capítulo 3. as línguas da fronteira riverense-santanense
3.6. conclusões preliminares
capítulo 5). De fato, os riverenses negam que os santanenses falem portunhol e estes (especialmente os empregados comerciais da área do centro), mostram rejeição e moléstia com relação a esta língua.
É possível que na situação de interação que investigamos, o portunhol seja usado com a intenção de que se me reconheça como membro de um coletivo (uso instrumental participativo segundo Pérez-Agote et al., 1990), especialmente como membro de um coletivo diferente de, ou em contraste com, outro coletivo (os brasileiros ou santanenses)92. Neste caso, estamos supondo que a linguagem (ou a eleição de usar determinada língua), pode ser um dos critérios usados para definir algum tipo de identificação, questão que merece maiores considerações93.
Por outra parte, que os riverenses neguem que os brasileiros falam portunhol, ou que os santanenses admitam que o portunhol é uma “mistura” e não o usem efeitivamente durante a situação de interação analisada, não significa que os santanenses desconheçam esta língua ou que não falem variedades de português.
Le Page e Tabouret-Keller assinalam a necessidade de distinguir “how people think they ought to behave, how they say they behave, and how they are observed to behave” (Le Page et al., 1985: 207)94. Isto é, observemos quando
92 Temos que entender as categorias sociais brasileiros ou santanenses (ou riverenses), fundamentalmente como recursos narrativos pois é claro, como assinala Vila, que estas categorias são problemáticas e encobrem grandes diferenças no processo de construção de identidades (Vila, 2000).
93 Como mencionamos antes, Barrios caracteriza os dialetos portugueses por um prestígio comunitário, “orientado hacia la identidad; características éstas que los hacen especialmente aptos para funcionar como lengua étnica (...)” (Barrios, 1999: 7, grifos da autora). É evidente, como lembra Le Page, que a “linguagem” desempenha um papel complexo com relação às identidades étnicas, nacionais ou raciais. O que demonstra este autor é, precisamente, “what a complex and shifting set of relationships exists between language, as it is used but also as it is defined, and forms of social organization (...) although ‘race’ and ‘ethnicity’ frequently do have strong linguistic associations this is not invariably so, and linguistic groups are not by any means always isomorphous with either genetically-conceived ‘races’ or culturally- or socially- conceived ‘ethnic groups’. The relationship is a complex one.” (Le Page, 1985: 243 - 248).
Nossos resultados não permitem avançar demasiado neste sentido, se bem que realizamos algumas reflexões adicionais no capítulo 5.
94 Malinowski na introdução de sua obra Argonautas do Pacífico Ocidental alerta; “em todo ato da vida tribal existe, primeiro, a rotina estabelecida pela tradição e pelos costumes; em seguida, a maneira como se desenvolve essa rotina; e, finalmente, o comentário a respeito dela, contido na mente dos nativos” (Malinowski, 1984: 32). Isto é, a distinção chave entre o que se diz que deveria-se fazer, o que se faz e o que se diz que se faz.
riverenses e santanenses usam o portunhol, o espanhol e o português, perguntemos por que riverenses e santanenses acham que devem usar determinada língua e não outra em um contexto específico, e escutemos que nos dizem (e em que língua) sobre as línguas que falam e sobre as que não falam.
Nossos resultados são fragmentários, pois analisamos uma (embora relevante), das diversas situações de interação possíveis entre a população de ambas as cidades, e contribuimos com dados preliminares sobre algumas outras. São necessárias maiores investigações que abarquem um panorama mais completo da situação sociolingüística desta fronteira política;
investigações que, insistimos, descubram os usos e sentidos das línguas além do esquema diglóssico e além das “classes sociais” (conceito confuso e limitado segundo indicamos antes), incorporando a situação de contato social e lingüístico que vive esta fronteira política.
O universo de estudo da escola pública uruguaia descobre as normas implementadas pelo Estado nacional com relação ao uso e os sentidos das línguas usadas em Rivera.
Como afirma Todorov, a nação como entidade especificamente moderna tem com uma de suas características a fusão do cultural e do político, e o pertencimento cultural justifica uma reivindicação, a da coincidência entre entidades culturais e políticas (Todorov, 1991).
Uma língua comum é um dos ingredientes necessários para converter formações de Estado em culturas nacionais (Löfgren, 1989). Os Estados-nação modernos, que se reclamam culturas e pretendem ser nações, freqüentemente encontram na linguagem (no ensino de uma língua comum através do sistema educativo), uma ferramenta principal para tal propósito. Por isso, o uso dos dialetos portugueses nas escolas públicas da fronteira é considerado um fato
“anti-nacional” que deve ser combatido, e desde o sistema educativo nacional as opções quase sempre se colocam em termos de reforçar a difusão e o enraizamento do espanhol.
Destaquemos ao menos dois aspectos relacionados com esta questão.
