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2. O BRASIL IMAGINADO NA TELA DA TV 18

4.2. SINALIZANDO CONFLITOS: O PRIMEIRO CAPÍTULO

4.2.1. CasaGrande x Borralho

Podemos observar que uma das estratégias narrativas que demarcam explicitamente o lugar das diferentes classes sociais em “Cheias de Charme” foi trazer para a trama a existência de dois bairros onde se passam as principais ações da novela. O condomínio CasaGrande e a comunidade do Borralho são lugares de representação e diferenciação das classes sociais, distanciadas e separadas não só geograficamente mas também culturalmente. O lugar onde cada personagem vive, assume, nessa obra, uma função significativa para narrativa pois é um indicador explícito de sua classe social, delimitando também sua função trabalhista, suas referências familiares, seu modo de viver, uma forma própria de falar e de se vestir, uma visão de mundo. A dicotomia

92   CasaGrande e Borralho dá vida à oposição popular x burguesia, representada em “Cheias de Charme” por empregadas e patroas.

Ao intitular o condomínio onde moram as patroas de CasaGrande, os autores da novela automaticamente acionam a nossa memória a partir do recurso da intertextualidade nos remetendo a todos os conceitos, preceitos e ideias da obra de Gilberto Freyre (2003), Casa Grande e Senzala. O diálogo com Freyre está no nível da interdiscursividade promovendo a ativação do dispositivo da memória discursiva. É através dessa memória que acionamos inconscientemente outros discursos e falas anteriores ao nosso sobre determinado assunto situando o interdiscurso na esfera do já- dito. O que já foi dito em outros momentos dialoga com o que estamos dizendo agora, dessa forma, “O interdiscurso é todo o conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos. Para que minhas palavras tenham sentido é preciso que elas já façam sentido” (ORLANDI, 2005, p. 33).

A Casa Grande descrita por Freyre, remete ao lugar histórico onde senhores(as) do Brasil Colonial viviam e usufruíam dos serviços dos escravos doméstico (já descrito no capítulo 3). Na Casa Grande dos latifundiários, os escravos serviam aos seus senhores em uma condição de subalternidade que envolvia uma relação de tripla dominação: gênero, raça e classe social. A Casa Grande também representava o centro do poder, da riqueza e das decisões. Não coincidentemente o condomínio CasaGrande é o lugar em que moram todas as patroas da trama e suas famílias abastadas, lugar de luxo, mansões, prédios modernos, e também o lugar onde trabalham todas as domésticas da novela e um outro grupo de trabalhadores entre eles porteiros, seguranças, motoristas, babás etc.  

 

Figura 03 – Comunidade do Borralho e Condomínio Casa Grande  

93   Em oposição à Casa Grande temos na obra de Freyre (2003) a senzala, representada em “Cheias de Charme” pela comunidade do Borralho onde residem as empregadas domésticas e todo o núcleo trabalhador da trama. Aqui mais uma vez vemos o recurso da intertextualidade sendo utilizado através do borralho que nos remete à fábula da Gata Borralheira. O borralho originalmente significa cinzas e a Cinderela era chamada de Gata Borralheira por estar sempre suja de cinzas/borralho por conta de seu excessivo trabalho doméstico. Sendo assim, no imaginário popular, o borralho assumiu o lugar de trabalho, estar sujo de borralho ou estar no Borralho, significa ser trabalhador. Mas o conto da Gata Borralheira também remete a uma história de ascensão social, o romance com um príncipe que lhe tira da condição de explorada no serviço doméstico e a eleva à condição de princesa. Na fábula, a moral da história associa o final feliz como recompensa pelos dias cansativos de trabalho, honestidade e subordinação. Um indício que nos remete à história de vida das três protagonistas e sua futura transformação em celebridades como recompensa pela vida dura e difícil que tiveram, assim como no conto de fadas.

É significativo também observar a forma como o Borralho é representado no primeiro capítulo da novela. Após a cena de abertura onde vemos as três protagonistas na delegacia, temos a imagem de um relógio retrocedendo, em seguida um despertador toca e a câmera o mostra – em plano detalhe - marcando 05:10 h da manhã. Penha levanta, se espreguiça e abre a cortina de seu quarto, em seguida, ouve-se como trilha sonora o radialista Gentil Soares fazendo a abertura de seu programa “Bom dia, Dona Maria!”. Enquanto ouvimos Gentil Soares saudando suas ouvintes vemos intercaladas imagens do Borralho.

Gentil Soares: “- Alô você que está acordando! Você que já está de pé na batida eu sou Gentil Soares e está no ar o Bom Dia Dona Maria. Bom dia Dona Mirna, Dona Vanda, Dona Bené e para todas que ligaram pro [música no fundo: Gentil Soares, galo canta bem cedinho e traz Gentil pro seu radinho] Gentil diz bom dia pra você! Esta é pra você secretária do lar que ganha a vida dando duro em casa de família. [música de fundo do cantor Fabian]”

94   Figura 04 – Sequência de imagens que representa o Borralho  

Fonte: Gshow

A fala do radialista Gentil Soares intercalada com imagens do Borralho é significativa e nos dá indícios de como as classes populares/trabalhadoras serão representadas na novela. A sequência audiovisual editada para representar o Borralho reforça a ideia de uma comunidade de gente simples e trabalhadora que às 05 h da manhã já está de “pé na batida”, disposta e pronta para “dar duro”. Essa percepção é reforçada quando observamos mais atentamente as características dos moradores do bairro, canalizadas para a personagem Penha que tomamos como exemplo de moradora padrão. Honestidade, disposição para o trabalho, generosidade, alegria, expansividade, “'comunitária' e não 'individualista'” (SOUZA, J., 2012, p. 49), possuidora do que Jessé Souza (2012) denomina por “capital familiar” que, na falta do capital econômico, constitui a transmissão de valores familiares que priorizam exemplos de ética do trabalho, superação das adversidades e honestidade.

Essas características funcionam como índices de analogia, como aponta Maria Carmem Jacob de Souza (2004a), que remetem à ideia de classes populares que vêm se perpetuando na teledramaturgia nacional: “No caso particular dos personagens que representam o popular, observa-se uma tendência à defesa do trabalho, da dedicação, da honestidade e da cordialidade como matrizes de homem ou mulher pobre (...)” (p. 37). Dentre os moradores do bairro, os únicos que não possuem essas características são

95   Maria do Socorro, também empregada doméstica, e Sandro, o marido malandro de Penha.

Os moradores da comunidade do Borralho são representados aqui com características da “nova classe trabalhadora” ou simplesmente dos “batalhadores brasileiros” descrito por Jessé Souza (2012). Enfatizam-se assim, aspectos que remetem à valorização do trabalho como uma das poucas possibilidades de um futuro melhor. Dessa forma, contribui-se para a propagação da ideia de esforço individual e do conceito de meritocracia onde “a superação das dificuldades econômicas é solucionada individualmente pela trajetória profissional, ancorada na vontade pessoal e na força emocional dos que estão em desvantagem (...)” (RONSINI, 2012, p. 119).

Observa-se ainda que o retrato do Borralho em “Cheias de Charme” corresponde a uma vertente de representação idealizadora das classes populares/trabalhadoras ao ressaltar sua autenticidade e demonstrar um certo fascínio e valorização de seu estilo de vida. O estigma de periferia, e consequentemente de pobreza, se transforma em emblema com a exaltação do povo e reivindicação de valorização das origens humildes (Souza, M., 2004a).