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2.5 Bens de trabalho, transporte e alimento

2.5.3. Casas e pousos

No dia onze de junho de 1867 a Força Expedicionária de Mato Grosso chegou a

Porto Canuto na margem esquerda do Rio Aquidauana, dando fim a penosa retirada

encetada dia 8 de maio da invernada da Laguna, no Paraguai. O Comandante da Coluna

Jose Thomaz Gonçalves, designou o Tenente da Comissão de Engenheiros Alfredo

D’Escragnolle Taunay, para levar correspondências ao Rio de Janeiro sobre os

acontecimentos que ensejaram a retirada e os percalços sofridos durante a marcha até

Porto Canuto. Taunay partiu para o Rio de Janeiro dia 17de junho de 1867

255

.

Durante a viagem, Taunay relatou paisagens, costumes, alimentação, doenças e

moradias do sertão e locais por onde lhe ofereceram pouso. Dentre estas anotações,

transcritas na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, segunda parte da

edição de 1869, sob o título Viagem de Regresso de Mato Grosso a Corte – Memória

Descritiva, interessa-nos mais de perto a descrição das casas de morada, ao longo do

trajeto percorrido, de Nioaque até Santana do Paranaíba.

Chama atenção na descrição dessas moradas a rusticidade e singeleza de suas

construções e acomodações. Na Bacia do Rio Aquidauana descreveu pastos lindíssimos,

cerrados vistosos, excelentes currais e campos de cria. Contrastando com a paisagem e o

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rebanho, as casas de morada eram simples, não passando de uma modesta casinhola. Em

Correntes, ainda na região de Aquidauana, descreveu a Tapera dos Henriques, situada

numa elevação e circundada de excelentes pomares. No Ribeirão Cachoeirinha,

encontrou a palhoça do Mota, cujo rancho estava construído numa planície acidentada,

dotado de grandes plantações de milho, arroz e feijão, cuja renda era incompatível com

a simplicidade de sua morada

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.

Descreveu ainda a fazenda de José Veríssimo a margem esquerda do Rio

Sucuriú, o rancho de Manoel Coelho no Rio Indaiazinho e a casa de Ignacinho no

Ribeirão das Pombas. Em todas essas moradas, a singeleza das casas de moradia é

característica comum, apesar de seus donos possuírem bons campos de cria e plantações

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.

Portanto, o vilarejo pastoril refletia o pouco valor que se dava aos confins

conquistados. Esse aspecto fica patente na narrativa de Alfredo Taunay, ao alcançar

Santana de Paranaíba entre os anos de 1865-1867, conforme já referido:

Transpondo um corregozinho e subindo um ladeira onde há míseraa

casinholas, chega-se a principal rua da povoação, outrora florescente

núcleo de população, hoje desimada das febres intermitentes, oriundas

das enchentes do Paranaíba...800 habitantes mais ou menos, três ou

quatro ruas bem alinhadas, uma matriz em construção, há muitos

lustros, os tipo melancólico de uma vila em decadência, o silencio por

todos os lado, crianças anêmicas, mulheres descoradas, homens

desalentados, eis a vila de Santana, ponto controverso entre as

províncias de Goias e Mato Grosso.

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A casa da propriedade pastoril não podia ser diferente. Pelas avaliações de

Sodré, por ser o pastoreio uma atividade de mobilidade, deixam poucos sinais visíveis, a

morada, por vincular o homem ao local, constituía-se num obstáculo para o criador. Por

isso, não a faziam confortável, garante Sodré: “Nem residiam habitualmente em lugar

algum, tendo, entretanto, um pouso predileto um ponto de irradiação de jornadas, nem

faziam benfeitorias. Que benefícios poderiam mesmo fazer, ligados aos rebanhos? Em

que, essa cultura paupérrima e opaca, poderia afetar a terra?

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” A narrativa de Taunay

contribui para reforçar os pressupostos de Sodré: “[...] A uma légua do pouso passamos

pelo rancho novo de José Roberto, homem vigoroso, que a poder dos seus braços e dos

256

Ibid., p. 7.

257

Ibid., p. 23.

258

TAUNAY, V., Viagens de outrora, p. 63.

259

de sua mulher havia já limpo uma boa área, construindo uma confortável palhada e

preparado grandes roçadas

260

.

Ao descrever um pouso junto a propriedade de Joaquim Garcia Leal, Taunay

referiu-se às casas do sertão de Santana de Paranaíba:

[...] fomos fazer pouso junto à casa de Joaquim Leal, meia légua

adiante, num paiol velho, visto, como, por ausência do dono da

propriedade, não ousara sua mulher oferecer-nos a sala dos hospedes.

