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Casa do Estudante do Rio Grande do Norte (CERN)

2. VIDA ESTUDANTIL EM NATAL/RN

2.1. Casa do Estudante do Rio Grande do Norte (CERN)

Não há transição que não implique um ponto de partida, um processo e um ponto de chegada. Todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje. De modo que o nosso futuro baseia-se no passado e se corporifica no presente. Temos de saber o que fomos e o que somos, para saber o que seremos. (FREIRE, 1983, p. 17)

O edifício da Casa do Estudante do Rio Grande do Norte – CERN68 (imagem 5), localizado na cidade de Natal69, capital do estado do Rio Grande do Norte (RN), é representante importante da história local. No passado foi moradia e abrigo de outros grupos, não apenas de estudantes, tendo sido utilizado como “hospital, escola e quartel militar e, no que diz respeito ao seu estado de preservação, ela ainda mantém algumas características estético-arquitetônicas desses usos anteriores. Já em relação à conservação de sua estrutura física, encontra-se deteriorada”. (ALVES, 2018, p. 20). A CERN foi fundada em dois de junho de mil novecentos e quarenta e seis.70

Figura 5: Edifício da Casa do Estudante do Rio Grande do Norte (CERN).

Fonte: Google Imagens (2019).

68 Situada à Rua Coronel Lins Caldas, 678, bairro Cidade Alta (ALVES, 2018, p. 22).

69 Natal/RN possui uma área territorial de 167,401 km² e uma população estimada para 2019 de 884.122 habitantes. (IBGE. Censo Demográfico 2010).

70 SEM verbas nem alimentos a Casa do Estudante vai fechar amanhã. Diário de Natal, Natal/RN, ano XXVII, n.

8125, 4 out. 1967, p. 3. Disponível em:

<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_01&pasta=ano%20196&pesq=%22sem%20ver ba%20nem%20alimentos%22> Acesso em: 19 nov. 2019.

Sua fundação teve como objetivo primário “atender estudantes secundaristas vindos do interior do estado” (SILVA, 1989, p. 124), oferecendo “ao estudante potiguar, ao estudante do interior norte-rio-grandense, essa possibilidade de concretizar seus sonhos”.71

Até 2018, a Casa abrigava “estudantes do gênero masculino, em diversos níveis de escolaridade (de secundaristas até pós graduandos), embora sua proposta inicial fosse acolher apenas estudantes secundaristas.” (ALVES, 2018, p. 20). Não é possível afirmar o ano em que a CERN passou a acolher outros estudantes, além dos secundaristas. Contudo, ao final da década de 1960, seu presidente era estudante da Faculdade de Sociologia e Política da Fundação José Augusto. (UFRN/CV, 2015, p. 242).

Devido às dificuldades financeiras enfrentadas, a CERN realizava, até o ano de 2018, convênio com o governo estadual para a subsistência de seus moradores. (ALVES, 2018, p. 75). Em 1961, a Casa feminina72 também enfrentava dificuldades financeiras. De acordo com o jornal Diário de Natal, a ajuda para a Casa feminina constava no orçamento da União, do estado e do município, não tendo chegado nenhuma quantia à instituição.73 O drama vivenciado

pelos estudantes do interior na capital não se restringia, portanto, à Casa masculina.

Em junho do mesmo ano, o jornal O Poti noticia o repasse de verbas para a CERN. De acordo com a notícia, a quantia destinada pelo Governo Federal à Casa foi de cinco milhões de cruzeiros.74

Considerando ainda o que nos dizem os jornais, o Correio Brasiliense – DF, em espaço reservado a notícias de outros estados, em dezembro de 1961, destaca em relação ao RN, a abertura de crédito especial, sancionada pelo então governador Aluísio Alves, para ajudar as “Casas do Estudante e da Estudante do Rio Grande do Norte”.75

71 OLIVEIRA, José Lins de. 6º aniversário da Casa do Estudante. Diário de Natal, Natal/RN, ano XII, n. 2909,

03 jun. 1952, p. 2 Disponível em:

<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_01&pasta=ano%20195&pesq=%22seis%20an os%20de%20lutas%20intermin%C3%A1veis%22> Acesso em: 19 nov. 2019.

72 A parte do presente trabalho que trata da Casa do Estudante do Rio Grande do Norte não tem como objetivo englobar a Casa da Estudante presente naquela cidade. Sua citação ocorre como forma de destacar a desatenção/descuido por parte do poder público com os estudantes presentes nas citadas instituições, não se restringindo esse descuido à Casa masculina.

