2. O BRASIL IMAGINADO NA TELA DA TV 18
4.2. SINALIZANDO CONFLITOS: O PRIMEIRO CAPÍTULO
4.2.2. Empregadas x Patroas: ou seria o Bem x o Mal?
O antagonismo entre o bem e o mal é parte integrante da estrutura narrativa da teleficção. Ainda que nas produções atuais haja uma maior complexidade nessa estrutura, vilões e mocinhos continuam assumindo o protagonismo das histórias e se enfrentando diariamente nas telenovelas que vemos no ar. Consideradas personagens tópicas das narrativas melodramáticas o herói e o vilão, ou a heroína e a vilã, são tipos característicos da narrativa folhetinesca que a telenovela moderna manteve em suas histórias (PALLOTTINI, 2012). As personagens tópicas obedecem a um esquema predeterminado de representação, com características que se repetem continuamente a cada nova produção tornando suas ações já conhecidas pelo público.
Na representação do bem e do mal em “Cheias de Charme”, vemos a manutenção dessas personagens tópicas principalmente através da perpetuação de aspectos morais. As heroínas – representadas, de modo geral, pelas empregadas domésticas - mantém um conjunto de características que envolve honestidade, simplicidade, romantismo, suas histórias são marcadas pelo sofrimento, injustiça e delas espera-se a superação das dificuldades e o triunfo da felicidade representada pela ascensão social ou pelo casamento. As vilãs – em geral representadas pelas patroas – passam toda a trama se
96 opondo às mocinhas, tramando para dificultar suas vidas, são ressentidas, ambiciosas e se convencionou que devem ser castigadas no final, seja com o declínio social, a morte ou prisão.
Ainda que haja exceções, a oposição bem x mal é abordada em “Cheias de Charme” a partir da dicotomia empregadas e patroas. Essa clara demarcação se deve ao fato de que a virtude ou a maldade na sua forma pura não conferem complexidade psicológica facilitando a identificação moral das personagens, mediando assim, a empatia ou rejeição do público (PALLOTTINI, 2012). Ou ainda como afirma Ronsini (2012): “o ponto de vista dos criadores é que as relações sociais e o destino das pessoas se resolve pelas opções morais entre o honesto e o desonesto, fortes e fracos, bons e maus” (p. 121). Nesse caso, observamos que há uma constante discursiva na forma como patroas e empregadas são representadas, um processo parafrástico onde os discursos se sustentam a partir de um já-dito que se repete continuamente garantindo assim, a estabilização discursiva dentro das mesmas esferas do dizer.
A oposição patroa/empregada é histórica, sendo registrada desde os tempos do Brasil Colonial a partir da rivalidade entre escravas e sinhás. Gilberto Freyre (2003) registra: “O motivo, quase sempre, o ciúme do marido. O rancor sexual. A rivalidade de mulher com mulher” (p. 421). Relação desigual, baseada na subjugação racial e social, conferia à sinhá uma posição privilegiada diante da escrava a quem podia infligir, inclusive, castigos físicos. Freyre (2003) relata a prática comum de sinhás quebrarem os dentes ou marcarem o rosto de suas escravas domésticas para que ficassem menos atraentes para seus senhores.
A relação entre patroas e empregadas é uma relação entre mulheres, dentro do ambiente doméstico, com fronteiras profissionais pouco definidas e uma constante disputa por território (Preuss, 1997). Essas características tornam esse vínculo ambivalente, com sentimentos contraditórios de ambas as partes, que se refletem em uma relação de proximidade e oposição.
97 Quadro 1: Personagens representativos do bem e do mal
BEM MAL
Maria da Penha (empregada) Chayenne (patroa) Maria do Rosário (empregada) Sônia Sarmento(patroa) Maria Aparecida (empregada) Ariela Sarmento (patroa) Dona Valda (empregada) Isadora Sarmento (patroa)
Lygia (patroa) Máslova (patroa)
Gracinha (empregada) Socorro (empregada)
Ivone (empregada) Branca (patroa)
Brunessa (empregada)
Em “Cheias de Charme”, as patroas, com seus discursos, dão continuidade às desigualdades históricas mantendo um comportamento e um perfil de patroas “más” que humilham e exploram suas funcionárias. Na esfera textual, as palavras usadas para se referir às trabalhadoras como “criadagem” e “serviçais” ou ainda no diminutivo como, por exemplo, “mocinha”, “empregadinha” e “gentinha” demonstram desprezo e superioridade; as agressões físicas e psicológicas, ameaças e apelo para a gratidão das empregadas apontam para a manutenção da dominação e dependência social; os xingamentos – principalmente proferidos por Chayene – como, por exemplo, “égua”, “jumenta”, “quenga”, “paneleira”, “ariranha da pata furada”, “potra”, “burra” e “porca” reforçam o estereótipo de vilania. Outras frases de igual peso discriminatório também são proferidas pelas patroas a exemplo de:
- “Empregada é que nem eletrodoméstico, tem prazo de validade.” - Sônia Sarmento - “Lhe pago não é pra ficar de bate coxa. Quando chego em casa quero ser servida.” / “E tu cale a sua boca também sua paneleira traíra, teu lugar é no fogão!” / “Você acha que vai posar do meu lado assim vestida de gente?”- Chayene