As casas por ai já vão tendo aspecto mais confortável; ou coberta de

telha ou de palha, tem proporções vastas, oferecendo grandes

acomodações; entretanto ainda há pouco cuidado na conservação de

limpeza; o terreiro ainda sempre coberto de sabugos de milho, e

porcos aos montões, magros e esfaimados, vagam por toda a parte,

perseguindo aos viajantes com grunhido de fome, misturada de tal ou

qual ferocidade

261

.

Como já assinalado, além da falta de cuidado com a propriedade, alguns dos

inventários analisados revelam a pouca a atenção acerca da demarcação das terras a

exemplo dos bens inventariados de Eufrosina Garcia Leal, 1859, e de Bernardo Marques

Pereira, 1874.

Quadro 37 - Bens de raiz arrolados nos inventários post-mortem

INVENTÁRIO BENS DE RAÍZ ARROLADO VALOR AVALIADO EM RÉIS

Eufrosina Garcia Leal (1859) Sítio com casa de morada e com

plantação na Fazenda água

Limpa

100$000

Bernardo Marques Pereira

(1874)

Parte de Terras na Fazenda

Morangas

1:535$000

Um sítio de morada na mesma

fazenda

70$000

Total de bens arrolados 1:605$000

Fonte: Memorial do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Documentos históricos/Santana do Paranaíba

(1859-1861). Caixa 03/documento 11 e Caixa 07/documento 14, respectivamente.

Embora os mesmos inventários façam referências aos preços dos bens de raiz,

constituído por sítio com morada, plantação, etc, observamos que a maioria deles não

detalham as características das casas de morada. Deduz-se daí que se tratava de

habitações simples e de pouco valor, constituído por pequenas roças e lida no campo.

Virgílio Corrêa Filho, em Pantanais Matogrossenses Devassamento e

Ocupação, 1955, discorreu sobre algumas casas de morada de fazendeiros da região de

260

TAUNAY, V., Op. cit., p. 59.

261

Cuiabá. Segundo ele, embora os rebanhos se multiplicassem, seus donos não colhiam as

vantagens correspondentes, “Era-lhes, ao contrário, assaz penosa a labuta e inteiramente

desprovida de conforto que as habitações desconheciam”

262.

Referindo-se as casas de

moradia, relatou sua rudeza e simplicidade.

As paredes de adobe, quando não barreadas apenas a sopapo na

maioria das casas, alvejavam-se habitualmente pela caiação. A

cobertura de telhas, em duas águas, não evitava o umedecimento

interno, durante a época das chuvas, quando o chão de terra batida,

fartamente embebido de água do subsolo, ressumbrava-a na superfície.

De acordo com o rude abrigo, reduzia-se o mobiliário às peças

essenciais. Na sala de frente, amplamente rasgada, salvo em uma das

extremidades fechada para acolher as mercadorias destinadas as

transações mercantis, de limitado giro, estendia-se comprida mesa de

tábuas sobre cavaletes, franqueada de bancos igualmente de madeira

tosca

263

.

A singeleza das moradias refletia-se também nos poucos pertences e mobiliário.

A água de beber era esfriada em potes ou talhas de barro, encostados numa forquilha

num dos cantos da casa. A ausência de camas era suprida por redes. Para guarda dos

pertences e vestuário, havia canastras enfileiradas, baús de madeira encourados ou

envernizados.

A ausência de casas de moradia, o baixo valor a elas atribuído e falta de

mobiliário nos inventários consultados, decorrem da simplicidade descrita por Virgílio

Corrêa Filho. Embora se referindo à região de Cuiabá, não deixa de ser uma realidade a

outras regiões da província inclusive Santana de Paranaíba. Se compararmos a região de

Cuiabá, ocupada e povoada pelo mameluco paulista desde o início do século XVIII,

com a região de Santana de Paranaíba, ocupada pelos entrantes mineiros a partir da

década de 1830, pode-se concluir serem as moradas e mobília dessa região, mais

singelas ainda, que as descritas por Virgílio Corrêa Filho.

Nessa mesma esteira Nelson Werneck Sodré pondera serem os objetos e

utensílios, mais caros que casa e terra. Tudo que se movia, valia mais que a terra, pois

esta era fácil obtê-la.

Também a casa era pobre e, [na economia pastoril] por isso, nada

valia. Nas transferências de posses, quase, quase não há referência a

tais benfeitorias. Eram tão insignificantes que não chegavam a

ponderar, no cômputo geral. As escrituras indicam, além dessa

262

CORRÊA FILHO, V., Pantanais Mato-Grossenses Devassamento e ocupação, p. 113.

263

pobreza generalizada, traço comum e fundamental, a desestima pelo

solo

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