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1.3 Métodos e Fontes

1.3.9 Inventários post-mortem

A pesquisadora Maria do Carmo Di Creddo

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, em artigo intitulado O Inventário

como fonte para a análise nas formas de riqueza social: reflexões sobre estudo de caso

(1996) ressalta o inventário como fonte valiosa para a apreensão e análise nas formas de

riqueza social. Importa destacar que os inventários permitem reconstruir parte da

história fortuna pessoal e familiar, envolvendo gênese, partilha e aquisição de bens

imóveis e semoventes. Esse tipo de fonte constitui-se, segundo Di Creddo,

No testemunho de uma realidade complexa e permite [...]

compreender as mudanças nas formas de riqueza social, como por

exemplo o escravo, que num determinado período representa a forma

tradicional de riqueza...identificar os personagens, explicitar seus

troncos familiares e acompanhar sua trajetória de vida, em períodos

históricos diferenciados. [o inventário] possibilita ao historiador

recortar as origens da formação da grande propriedade rural num dado

período histórico

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.

Os inventários post-mortem compulsados no acervo do arquivo do Tribunal de

Justiça de Mato Grosso do Sul acerca das propriedades da região de Santana de

Paranaíba dispõem, entre outros elementos, dados sobre o valor das fazendas, relação de

valor do gado e terra, bens, instrumentos de trabalho e produção, quantidade de gado e

90

Ibid, p. 146.

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BACELLAR, C. Fontes documentais: uso e mau uso dos arquivos históricas, p.29.

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DI CREDDO, M. C. O, Inventário como fonte para a análise nas formas de riqueza social: reflexões

sobre estudo de caso., p. 11.

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cativos, núcleos de produção da escravaria etc. Trata-se de universo pouco conhecido,

emergido dos fragmentos extraídos da documentação examinada.

Depois do exercício metodológico envolvendo arrolamento e seleção desse

material (manuscrito) passamos a realizar a leitura paleográfica (decifração, a datação

de textos, a atribuição de lugar de origem e interpretação) para então passarmos ao

procedimento de transcrição. O cotejamento desse material permitiu arrolar fazendas da

região, proprietários e a utilização do braço escravizado na faina pastoril e agrícola,

invariavelmente ao lado dos trabalhadores livres.

CAPÍTULO 2.

SANTANA DE PARANAÍBA:

APOSSAMENTOS DE TERRAS, CONQUISTAS E CONTRADIÇÕES

[...] Intrépidos sertanistas, mais ou menos abastados, pois nele [no

sertão santanense] entraram com numerosos carros de bois,

conduzindo grande carregamento de víveres, ferramentas para o

trabalho, escravos, animais cavalares e vacum, a fim de se dedicarem

à lavoura e à criação. José Garcia, homem resoluto, de gênio

empreendedor, de rara coragem e valor, internou-se desde logo para o

vasto sertão descobrindo e apossando-se de extensas terras com

excelentes campos de criar e matas de cultura, assinalando treze

posses, uma para cada um dos treze filhos que o acompanhavam. Foi

então que o intrépido Capitão José Garcia Leal resolveu apelar para o

governo da província de Matto Grosso empreendendo pela primeira

vez dificílima viagem por sertões ainda desconhecidos, habitados

somente pelos selvagens e sem caminho até Cuiabá!

Justiniano Augusto de Salles Fleury, 1895.

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Centradas na figura imaginária do pioneiro [produções orientadas pela

ótica dos expansionistas] deixam de lado o essencial, o aspecto trágico

da fronteira, que se expressa na mortal conflitividade que a

caracteriza, no genocida desencontro de etnias e no radical conflito de

classes sociais, contrapostas não apenas pela divergência de seus

interesses, mas, sobretudo pelo abismo histórico que as separa.

José de Souza Martins, 1997.

95

94

FLEURY, J. A. S., O descobrimento do sertão e fundação da povoação de Sant’Anna do Paranahyba,

1925.

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2.1 Mito fundador

O estudo da ocupação do sul do planalto do antigo Mato Grosso, em geral, e do

Sertão dos Garcia (Santana de Paranaíba) em especial exige um mergulho no tempo

buscando suas origens históricas. Essa busca envolve as determinações econômicas,

sociais e políticas dos seus acontecimentos históricos considerando os processos de

mudanças ao longo do tempo. Entretanto, no processo de construção do discurso

histórico sobre esse objeto dois aspectos não escapam de nossa análise: o primeiro

refere-se à identificação das ideologias inseridas nos processos temporais, o que ajuda

explicar a estreita relação entre poder familiar e estruturas de poder, movimento

norteador de grande parte da formação histórica da sociedade brasileira.

O outro aspecto relaciona-se à reflexão sobre os mitos fundadores emanados da

sociedade em questão. A esse respeito Marilena Chauí (2000), explica que os mitos

fundadores podem ser atribuídos a um passado imaginário mantido intenso e manifesto

ao longo do tempo: “a fundação visa a algo tido como perene (quase eterno) que traveja

e sustenta o curso temporal e lhe dá sentido [...] aparece como emanando da sociedade

(em nosso caso, da nação) e, simultaneamente, como engendrando essa própria

sociedade (ou a nação) da qual ela emana”

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.

Entendemos que surgimento do mito fundador de Santana de Paranaíba remonta

ao passado do universo social e econômico mineiro, mais precisamente ao Triângulo

Mineiro, área conhecida como Sertão da Farinha Podre, situada entre os rios Grande e

Paranaíba, formadores do rio Paraná. Essa porção, ocupada primeiramente por nativos

caiapós e muito disputada entre os governos de Goiás e Minas Gerais, por muito tempo

se caracterizou como dinâmico pólo minerador e como importante área provedora de

gado para o Rio de Janeiro e de abastecimento do oeste brasileiro. Mas, com

esgotamento das minas locais, a população se dispersou e muitos arraiais daquela região

perderam o dinamismo e se se transformaram no núcleo irradiador de povoadores.

Algumas obras de cunho memorialístico e alguns relatos construídos com base

na tradição oral analisam que as famílias ocupantes de Santana de Paranaíba e dos

Campos de Vacarias no Planalto sul de Mato Grosso teriam saído de Minas Gerais na

terceira década do século XIX graças ao enfraquecimento da exploração do ouro

mineiro. Uma questão de terras disputada com os irmãos Silva em Minas Gerais teria

determinado o deslocamento da família Garcia Leal para o sul de Mato Grosso.

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No livro Santana de Paranaíba, Campestrini refere-se à trajetória da referida

família algumas décadas antes dela alcançar os sertões de Mato Grosso. José Garcia

Leal nasceu em Lavras (MG), a cinco de abril de 1786, era filho de João Garcia Leal e

Maria Joaquina do Espírito Santo. O casal teve os seguintes filhos: Eufrásia Garcia

Leal, nascida em 1784; José Garcia Leal, nascido em 1785; José Pedro Garcia Leal,

nascido em 1786; Joaquim Garcia Leal, nascido em 1790; Januário Garcia Leal

Sobrinho, nascido em 1792; João Pedro Garcia Leal, nascido posteriormente a 1792

(data imprecisa).