O primeiro deles, se refere aos professores de Rivera e às suas práticas cotidianas com relação ao uso das línguas. Nossos resultados descobrem uma
série de comportamentos comuns sobre o uso e valoração dos dialetos portugueses, e comprovamos como os professores, que recebem do sistema educativo os valores negativos que se outorgam às falas portuguesas e os esquemas que se devem seguir sobre o uso e aceitação de ditas línguas, restringem ainda mais o uso do portunhol. Desta forma, se descobre a importância da história pessoal (formação docente) e o contexto social no uso e valoração das línguas.
A segunda questão se relaciona com o reconhecimento que os riverenses fazem de falar portunhol como um fato inevitável. Novamente, enfrentamos determinada leitura da realidade, aquela que supõe que as coisas deveriam estar claras numa espécie de antes e depois; porém, não resultam ser como se supõe que deveriam ser, convertendo-se em fatos e em práticas inevitáveis.
Uma vez mais é possível reconhecer os limites e identificar o Estado como o principal regulador do limite entre o inevitável e o evitável. O Estado resolve, instrumenta e justifica o ensino (através do sistema educativo nacional) e o uso do espanhol como idioma nacional. Que nas escolas públicas uruguaias (ou em território uruguaio), se usem outras línguas diferentes do espanhol, não só não corresponde, além disto representa uma invasão ou ameaça que deve ser combatida. Desta forma, o uso do portunhol em Rivera e nas suas escolas públicas é considerado um fato anti-nacional que deve ser eliminado; nesta fronteira política, para o Estado nacional, o uso dos dialetos portugueses se deve evitar.
Não obstante, nas escolas públicas de Rivera se falam variedades de português (com as restrições que mencionamos antes), e os riverenses falam e usam o portunhol cotidianamente, sem deixar de reconhecer que estes são fatos inevitáveis. Este reconhecimento da inevitabilidade de uma série de práticas cotidianas não deixa de ser uma forma de reconhecer (valha a redundância) os limites ou as normas impostas pelos Estados nacionais no seguinte sentido: reconhecemos que nos devemos comportar ou atuar ou falar de determinada forma (como falar em espanhol), mas não o fazemos (falamos em portunhol), percebemos que não deveria ser deste modo, mas e inevitável.
capítulo 4
“el uruguayo es gris, el brasilero es amarillo”. estereótipos e representações na linha.
Nesta fronteira política, as relações entre uruguaios e brasileiros estão marcadas por estereótipos que, como assinalam Frigerio e Ribeiro (2002), acabam influindo no conteúdo das interações. Agora, quais são as imagens que riverenses e santanenses têm uns dos outros, que revelam essas formas de classificar o outro sobre as relações entre estas comunidades de fronteira, e como se convive, quando surgem na vida cotidiana estas imagens?. O presente capítulo tem como objetivo responder a estas preocupações, que continuam informando sobre os modos em que riverenses e santanenses vivem e imaginam esta fronteira política.
Quando no capítulo 2 falamos de sentidos práticos da fronteira, mencionamos a necessidade de considerar, simultâneamente, as idéias, estereótipos ou representações que riverenses e santanenses têm desta fronteira e de si mesmos. Porque, como lembramos então, para os atores fronteiriços o mundo da fronteira não só se divide em dois (antes e depois da linha, cá e lá ou deste lado e do outro lado), também se carrega de uma série de valores que determina que coisas são melhores, onde e por que são melhores (ou piores). Como assinala Herzfeld, as suposições sobre onde comprar o fiambre, roupa de cama ou medicamentos, onde dançar (se na cidade de Rivera ou de Santana) ou em que escola estudar (de um ou de outro país), são ações baseadas em estereótipos às quais os atores fronteiriços vão responder de diversos modos estratégicos e etnograficamente interessantes (Herzfeld, 1997).
Como afirma Grimson, a fronteira é um agente estruturante de uma diversidade de sentidos e esse caráter estruturante se percebe nas situações cotidianas que vivem as populações fronteiriças. De fato, o autor demonstra quão efeitiva é a existência da fronteira jurídico-política como condição para a produção de uma multiplicidade de fronteiras simbólicas (Grimson, 2002). Na
verdade, como lembram Ribeiro e outros autores (Ribeiro, 1993; Donnan e Wilson, 1999), as culturas de fronteira são cenários propícios para descobrir as fronteiras da cultura.
Como colocamos antes, um dos objetivos do presente trabalho é reconhecer os limites culturais além do limite físico entre os Estados-nação. A análise da vida cotidiana dos atores fronteiriços, que temos proposto como prática etnográfica da nossa investigação, descobre como riverenses e santanenses vivem e usam a linha e, ao mesmo tempo, descobre outras linhas.
Os atores fronteiriços estão em permanente contato com o outro através de seu limite respectivo, e as imagens ou estereótipos sobre o outro são também um dado da vida cotidiana com o qual se convive permanentemente.
Como (e quando) riverenses e santanenses classificam o outro nos ensina como se marcam diferenças e se estabelecem distinções que descobrem, por sua vez, novos limites culturais.