Nos filhos mais jovens, era visível a expressão e o sentimento de vergonha quando a casa não tinha uma aparência bonita, paredes limpas, nem uma mobília luxuosa para mostrar. Muitos jovens se preocuparam em explicar o problema, argumentando que a família não vivia bem, porque o pai havia se desviado das atividades, abandonado o lote por causa da bebida. Na opinião desses filhos, aspectos como o alcoolismo, explicam porque o grupo não conseguiu se sobressair e melhorar as condições de vida. Observamos que algumas vezes essas explicações, expressavam certo tom de revolta, como ilustra a narrativa abaixo:
Eu acho que meu marido é alcoólatra, ele não se controla é
muito ignorante se você visse antes, quando a gente chegou
aqui eu passei uma temporada bem, bem mesmo. Logo quando
nós cheguemos, nós se aperriemos, sem nada, minha roupa era
um vestido de saco, mas, eu era feliz porque eu tinha paz na
minha vida. Nós ia pro lote, trabalhava, os meninos, eu
deixava com Lucelita a mais velha, ela já era maiorzinha aí
nós ia de carroça que nem eu te falei com o bucho pela boca.
Aí, montava na carroça e desabava pra o lote. Quando
chegava lá ficava em cima dessa carroça, tangendo os
jumentos e ele quebrando o milho, aí quando ele recebeu umas
mangueiras de uns doutor que foram dando a mão, aí aja
amigo, aja amigo, chamando ele, que era um frete, sei que
nessas viajinha nesses fretes ai, quando deu fé ele danou-se a
chegar bebo, aí tu sabe bebo como é né?, aí começou o
desmantelo, começou o destruimento. Olhe eu já tive vida boa,
mas também, já teve dia que eu desejava me matar, tirar
minha vida de tanto fragelo, de tanto apêrreio.
(Dona M. D., 55 anos – esposa de colono).A narrativa revela problemas de natureza subjetiva, relacionados aos vícios e que desencadeiam conflitos que afetam determinadas famílias. Os vícios, principalmente, o alcoolismo, de certo modo, segundo os informantes explicam o insucesso de algumas família s, porque impediu que estas fizessem melhor uso da oportunidade que se lhes apresentou com a conquista do lote. Analisando as oportunidades oferecidas às famílias que ingressaram no PISG e a teoria da capacidade e dos funcionamentos de Amartya Sen (1996: 32), concluímos que a entrada num Projeto de Irrigação foi a base, a partir da qual as famílias poderiam alcançar a qualidade de vida e o bem-estar.
Contrariamente, as famílias tidas como “bem-sucedidas”, depois de anos trabalhando, conseguiram acumular recursos e fazer outros investimentos, como por exemplo, comprar imóveis de aluguel e estabelecimentos comerciais (padaria, farmácia e mercadinhos) dentro e fora dos núcleos. O resultado desses investimentos é, de certo modo, uma minimização das atividades agrícolas e, conseqüentemente, mais economia de mão-de-obra e trabalho.
Uma característica dos colonos “bem-sucedidos” é que estes, por disporem de mais recursos, estão sempre dispostos a comprar terra, valendo-se do argumento de que os lotes adquiridos representam a segurança dos filhos e genros. Assim, quando alguma família anuncia que deixará o Perímetro, esses colonos imediatamente estabelecem um preço para as “benfeitorias” que, na prática, é o próprio lote. Assim, curiosamente, encontramos colonos que possuem três, cinco e até dez lotes.
Para os colonos que “não prosperaram”, o lote é a alternativa concreta para garantir o futuro dos filhos, embora, na maioria dessas famílias os filhos insistam na migração como solução para resolver o problema da falta de terra e de trabalho. É evidente que muitos filhos
de colono justificam a opção de migrar, por livre e espontânea vontade. Outros, porém, migram porque não têm como permanecer no Perímetro. O resultado dessa migração involuntária, é que as pessoas não se adaptam ou não conseguem arranjar emprego na cidade e aí retornam, passando a fazer uma espécie de migração sazonal, isto é, migram apenas em épocas determinadas para trabalhar e conseguir algum dinheiro, depois retornam ao Perímetro e voltam a migrar quando o dinheiro acaba.
Morando tão próximas, as famílias que antes eram constituídas pelo pai, mãe e os filhos solteiros, tiveram que acomodar outros membros dentro do mesmo lote habitacional transformando-se numa família extensa, como revela a narrativa que segue:
Olhe, aqui é sempre que nem eu aqui. Olhe, a casa de meu
sogro é aqui pegada a minha. Sempre mora assim, um mora
dum lado, tem casa de colono que têm três filhos morando
pegado, um morando dum lado e outro morando do outro,
outro mora dentro do muro; é tudo perto, porque nem tem lote
mais pra fazer casa e já aproveita o espaço, né?, A parede de
um já diminui aqueles tijolos pra fazer, já faz pegado pra
diminuir a despesa, sempre é assim e um já fica com o filho do
outro, minha sogra mesmo fica com o meu, isso já é uma forma
de ajuda
(L.G., 28 anos – filha de colono).Além da falta de terra, o acesso aos recursos naturais, como a água é outro aspecto que cria diferenças entre as famílias. A escassez de água não afeta todos os irrigantes na mesma proporção. A localização do lote, mais ou menos próximo ao açude é um fator que influencia na capacidade das famílias de se beneficiar desse recurso. A diferença entre as famílias e entre os núcleos, tendo como causa a água, ocorre pelo fato de que a proximidade do reservatório, o Açude de São Gonçalo, acaba favorecendo as atividades em determinado setores, como é o caso dos setores que ficam nos núcleos I e II, que asseguram, por um período mais longo, a umidade dos solos, um volume maior de água nos canais e drenos e, ainda, o favorecimento do próprio lençol freático. Por essa razão, a alternativa de perfurar poços artesianos e amazonas, na maioria dos lotes que ficam nesses núcleos, tem surtido efeito satisfatório embora, evidentemente, outros problemas tenham surgido em decorrência dessas perfurações, entre estes a erosão (Foto 13 e 14).
Já as famílias que residem no núcleo III, são bastante afetadas com o problema da escassez de água. Na maioria dos lotes deste núcleo, por razões já citadas, a irrigação
praticamente não acontece. Além disso, os poços e cacimbões dos setores que ficam nesta área não têm uma vazão d’água boa. E ainda, os lotes deste núcleo foram os últimos a serem entregues, portanto, não restava mais nenhuma opção de troca de lote para as famílias.
Atualmente, salta aos olhos, por exemplo, a diferença quanto ao padrão de vida, entre as famílias do núcleo III e as famílias dos dois outros núcleos. É no núcleo III onde se constata a ocorrência do maior número de migrações e também de venda de lotes. Nesse núcleo, há poucos estabelecimentos comerciais e também não houve dinamismo nas atividades ligadas à agropecuária. Os recursos que circulam provêm de remessas de dinheiro, enviadas pelos filhos que migraram, assim como, das aposentadorias, pensões e dos empregos públicos no Estado ou no Município. Vejamos a narrativa que segue: