2. VIDA ESTUDANTIL EM NATAL/RN
2.2. Movimento Estudantil Natalense
O movimento estudantil em Natal surge com os secundaristas do colégio Atheneu. Em 1935 fundam o Centro Estudantil Potiguar (CEP), tornando-se a partir de então órgão representativo dos estudantes secundaristas do Rio Grande do Norte. (SILVA, 1989, p. 21).
Quanto ao movimento dos universitários, este teve início durante a década de 1950, especialmente após a chegada dos cursos de direito e medicina. Apesar de seu surgimento estar situado na década de 1950, esse movimento teve sua consolidação apenas na década seguinte, a partir de 1960. (SILVA, 1989, p. 39-52).
Até esse período compreende-se que os integrantes do movimento estudantil natalense pertenciam a dois grupos: secundaristas e universitários, com predomínio político dos universitários. Ambos não estiveram sempre juntos, compartilhando as mesmas ideias ou defendendo os seus direitos mutuamente.
Os secundaristas, em momento anterior à ditadura civil-militar brasileira, estavam envolvidos com atividades políticas de caráter cultural e estudantil, não atentando-se aos assuntos/problemas sociais externos à vida estudantil, de modo que se dedicavam à realização de “atividades culturais e recreativas – conferências, teatro, cinema etc.” (SILVA, 1989, p. 185). E mesmo no que se refere à luta estudantil, até a década de 1950 o movimento dos secundaristas “esteve fechado em si mesmo, desarticulado a nível nacional”. (SILVA, 1989, p. 39).
Os universitários, por sua vez, já se reconheciam como parte de um todo. Ou seja, se vinculavam com as lutas para além das causas estudantis. A União Estadual dos Estudantes (UEE) é influenciada pelo movimento estudantil nacional, liderado pela União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1957, ao participarem do congresso da UNE, alguns representantes
locais retornam com uma visão de cooperação estudantil com os problemas que afetavam o povo em geral e não apenas os estudantes. Nesse período,
A UNE preocupou-se muito mais em apoiar os movimentos populares do que com questões restritas à sua categoria (...) Portanto, a diretriz política traçada pela UNE, de apoio às lutas e interesses populares, influenciou, nesse momento, o encaminhamento dado pela UEE às lutas dos estudantes universitários norte-rio- grandenses. (SILVA, 1989, p. 47).
Somente após o golpe militar, mais precisamente após 1967, é que universitários e secundaristas norte-rio-grandenses se reconheceram como partícipes de um mesmo movimento e lutando igualmente por ideais estudantis e sociais. Durante esse período estiveram unidos. De acordo com Silva, “quando se tratava de temas pertinentes a um ou outro movimento e trabalhando conjuntamente quando enfrentavam questões comuns, a exemplo da luta pelo direito de emissão das identidades estudantis e contra atos de repressão política a estudantes”. (1989, p. 183).
Um dos momentos de maior visibilidade dessa união ocorreu
Em agosto de 1968, quando os alunos do Atheneu decretaram greve em repúdio a atos de transferência impostos pelo professor João Agripino, diretor do colégio, os estudantes universitários da maioria das unidades de ensino superior da UFRN decretaram greve em solidariedade, o que contribuiu para que a luta estudantil fosse vitoriosa, quando o secretário de educação substituiu o então diretor daquele colégio. (SILVA, 1989, p. 170).
Nacionalmente, o movimento estudantil teve sua visibilidade durante o período de ditadura militar através da realização de passeatas, reuniões, concentração e mobilização em espaços públicos. Durante esses movimentos de protesto contra as imposições do regime, os estudantes conseguiram o apoio da população. (SILVA, 1989, p. 183).
Segundo José Willington Germano, a luta estudantil contra as políticas aplicadas pelo governo militar, tiveram início já em 1966, alcançando o seu ponto alto em 1968:
Os estudantes reagem, sobretudo a partir de 1966, contra o autoritarismo e a política educacional dos militares. (...) Em 1967, começam as mobilizações contra os acordos MEC-Usaid e outros aspectos da política educacional, como a privatização do ensino, com os estudantes exigindo mais vagas e mais verbas para a educação. Finalmente, em 1968, são realizadas grandes mobilizações nas principais cidades do país, com destaque para a passeata dos 100 mil em junho de 1968 no Rio de Janeiro, contra o Regime Militar. Os estudantes, em geral, protestavam contra a ditadura e contra o imperialismo norte-americano. (2005, p. 114).
