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Caso de Estudo 18 – Complexo Habitacional Olaias (1982)

No documento A casa como reflexo da sociedade (páginas 103-107)

3 Casos de Estudo

3.5 Novos Bairros

3.6.2 Caso de Estudo 18 – Complexo Habitacional Olaias (1982)

Fig. 57. Complexo Habitacional Olaias. Fachada principal e traseiras, fotografias da autora.

Questões determinantes iniciais

O último caso de estudo pertence ao projeto do arquiteto Tomás Taveira, Complexo Residencial da Quinta das Olaias, prémio Valmor de 1982, atribuído apenas em 1984. Enquadra-se num período, entre o pedido da adesão de Portugal à Comunidade Europeia aceite (1978), e o tratado de adesão (1985). Este complexo

habitacional é desenvolvido em banda e tem tipologias T2, T3 e T4 em duplex. Os acessos verticais são compostos por dois elevadores e uma caixa de escada, cada núcleo destes dá acesso a dois fogos por piso. Para a análise que se segue, optámos pela tipologia T3 composta por três quartos, uma sala, uma cozinha e duas I.S.

Aspetos particulares analisados

Fig. 58. Complexo Habitacional Olaias, planta tipo, in Fernandes e Lacerda, 1985 : 7.

fig 59. Análises realizadas pela autora utilizando a fig. 58

Estrutura Distributiva do Fogo

Embora tenha esta análise sido feita com base na tipologia T3, o T2 segue exatamente a mesma organização e lógica. A entrada no fogo é feita para um hall (3.4mx2m), sendo que a divisão mais próxima é a cozinha. Todas as outras divisões são acedidas pelo hall, embora se possa verificar três níveis de proximidade à entrada do fogo. No primeiro nível, de carácter menos privado, há o acesso à cozinha, num segundo nível de privacidade há a entrada para um dois quartos e uma I.S., e para a sala, por fim num último nível de privacidade há a entrada para o outro quarto e a outra I.S.

Partição da Casa

Neste exemplo a percentagem maior de área útil é definida para o uso privado, ocupando assim 40%, o uso social ocupa 29%, e para os serviços são atribuídos 19% do total da AU. Há comunicação direta entre a cozinha e a sala, tanto através da partilha do espaço, como através da utilização de um passa-pratos. O fogo desenvolve-se perpendicularmente à banda, beneficiando assim das duas fachadas do edifício. À fachada de rua corresponde a zona pública da casa, enquanto à fachada tardoz corresponde a zona privada.

Elementos da Casa

Todas as divisões têm um vão exterior, à exceção das instalações sanitárias, são todas de peito, sendo que a sala é a divisão mais exposta ao exterior. A cozinha tem um espaço semiexterior, onde são utilizadas paredes exteriores perfuradas. As instalações sanitárias encontram-se próximo dos quartos, e centrais no fogo, daí não serem dotadas de vãos exteriores

Aspetos Arquitetónicos Relevantes

Este complexo é dotado duma expressão visual bastante forte, desde as cores, aos vãos em forma circular até à colocação de colunas técnicas no exterior. A composição visual de elementos geométricos, e a aplicação de três cores: verde, amarelo e rosa/magenta, consoante o tipo de elementos, confere ao edifício uma linguagem arquitetónica própria. Em planta as soluções apresentadas partilham a mesma lógica funcional, independentemente da tipologia. Analisando o fogo T3, a organização dos espaços remete automaticamente para a oposição público/privado, sendo a zona pública composta pela cozinha e a sala intercomunicantes entre si, e a zona privada pelos quartos e casa de banho. Volta a ser visível de alguma forma a oposição entre dia/noite em paralelo com frente/traseiras, a frente é usufruída pelas divisões “diurnas” – sala, cozinha, enquanto as traseiras são usufruídas pelas divisões “noturnas” – quartos. Este edifício acaba por unir conceitos e matrizes antigas com alguns ideais modernistas, dos conceitos antigos estão representados: distribuição dos fogos esquerdo/direito, oposição frente/fachada; de princípio modernista são notáveis: as tipologias em duplex, as áreas mínimas seguindo os ideais funcionalistas e a aproximação entre a cozinha e a sala.

3.7 Síntese

Após a análise linear caso a caso, podemos constatar alguns factos, agora de uma forma comparativa entre os dezoito exemplos, comparando áreas úteis, número e variedade de divisões, estruturas distributivas, e programa do edifício.

E visível uma redução significativa do número de divisões ao longo do tempo, tendo sido a aprovação do RGEU o momento de mudança. Os casos de estudo selecionados, até aos finais dos anos quarenta têm entre cinco a treze divisões, comparativamente com os edifícios habitacionais de tipologias entre T1 e T4 pós-RGEU. Além da diminuição do número de quartos e salas, as próprias divisões assumem áreas e expressões no fogo diferentes: nos exemplos anteriores ao RGEU, há divisões maiores e mais pequenas que assumem funções distintas consoante a localização no fogo; nos exemplos posteriores ao RGEU é clara a intenção de hierarquia entre sala/quartos. Esta distinção acontece por motivos económicos, na tentativa de reduzir os custos cumprindo com o regulamento, só poderiam existir divisões iguais se todas cumprissem as áreas mínimas para sala, resultando no aumento do custo.

A divisão da cozinha sofreu a alteração mais evidente, deixando de ocupar a extremidade do fogo e aproximando-se da entrada, e em simultâneo da sala, que mais tarde passou a acumular as funções de estar e comer. Acontece uma inversão entre cozinha/quartos, inversão essa que permitiu os quartos usufruírem das áreas mais privadas do fogo. A lógica da proximidade entre cozinha/sala de refeições e quartos/instalações sanitárias, manteve-se constante ao longo do tempo como matriz organizadora do fogo. Nos anos trinta foi introduzido o hall como elemento recetor, permanecendo atualmente nas habitações assumindo um papel primordial nos fogos.

Comparando os modelos familiares referidos anteriormente, é possível verificar uma materialização de alguns dos valores base, na organização do fogo. O primeiro modelo influência a separação sexual das divisões, deixando transparecer o nível secundário do papel da mulher, o segundo modelo – família fusão – transporta a centralidade e a união para a sala que passa a ocupar um papel principal na casa. Por fim, o terceiro e último modelo – família associação – mantém a centralidade da sala, assim como a independência dos quartos, mas não é evidente uma “marca” distinta deste modelo, pelo menos nos casos escolhidos.

4 Conclusão

No documento A casa como reflexo da sociedade (páginas 103-107)