- “Ah! A classe alta ficou refém da criadagem.” / “No meu tempo elas imploravam para trabalhar com a gente por qualquer trocado.”- Máslova
Esses são apenas alguns indícios que apontam para a necessidade de manutenção do poder dentro do ambiente doméstico, demonstração de superioridade na tentativa de não ser substituída pela empregada na condição de “dona do lar”, ou ainda uma tentativa de manter a distinção social demonstrando claramente qual o lugar ocupado pela empregada no jogo de disputa do espaço social, como aponta Preuss (1997): “Ao mesmo tempo em que precisa dos serviços da empregada, a patroa não deseja ser
98 substituída, apenas obedecida. O controle precisa manter-se em suas mãos e, para tal, são várias as estratégias (...)” (p. 54-55). Por outro lado, as empregadas, que necessitam do trabalho, entendem sua condição social desfavorecida e se submetem a uma relação desigual dentro do espaço social da patroa. Nesse sentido, as heroínas de “Cheias de Charme” reforçam, através de seus discursos, o estereótipo das mocinhas sofridas que precisam “sobreviver” às dificuldades impostas pelas patroas vilãs. Reforçam esse aspecto frases como:
- “Não vem não Penha! Dr. Lygia faz parte da categoria de patroas malditas que fazem a gente sofrer” - Rosário
- “Agora todo mundo sabe! O Brasil inteiro sabe que tu maltrata empregada!” - Penha falando com Chayene
- “O fato é que a gente sofre muito na mão de patrão viu? Ô vida essa nossa!” - Cida Observa-se também que há uma forma própria das empregadas se referirem às patroas, em geral usam o deboche quando as chamam de “madames” - indicativo de futilidade e frivolidade; o humor quando Penha, por exemplo, diz que Chayene é “babado, confusão e gritaria” ou quando afirma que a patroa cheira a enxofre; e até mesmo xingamentos como: bruaca, lacraia, sarnentas – quando Cida se refere às mulheres da família Sarmento. De modo geral, esse comportamento é observado nas cenas em que as três personagens estão juntas ou quando desabafam com amigos e familiares, na frente dos patrões o comportamento é diferente e quase sempre subalterno. Os xingamentos e deboches que utilizam para se referir às patroas é “justificado” pelo histórico de humilhações e sofrimentos, não aparentando para a audiência sinal de maldade ou perversidade, o que inviabilizaria suas características de mocinhas.
Apesar da novela demarcar a oposição entre empregadas e patroas, observamos outras tensões que vão além das dicotomias apresentadas acima. No universo ficcional criado para representar o bem e o mal em “Cheias de Charme”, duas personagens se destacam e destoam de seus grupos sociais originais: a patroa Lygia Ortega e a empregada Maria do Socorro. Ao contrário das outras patroas que se opõem às protagonistas, a advogada Lygia buscou um relacionamento de amizade com Maria da Penha enquanto a empreguete trabalhava em sua casa. Conhecedora das leis, Lygia é justa, correta e além de pagar todos os direitos trabalhistas ainda defende a causa das domésticas por mais igualdade. A dicotomia aqui é rompida a partir dessa personagem
99 que, apesar de figurar no núcleo das patroas, se impõe como benevolente e atenta à causa das empregadas domésticas. No site oficial da telenovela Lygia é descrita como: “Justa, tem um grande senso ético. (…) vive o paradoxo da mulher moderna: quando sai de casa para ganhar o pão, precisa deixar outra pessoa cuidando da sua família”. Esse senso de justiça é demonstrado pelas suas ações – advogada de Chayene, ela deixa o caso ao se compadecer por Penha e por considerar a ação injusta – e pelas suas falas:
- “Parceria, é isso que tem entre a gente” - em conversa com Penha
- “Eu assino carteira, pago direitinho, faço tudo conforme a lei. Te garanto que eu sou uma patroa bem melhor que a Chayene. Há tempos que eu estou procurando uma parceira de confiança, Penha!”
Por outro lado, Socorro não segue a lógica do trabalho e do esforço dos novos trabalhadores brasileiros, dos moradores do Borralho e das demais empregadas domésticas. Ao contrário, ela é preguiçosa, não gosta de trabalhar, come toda a comida dos patrões, quebra a louça das patroas e tem uma verdadeira veneração por Chayene, ao ponto de se auto intitular, com orgulho, a “personal curica de Chay”. Parte do núcleo cômico da novela, Socorro põe em prática todos os planos mirabolantes de Chayene para prejudicar o trio Empreguetes que ameaçam seu sucesso. É válido ressaltar que o recurso humorístico é uma constante em “Cheias de Charme”, principalmente através das personagens Chayene e Socorro, conferindo leveza, arrancando risos e tornando mais “confortável” essa oposição entre empregadas e patroas. Os efeitos sonoros, o figurino extravagante, e a corporeidade dessas personagens minimizam os conflitos e tornam menos realistas as situações representadas.