Dentre os esforços contra a política educacional do regime, destaca-se a luta estudantil em defesa dos excedentes, que “eram os candidatos que obtinham a média nos vestibulares, mas não conseguiam se matricular nas escolas de nível superior, pois o número de aprovados extrapolava ao número de vagas disponíveis” (BRAGHINI, 2014, p. 125).
Emmanuel Bezerra dos Santos, que foi presidente da CERN, agiu ativamente como líder estudantil. Esteve à frente da luta em defesa dos direitos dos excedentes do vestibular de 1968. Silva afirma que
Uma outra medida tomada pelo DCE e pelos excedentes foi a volta à capital do país de um representante estudantil, para travar uma luta diplomática junto ao MEC e aos parlamentares do RN em Brasília, para exigir o aproveitamento de todos os excedentes. Emanuel Bezerra76, presidente da Casa do Estudante (...), foi incumbido
da tarefa. (1989, p. 167-168).
Verifica-se já aqui a ligação entre universitários e moradores da CERN. Os excedentes, embora com as notas necessárias para ingresso na universidade, não eram universitários, nem tampouco secundaristas. Eram estudantes enfrentando o governo pelo direito a vagas na universidade.
Em Natal, em meio à luta dos excedentes, como visto acima, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) envia à Brasília o presidente da CERN, instituição responsável por abrigar especialmente os secundaristas do interior do estado. O movimento estudantil encontra-se unificado.
Anteriormente à ida de Emmanuel Bezerra à Brasília, o movimento estudantil em Natal havia se organizado para combater a política governamental de exclusão dos excedentes. Para unir forças, os estudantes mobilizaram a opinião pública, de modo que esta ficasse ao seu lado. Para que ganhassem tal apoio, os discentes estruturaram os meios pelos quais chegariam à população.
A fixação de barracas nas ruas dos principais bairros da cidade foi um dos mecanismos encontrados pelo DCE e pelos excedentes para angariar a simpatia e o apoio da população de Natal às suas reivindicações. No local das barracas, os estudantes desenvolveram múltiplas atividades: exigiam mais escolas; pediam aos transeuntes que subscrevessem um abaixo-assinado de solidariedade aos excedentes que seria enviado ao MEC através de dois representantes estudantis designados para ir a Brasília. (SILVA, 1989, p. 166).
76 Manteve-se aqui a escrita do nome tal como encontrou-se na citada referência. Contudo, ao longo do trabalho será utilizada a grafia encontrada em sua ficha de sócio do Cine Clube Tirol: Emmanuel Bezerra dos Santos.
Nessa luta, o movimento estudantil conseguiu o apoio de parte da população, com a assinatura de 10 mil pessoas no abaixo-assinado. A Força Aérea Brasileira (FAB) também se uniu à luta dos estudantes: A FAB “concedeu duas passagens aéreas para a viagem de Brasília”. (SILVA, 1989, p. 166).
A classe estudantil estava organizada, determinada a lutar contra o regime imposto e sua política educacional. Dentro dessa organização destacam-se as ações ocorridas nas grandes cidades do país, como por exemplo as manifestações realizadas.
Nacionalmente, após as manifestações dos excedentes, a grande manifestação ocorrida teve lugar no dia 28/03/1968, quando “60 mil pessoas compareceram ao sepultamento” (GERMANO, 2005, p. 115) do estudante secundarista Edson Luis77, morto por militares no dia anterior, no restaurante “Calabouço”, na cidade do Rio de Janeiro. A partir desse momento “sucedem-se mobilizações no país inteiro. Não há, praticamente, uma semana em que não ocorra uma passeata, uma mobilização, um acontecimento de grande repercussão”. (GERMANO, 2005, p. 115).
