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capítulo 2. viver na (a) fronteira de Rivera e Santana

2.3 casar-se com um uruguaio, casar-se com um brasileiro

“eu sou brasileira, meu esposo é uruguaio (...)”.

Com o propósito de conhecer a composição das famílias da fronteira, decidimos pesquisar a porcentagem de matrimônios de dupla nacionalidade em ambas as cidades. Para isso, nos encaminhamos aos cartórios de registro civil.

Em Santana, registramos os casamentos efetuados nos últimos 2 anos e 8 meses (um total de 828), em Rivera, tivemos acesso únicamente aos casamentos realizados desde janeiro até setembro de 2000 (um total de 267).

Para o mesmo período, contra 176 casamentos em Santana, se registraram 267 em Rivera; enquanto que em Santana a porcentagem de matrimônios mistos é de 6,4% (a média para todo o período analisado é de 4,8%), em Rivera é de 16,5%.

Com estes mesmos dados, também é possível estimar a porcentagem total de matrimônios mistos em ambas as cidades. Para o período considerado, a porcentagem seria de 12,4%46. No ano de 1972, Hensey estimava em 15% a porcentagem de matrimônios internacionais (assim os identificava o autor) nas cidades de Rivera e Santana; em uma segunda fronteira seca Uruguai-Brasil

46 Agradecemos a sugestão de Alejandro Grimson para fazer esta estimativa.

(Yaguarão-Rio Branco), a porcentagem estimada era de pouco mais de 17%

(Hensey, 1972).

Examinando os primeiros resultados para o mesmo período em ambas as cidades (desde janeiro até setembro de 2000), percebemos dois dados singulares; o aumento no número de casamentos e na proporção de matrimônios mistos na cidade de Rivera. Podem ser vários os motivos que expliquem estes fatos; a continuação, sugerimos algumas das possíveis explicações.

Em Santana, um estrangeiro, como é caso de um riverense, deve apresentar para se casar (entre outros requisitos), um certificado de solteiro que tem um custo relativamente alto. Em Rivera, a condição principal é a apresentação de testemunhas que testemunhem que o estrangeiro está radicado em território nacional. No caso de jornaleiros, changadores47 ou se a noiva está grávida, o pagamento pelo trâmite de casamento não é necessariamente obrigatório, o qual foi confirmado pelo oficial do cartório de registro civil de Santana; “porque lá o casamento é gratis, aqui não tem como casar sem pagar”.

Outros motivos merecem maiores investigações. Um juiz de paz do registro civil de Rivera afirmou que, no caso de um casamento entre um brasileiro (com residência e/ou trabalho em Rivera) e uma uruguaia com filhos em comum, ao se casarem em Rivera, seus filhos são “automáticamente”

legalizados; questão que foi negada no consulado uruguaio de Santana.

Alguns juízes justificam a diminuição no número de casamentos em Santana pelo fato de ser reconhecida a união estável; “o brasileiro ele já não casa mais como casava anteriormente porque como foi reconhecida a união estável, então muitos apenas se unem, têm todos os cartórios uma queda de casamentos, o concubinato foi elevado a união estável”.

47 Moço de fretes ou homem de recados.

Outra das razões que explicaria o aumento no número de casamentos em Rivera se relaciona com o divórcio. Um divórcio feito no Uruguai, para ser reconhecido (ou revalidado) no Brasil, requer um trâmite prolongado. Nestes casos (quando se trata de um divorciado/a uruguaio/a que deseja se casar com uma brasileira/o), o cartório de registros de Santana sugere fazer o casamento diretamente em Rivera;

“divórcio lá aqui não é divorciado...uma pessoa que é divorciada lá pra reconhecer o divórcio aqui tem uma lei que diz que tem que passar pelo tribunal de Brasília...então essa pessoa a gente manda que casem, manda não, da uma sugestão que casem lá, divorciado casa com uma divorciada ou solteira, aí pega esse documento de casamento, leva no consulado, pedi um visto e se registra aqui, casa lá primeiro, depois passa para cá, mas não tem a lei, não tá a lei...aí não precisa ir pra Brasília...casos próprios da fronteira que são assim mesmo”, oficial do cartório de registro civil de Santana.

Em alguns casos, o próprio casamento se converte numa estratégia para negociar “legalmente” uma nacionalidade, que pode resultar útil ou benéfica.

Segundo explicava um dos juízes entrevistados; “viene una persona, documento brasileño, el nombre materno brasilero y el paterno como ellos es allá, se presenta como brasileño, ta, se casa, pasa un tiempo y se presenta en el letrado, que se produjo un error al tomar los datos, yo no soy Ferreira Ferreira sino que soy Ferreria Correa (...) y a veces cambian, donde dice uruguayo, debe decir brasilero”.

Isto é, argumentando que houve um erro no registro do nome, no momento do casamento, existiria a possibilidade de negociar uma retificação do mesmo no registro de nascimento; “después necesita que los padres sean brasileros para sacar documento en Brasil, dicen que hubo un error acá”.

Confusão que se veria favorecida pelo uso diferencial dos sobrenomes materno e paterno no Uruguai e no Brasil48.

48 Durante nossa entrevista com o juiz de paz, ao tratar esta questão, pegou o jornal local de Rivera para verificar se, nesse dia, achava algum destes casos, tarefa que faz rotineiramente.

O juiz identificou dois casos, um deles segue a continuação: “Rectificación de partida de Nacimiento. Edicto: por disposición de la señora jueza letrada de primera instancia de Rivera de Tercer Turno, se hace saber que se solicitó la rectificación de la partida de nacimiento de LADI TERESINHA RODRIGUEZ SEVERO, ficha 342/2000, en el siguiente sentido: al margen y en el cuerpo del Acta, donde dice “ladi Teresinha Rodríguez Severo”, debe decir: “..Ladi

O ator fronteiriço pode se servir desta confusão para propósitos diversos; “é uma confusão, o uruguaio também ele, com esa história de ter o nome da mãe no fim...eles modificam isso porque aqui é o nome do pai e o nome da mãe nem é obrigado a usar...é uma opção e é interessante pegar, eu assisti a um processo...era uma pessoa que tinha dez filhos, nem um filho tinha o nome igual ao outro, as partidas de nascimento eram tão desencontradas e eram filhos do mesmo pai e da mesma mãe, mas eles usam assim...”, juíza de Santana.

Porém, em geral, os motivos que se mencionam com maior freqüência para explicar o aumento no número de casamentos em Rivera tem a ver com a idéia de que, no Uruguai, existem maiores vantagens econômicas e sociais para uma família; “porque acá parece que están más fáciles las cosas, por el tema del estudio, la asignación familiar, atención médica, tienen escuelas, liceo”.