CAPÍTULO 3: COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS
3.3 Frameworks socioemocionais
3.3.2 CASEL Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning
Ainda nos Estados Unidos da América, os encaminhamentos descritos no tópico sobre alguns programas pioneiros para desenvolvimento das competências socioemocionais na escola desembocam na preocupação de pesquisadores, educadores e outros profissionais de compreender com mais clareza quais são os critérios que fazem com que um programa dê certo, que institua o que se propõe fazer, de fato. De acordo com
Greenberg e parceiros (2003), alguns programas, embora fossem considerados bons, não tinham êxito, pois eram aplicados de maneira desarticulada com outras ações e com o pessoal da escola, sem um bom planejamento e sem avaliações que trouxessem evidências de sua eficácia. A preocupação de muitos profissionais resultou em uma reunião no Instituto Fetzer (Michigan, EUA) em 1994, onde educadores, pesquisadores e agentes sociais se empenharam em promover estratégias para o desenvolvimento positivo das crianças e adolescentes, incluindo competência social, inteligência emocional, prevenção às drogas e à violência, educação sexual, promoção da saúde, educação de caráter, aprendizagem em serviço, educação cívica, reforma escolar e parceria entre família, escola e comunidade.
Um dos resultados dessa reunião foi o nascimento do termo aprendizagem socioemocional, em inglês, social and emotional learning (SEL7), concebida em um quadro
conceitual que abordaria as necessidades dos jovens, no âmbito das propostas fragmentadas acima, ao mesmo tempo em que apoiaria o desempenho acadêmico dos alunos e alunas (GREENBERG et al., 2003; DURLAK et al., 2015). Outro marco importante de tal reunião foi a criação de um grupo colaborativo que iria centralizar esforços no sentido do mapeamento e produção de pesquisa para a aprendizagem socioemocional, de que surge o CASEL – Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (CASEL, [2019b]), tendo como objetivos iniciais:
1. Aumentar a consciência de educadores, formadores de profissionais escolares, comunidade científica, responsáveis políticos e o público em geral sobre a necessidade e os efeitos de esforços sistemáticos para promover a aprendizagem social e emocional (SEL) de crianças e adolescentes.
2. Facilitar a implementação, avaliação e aperfeiçoamento de programas de educação socioemocionais abrangentes, começando na pré-escola e continuando até o Ensino Médio. (ELIAS et al., 1997, p. viii, tradução nossa)
Mais de vinte anos depois, o CASEL testemunhou o que se pode chamar de explosão de programas SEL: antes um campo que carecia de materiais para comprovação
de eficácia, reúne em sua plataforma mais de 500 instrumentos avaliativos (DURLAK et al., 2015). O grupo, o qual pode ser considerado um importante marco no campo das competências socioemocionais, acabou se tornando referência para programas escolares para esse fim, como veremos nos artigos avaliados neste estudo, atuando de maneira colaborativa, ofertando pesquisas e recursos para escolas e outras instituições que queiram trabalhar com aprendizagem socioemocional. Dentre seus fundadores, encontram-se os já citados Maurice Elias, Joseph E. Zins, Timothy P. Shriver, Roger P. Weissberg e Daniel Goleman, entre outros. Consta no site do órgão que a missão do CASEL é “[...] ajudar a tornar a aprendizagem social e emocional baseada em evidências (SEL) uma parte integrante da educação desde a pré-escola até o ensino médio.” (CASEL..., [2019a]). Existe uma infinidade de pesquisas, relatórios e atividades disponíveis nesse site. Ao reunir os programas que tinham evidência de êxito, o CASEL trouxe à tona características que unem diversos programas, de forma a enfatizar que a aprendizagem socioemocional acontece de forma sistêmica em cinco grandes pilares, a saber (CASEL. Approaches...):
• Autoconsciência: a capacidade de reconhecer e julgar as próprias emoções, pensamentos e valores e como eles influenciam o comportamento. A capacidade de avaliar com precisão as próprias forças e limitações, com um senso de confiança bem fundamentado, otimismo e uma "mentalidade de crescimento";
• Autogestão: capacidade de regular com sucesso as próprias emoções, pensamentos e comportamentos em diferentes situações – gerenciando com eficiência o estresse, controlando os impulsos e motivando a si mesmo. A capacidade de definir e trabalhar para objetivos pessoais e acadêmicos;
• Consciência social: a capacidade de ter a perspectiva e a empatia com os outros, incluindo aqueles de diversas origens e culturas. A capacidade de compreender as normas sociais e éticas para o comportamento e de reconhecer os recursos e apoios da família, escola e comunidade;
• Habilidades de relacionamento: capacidade de estabelecer e manter relacionamentos saudáveis e gratificantes com diversos indivíduos e grupos. De se
comunicar claramente, ouvir bem, cooperar com os outros, resistir à pressão social inadequada, negociar o conflito de forma construtiva e procurar e oferecer ajuda, quando necessário;
• Tomada de decisão responsável: a capacidade de fazer escolhas construtivas sobre comportamento pessoal e interações sociais, com base em padrões éticos, preocupações com segurança e normas sociais. A avaliação realista das consequências de várias ações e uma consideração do bem-estar de si mesmo e dos outros.
É clara a aproximação do modelo do CASEL com aquele publicado por Daniel Goleman, nem sempre da mesma forma, mas as aproximações se encontram em contexto. Por exemplo, o modelo da inteligência emocional destaca o domínio da motivação e, embora não explicitamente, ela se encontra dentro da competência autogestão do CASEL. O mesmo acontece para a empatia, que está dentro da competência de consciência social. O vácuo ficaria a cargo da competência tomada de decisão responsável do CASEL, para a qual não encontramos sintonia no modelo da inteligência emocional. Uma postura assertiva no framework do CASEL está na justaposição de dimensões nas quais tais competências devam estar envolvidas; a mais próxima se refere ao trabalho curricular com tais competências, a segunda dimensão envolve o clima da escola como um todo e a terceira e última entende que tais competência devem também estar em contato com familiares e comunidade extraescolar.
Conforme o CASEL, a aprendizagem socioemocional está diretamente relacionada às competências presentes em seu sistema:
[...] é o processo pelo qual crianças e adultos adquirem e aplicam efetivamente os conhecimentos, atitudes e habilidades necessárias para entender e gerenciar emoções, estabelecer e alcançar objetivos positivos, sentir e mostrar empatia pelos outros, estabelecer e manter relacionamentos positivos e tomar decisões responsáveis (CASEL, 2015c, p. 5, tradução nossa).
O CASEL reúne muitas propostas de programas que nasceram de origens e motivações diversas, contudo, salienta que, se tais programas operam na perspectiva do
quadro de competências apresentado por ele, terá chance de êxito. Outras são as condições que o grupo entende serem necessárias para que um programa dê certo, as quais serão apresentadas no capítulo sobre características de programas escolares que sustentam as competências socioemocionais com eficácia.