O movimento estudantil natalense não se alheia à tão grave atentado contra à vida do estudante secundarista. De acordo com o jornal Diário de Natal, os estudantes não realizaram passeatas, nem protestos ruidosos pela morte de Edson Luís. Limitaram-se a colocar faixas pretas, em sinal de luto, nas suas faculdades. Pelo que consta no jornal, as opiniões dos estudantes variavam no que dizia respeito à atitude do DCE diante do ocorrido no restaurante “Calabouço”, ao mesmo tempo em que universitários, secundaristas e excedentes se solidarizavam com os estudantes atacados e se colocavam contrários aos policiais, que teriam agido de forma criminosa, segundo eles.78
O jornal Diário de Natal informa no dia 03 de abril sobre uma manifestação estudantil realizada após a missa celebrada em Natal para o estudante Edson Luís. De acordo com a notícia, secundaristas e universitários protestavam contra o assassinato do estudante. Durante essa manifestação os estudantes foram cercados pela polícia, que apenas os deixou sair por ordem do secretário de segurança. Na mesma edição há publicação de um comunicado do governador do estado proibindo qualquer tipo de reunião ou manifestação e esclarecendo que
77 Sobre a morte de Edson Luís, consta no capítulo I deste trabalho.
78 ESTUDANTES de Natal protestam pacificamente e ficam de luto. Diário de Natal, Natal/RN, ano XXVIII, n.
8269, 30 mar. 1968, p. 6. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_01&pasta=ano%20196&pesq=%22a%20comis s%C3%A3o%20formada%20de%20universit%C3%A1rios%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
agirá com o “mais severo rigor” com aqueles que “atentarem contra a ordem e a tranquilidade pública e social.”79
Em meio às manifestações contra a situação política vivida nacionalmente, os estudantes se mobilizavam também por questões específicas de sua categoria. Em união com secundaristas, universitários lutaram pelo direito de “distribuição das carteiras estudantis pelo DCE”.80
A prefeitura de Natal havia editado uma nova lei, que passava o “direito exclusivo de fornecer cartões de abatimento em lugar da simples identidade estudantil” (SILVA, 1989, p. 170) para a Secretaria de Educação do município, sendo retirado esse direito dos DAs. Secundaristas e universitários decidiram por não abrir mão do direito de distribuir as carteiras estudantis:
Diante destas decisões, o DCE e os grêmios estudantis mandaram confeccionar um total de 14 mil carteiras para distribuição até 30 de março, ao mesmo tempo que desencadearam uma vasta campanha de esclarecimento à categoria estudantil, no sentido de que não se recebesse a carteira da prefeitura. (SILVA 1989, p. 171).
Segundo Silva (1989, p. 172), os estudantes conseguiram o direito de confeccionar e distribuir as carteiras estudantis. No entanto, esse direito ficou sob responsabilidade dos estudantes apenas até o início de 1969, dois meses após a promulgação do AI-5.
O ex-aluno secundarista de Caicó, agora universitário em Natal, Jaime Calado Pereira dos Santos, se destaca no final da década de 1970, no segmento estudantil em defesa da cultura brasileira. Sua atividade política em Natal esteve ligada à Casa da Música Popular Brasileira (Casa da MPB), fundada por estudantes em 1979.
Como consequência da censura imposta aos artistas brasileiros, especialmente após o AI-5, houve “uma grande avalanche de produções musicais estrangeiras no mercado brasileiro, no período de 1972 a 1975 (aproximadamente), o espaço sociocultural e comercial da MPB dava sinais de uma rearticulação, mesmo que tímida”. (FENERICK, 2004, p. 163). Na continuidade desse período de reestruturação, mas em que o espaço da música brasileira ainda era ocupado pela cultura estrangeira, os estudantes sentem a necessidade de retomar o espaço
79 CRISE estudantil: missa e comícios enquanto PM tomava conta das ruas. Diário de Natal, Natal/RN, ano
XXVIII, n. 8272, 3 abr. 1968 p. 6. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_01&pasta=ano%20196&pesq=%22missa%20e %20com%C3%ADcios%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
80 ESTUDANTES de Natal protestam pacificamente e ficam de luto. Diário de Natal, Natal/RN, ano XXVIII, n.
8269, 30 mar. 1968, p. 6. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_01&pasta=ano%20196&pesq=%22a%20comis s%C3%A3o%20formada%20de%20universit%C3%A1rios%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
perdido. Inicialmente foi fundado um grupo de nome Resistência, com o objetivo de difundir sempre mais a cultura nacional, principalmente a nordestina, entre os próprios brasileiros, mais especificamente entre os natalenses. A fundação do grupo foi responsabilidade de estudantes da UFRN, entre eles Zenaide Maia81 e Jaime Calado Pereira dos Santos, que viria a ser o presidente da Casa da MPB.82
De acordo com o jornal O Poti,
Explicando a criação do grupo, o universitário Jaime Calado disse que Resistência surgiu da necessidade de se criar algo para valorizar o que existe em termos de cultura no país. ‘Procuraremos oferecer opção para o povo, pois acho que é chegada a hora de se fazer uma resistência em defesa do que é nosso. Através de debates sobre música popular, folclore, teatro, cinema e literatura, vamos tentar despertar na juventude o interesse pelos valores culturais que possuímos’.