73 CASA da Estudante recebeu a solidariedade de particulares. Diário de Natal, Natal/RN, ano XXI, n. 6326, 18

maio 1961, p. 8. Disponível em:

<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_01&pasta=ano%20196&pesq=%22solucionar %20a%20angustiante%20situa%C3%A7%C3%A3o%22> Acesso em: 19 nov. 2019.

74 COMO estão distribuídas as dotações destinadas pelo Governo Federal ao nosso Estado – 120 milhões para o problema da água – problemas que serão equacionados: cinco milhões para a casa do estudante. O Poti, Natal/RN, ano VII, n. 1329, 4 jun. 1961, p. 8. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=031151_02&pasta=ano%20196&pesq=%22cinco%20 milh%C3%B5es%20para%20a%20casa%20do%20estudante%22> Acesso em: 19 nov. 2019.

75 NOTICIÁRIO dos estados: Rio G. do Norte. Correio Braziliense, Brasília/DF, ano CLIII, n. 497, 13 dez. 1961,

A sequência de notícias mostra que a ajuda oferecida pelo estado às Casas do Estudante e da Estudante não acontecia regularmente, precisando os estudantes ficarem quase sem alimentação para que a ajuda chegasse ou, pelo menos, fosse prometida.

Apesar das muitas dificuldades enfrentadas pelos secundaristas residentes na CERN, estes não deixavam de ajudar outros estudantes necessitados. De acordo com Silva (1989, p. 124), os universitários realizaram as refeições na Casa do Estudante até 1963, quando teve início a luta dos acadêmicos por um restaurante universitário (RU), que fosse custeado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

No decorrer dos anos de ditadura, as dificuldades financeiras da CERN aumentaram. Em momentos de crise mais severa, a dinamicidade do presidente Emmanuel Bezerra dos Santos ajudou a contornar as privações: “Emmanuel Bezerra teve uma administração excelente, passando por cima das dificuldades, reduzindo despesas e apelando por ajuda ao governo do estado, à prefeitura de Natal, à SUDENE e prefeituras do interior” (FERNANDES, s/d, p. 7).

Emmanuel Bezerra dos Santos é uma das mais importantes lideranças estudantis do Rio Grande do Norte nos anos 60 e foi assassinado pela ditadura. “Natural de Caiçara, São Bento do Norte, Rio Grande do Norte, iniciou seus estudos na Escola Isolada de São Bento do Norte, onde terminou seu curso primário. Em 1961, vem a Natal estudar no Atheneu Norte-rio- grandense, residindo também na Casa do Estudante.” (UFRN/CV, 2015, p. 241).

Aluísio Azevedo (1982 apud FERNANDES, s/d, p. 7), afirma que em 1967 os débitos da Casa foram muito agravados devido ao corte do auxílio financeiro procedente do Governo Federal. Esse fato deixa clara mais uma vez a pressão exercida pelo governo sobre os estudantes.

Como a Casa do Estudante de Caicó, a CERN tornou-se um dos centros de resistência à ditadura. Seus moradores estavam envolvidos não apenas nos movimentos estudantis/escolares. O engajamento social se dava também por meio de ações políticas, como reivindicações, denúncias e resistência contra as imposições do regime. A vida estudantil passa a ser não mais apenas uma dimensão privada no cotidiano dos indivíduos, ao contrário, reveste- se de um caráter coletivo, onde suas lutas individuais se confundem com as lutas da sociedade. Isso porque

Embora o autoritarismo procure restringir a participação política autônoma e promova a desmobilização, a resistência ao regime inevitavelmente arrasta a política para dentro da órbita privada. Primeiro, porque parte ponderável da atividade política é

<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028274_01&pasta=ano%20196&pesq=%22grave%20d ona%20maria%20c%C3%A2ndida%20mariz%22> Acesso em: 19 nov. 2019.

trama clandestina que deve ser ocultada dos órgãos repressivos. Segundo, porque, reprimida, a atividade política produz consequências diretas sobre o dia-a-dia. (NOVAIS, 1998, p. 327).

Assim, sendo um local de organização estudantil, após a tomada do poder pelos militares, a CERN tornou-se um espaço de concentração e ebulição de ideias na defesa das liberdades individuais e da democracia para o país.

Em Natal, diferentemente de Caicó, o movimento estudantil no período ditatorial se destacou pela liderança política dos universitários, não deixando, contudo, de perceber junto a eles a participação dos secundaristas.

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