política de atuação internacional dos governos estaduais fronteiriços da Amazônia. Tese de Doutorado em Relações Internacionais e Desenvolvimento Regional. Brasilia: Universidade de Brasília, p.8.

sociais, culturais e ambientais de suas áreas de jurisdição, visto que cada vez mais sofrem influências do meio internacional. Pois os governos subnacionais, ao colocar em prática suas atividades trans-soberanas de governos não centrais, consideram possuir autonomia suficiente para lidar com assuntos importantes de sua jurisdição, mesmo que para isso devam fazer interface com atores externos.”

Nem sempre o governo central de um país consegue cumprir, em proveito maior das suas regiões específicas internas, metas de proteção às identidades culturais locais regionais. Essa tarefa seria cumprida de forma muito mais eficaz diretamente pelas regiões interessadas. Os Estados pate na Carta das Nações Unidas comprometeram-se a velar pela proteção à cultura e para isso, entre outras providências, a prática da cooperação.

Por fim, as chamadas Agências Especializadas da ONU são organizações que cooperam de forma autónoma por intermédio do seu Conselho Económico e Social. Elas atuam na economia, na segurança, na energia e também na cultura. São exemplos de organizações espacializadas a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Organização Mundial do Turismo (OMT), o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial de Saúde (OMS) e finalmente, aquela que mais interessa a esta pesquisa científica, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). A ONU atua com acordos para que essas organizações, incluindo novas outras que possam surgir, vinculem-se a ela. A ONU coordenará as atividades dessas agências que com ela tenham-se vinculado para a consecução dos seus objetivos.

Como já mencionado, a UNESCO, que cuida da proteção à cultura, à identidade cultural e ao património será agora objeto de análise.

4.3. Constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e