O grupo formado por universitários de todas as áreas, pretende criar em Natal uma Casa de Música Popular, onde serão apresentados chorinhos, forró, gafieira, samba e música de pastoril. ‘Com isso divulgaremos nossa música, já que anda tão esquecida, servindo apenas para ocupar os arquivos das emissoras do país. Esse é um plano que vai ser feito a longo prazo’.83
A Casa da MPB seria, portanto, não apenas um lugar de apresentações musicais, mas também um local de debates, partilha e construção de novas percepções sobre questões que envolviam a vida de toda a sociedade, e muitas vezes não eram percebidas por ela.
A decisão de fundar uma Casa da MPB, “onde o forró estivesse presente a todo o instante” se deu após algumas reuniões do grupo Resistência, realizadas no Centro de Ciências da Saúde, onde o tema principal era o nordeste.84
A Casa da MPB localizava-se na Praia do Meio, Natal/RN. Sua inauguração foi dividida em dois dias, 16 e 17 de novembro de 1979. O artista convidado a apresentar-se na
81 NA Casa da Música Popular a discoteque não tem vez. Diário de Natal, Natal/RN, ano XL, n. 10911, 12 dez.
1979, p. 20. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_02&pasta=ano%20197&pesq=%22Zenaide%2 0Maia%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
82 CASA da MPB homenageia Luiz Gonzaga. O Poti, Natal/RN, ano XXL, n. 2388, 25 out. 1981 p. 12. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=031151_04&pasta=ano%20198&pesq=%22casa%20da %20mpb%20homenageia%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
83 UNIVERSITÁRIOS querem preservar cultura nacional. O Poti, Natal/RN, ano XXIV, n. 2284, 23 set. 1979 p.
12. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=031151_03&pasta=ano%20197&pesq=%22universit% C3%A1rios%20querem%20preservar%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
84 NA Casa da Música Popular a discoteque não tem vez. Diário de Natal, Natal/RN, ano XL, n. 10911, 12 dez.
1979, p. 20. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_02&pasta=ano%20197&pesq=%22Zenaide%2 0Maia%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
inauguração foi Luiz Gonzaga, artista reconhecido da música e da cultura nordestina. No que se refere ao seu funcionamento, este se dava às sextas e sábados, a partir das 21 horas.85
Com a Casa da MPB o grupo Resistência, além de divulgar a música brasileira através de cantores, como o próprio Luiz Gonzaga, tinha como objetivo apoiar o artista local, possibilitando-lhe realizar apresentações na Casa.
De acordo com o jornal Diário de Natal, em sua estrutura física o grupo objetivava reservar uma sala para exposições de obras de artistas locais, como quadros, livros e artesanatos. A construção de uma cozinha, onde serviriam comidas típicas nordestinas, era uma meta a ser alcançada a longo prazo.86
Segundo o mesmo jornal, o grupo não pretendia, com a abertura da Casa da MPB, suspender os debates que motivaram o início do grupo Resistência:
Com isso, não estamos querendo deixar de lado os debates que iniciamos. É pretensão nossa utilizarmos a Casa para dar continuidade ao trabalho. Para isso vamos convidar pessoas para fazer palestras sobre determinados temas culturais do Nordeste, reunindo estudantes que estejam interessados nas discussões. Paralelo as explanações, mostraremos a música Nordestina com toda sua riqueza – esclarece Gizelda Dantas.87
Cumprindo o prometido, ao longo dos anos os dirigentes trouxeram à Casa da MPB várias personalidades da música brasileira conhecidas nacionalmente. Entre elas Jorge Ben,88 Fafá de Belém, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença.89
Durante as passeatas realizadas nas eleições de 1982, a Casa da MPB não deixou de se inserir no momento político brasileiro. Organizou-se na Casa a simulação de uma eleição. Cada participante com ingresso receberia também uma cédula para votar em um candidato de sua escolha e, ao final da noite, os votos seriam contados. O objetivo dessa atividade, segundo Jaime Calado, em entrevista ao jornal Diário de Natal, era não deixar de reunir os
85 LUIZ Gonzaga canta para estudantes. Diário de Natal, Natal/RN, ano XL, n. 10886, 10 nov. 1979, p. 20.
Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_02&pasta=ano%20197&pesq=%22interpretan do%20todos%20os%20seus%20sucessos%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
86 NA Casa da Música Popular a discoteque não tem vez. Diário de Natal, Natal/RN, ano XL, n. 10911, 12 dez.
1979, p. 20. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_02&pasta=ano%20197&pesq=%22Zenaide%2 0Maia%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
87 Id.
88 POTINOTAS. O Poti, Natal/RN, ano XXVI, n. 2426, 1 ago. 1982, p. 7. Disponível em: <
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=031151_04&pasta=ano%20198&pesq=%22jaime%20cal ado%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
89 POTINOTAS. O Poti, Natal/RN, ano XXVI, n. 2430, 29 ago. 1982, p. 7. Disponível em: < http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=031151_04&pasta=ano%20198&pesq=%22jaime%20cal ado%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
frequentadores da Casa da MPB e, ao mesmo tempo, não se desvincular do momento político, assim como “detectar a tendência do eleitorado, o comportamento do eleitor diante da nova cédula eleitoral e o tempo médio gasto com a apuração.”90
O jornal O Poti dedicou uma coluna a falar sobre o importante trabalho desempenhado por Jaime Calado à frente da Casa da MPB em prol das artes em geral. A Casa da Música foi reconhecida como parte importante no resgate e divulgação da cultura nordestina e natalense, visto que
Tem aberto suas portas para promover e difundir o trabalho do artista potiguar (...). No que se refere à defesa da música nordestina, depoimentos de nomes como Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e tantos outros, apontam a Casa da MPB em Natal, como o “movimento” mais autêntico dentre as diversas casas de espetáculos por onde têm se apresentado.91
O movimento estudantil universitário, portanto, esteve ligado não somente à luta contra o regime militar, em favor da democracia para o país. Suas ações se direcionavam também às atividades culturais.
2.3. Vigilância e Repressão.
Durante a ditadura civil-militar, a repressão a grupos sociais, como estudantes e trabalhadores tornou-se constante. No processo de contenção dos estudantes pelos militares, a CERN sofreu a retaliação através inclusive do corte em seus recursos financeiros. De acordo com Pinheiro, que morou nessa residência por cerca de um ano, em 1969, muitas vezes o governo do estado deixava de repassar os recursos financeiros por ordem dos militares, deixando os moradores até sem alimentação:
Era triste! Porque... a maioria dos jovens pobres... a gente chegava à hora de almoçar, quando chegava no restaurante, no refeitório, aí diziam: hoje não tem almoço. E acabou. Quem tinha uma cocada, comia a cocada, tomava água e botava um palito na boca pra dizer que almoçou. (...) Jantar nunca havia, não é? Café da manhã era café preto com pão. (...) A gente dava graças a Deus no dia que tinha o almoço. Mas eu só
90 CONCORRENDO com as passeatas a Casa da MPB realiza prévia. Diário de Natal, Natal/RN, ano XLIII, n.
1595, 01 out. 1982, p. 3. Disponível em: <
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=028711_03&pasta=ano%20198&pesq=%22concorrendo %20com%20as%20passeatas%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
91 DISCOS. O Poti, Natal/RN, ano XXVIII, n. 18, 8 maio 1983, p. 7. Disponível em: < http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=031151_04&pasta=ano%20198&pesq=%22jaime%20cal ado%22> Acesso em: 19 nov. 2019.
passei um ano lá, não é? Imagine aqueles que tinham que fazer todos os estudos lá... (Informação Verbal).92
Além das dificuldades financeiras enfrentadas pelos moradores da CERN, os estudantes natalenses enfrentaram outros problemas. De acordo com Silva (1989, p. 173), os universitários tiveram que resistir à crise do Restaurante Universitário (RU), que foi criado em 1963 para fornecer alimentação aos estudantes pobres.
As normas de funcionamento do RU foram estabelecidas na Resolução n.º 37/64-U, de 10 de abril de 1964, e dentre essas normas estava a proibição de reuniões políticas e ideológicas no local, para que não se perturbasse o sossego dos residentes. (SILVA, 1989, p.