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SUSTENTABILIDADE E GÊNERO: UM ESTUDO SOBRE MULHERES CATADORAS NA PERSPECTIVA DO

1.1 Catadores e catadoras e o desenvolvimento

Os catadores e catadoras de materiais recicláveis, conforme os estudos de Medeiros e Macedo (2006) desempenham um papel de extrema importância na atualidade, pois a matéria-prima, fruto do seu trabalho, é o ponto de partida para o abastecimento da indústria da reciclagem. Os benefícios ambientais gerados por essa atividade têm agregado visibilidade às pessoas que o realizam.

Conforme mencionado, esses trabalhadores/as são responsáveis por 90% do material passível a ser reciclado no Brasil. Vale destacar, conforme os dados da Cempre (2015) que dentre os materiais, o que apresenta maior índice de reciclagem e reaproveitamento no país é o alumínio. Em 2015, a Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) divulgou que 97,9% do total das latas de alumínio disponibilizadas no mercado brasileiro foram recicladas.

Partindo do contexto apresentado, os catadores e catadoras de materiais recicláveis são considerados importantes agentes ambientais ao aumentar o índice de coleta seletiva, dando andamento a uma cadeia sustentável com a possibilidade de reaproveitamento e reciclagem de produtos. Ainda nesse entendimento, Dias e Matos (2008) descrevem que essa atividade tem passado por um processo gradual que colabora para o reconhecimento dos catadores e catadoras como agentes ambientais. Isso se configura pelo fato desses trabalhadores/as promoverem ganhos ambientais, tais como a economia dos recursos naturais, diminuição de resíduos sólidos no meio urbano e nos aterros sanitários, a limpeza urbana, entre outros.

Entretanto, embora reconhecidos como agentes ambientais, esses trabalhadores/as sofrem uma infinidade de carências sociais e econômicas, fato que os constitui como a parte mais frágil da cadeia da reciclagem. Vale ressaltar que no Brasil, em 2002, a profissão de catador de materiais recicláveis foi regulamentada junto ao cadastro da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). No entanto, essa regulamentação não significou melhoria na atividade laboral desses agentes. Pelo contrário, segundo Bortoli (2009), o reconhecimento profissional não implicou em mudança nas condições de vida e trabalho dos catadores. Para o autor, esses agentes ambientais continuaram desenvolvendo essa atividade sem atributos legais de um trabalhador registrado formalmente.

Além disso, essa atividade continuou sendo desenvolvida sob extrema insalubridade e precariedade. No que se tange à precariedade, Barbosa (2007) aborda algumas condições que classificam esse trabalho como tal, por exemplo, pagamento por produção/serviço; extensas jornadas de trabalho; falta de garantias legais de estabilidade e proteção, de descanso e férias; condições insalubres; sem seguridade social e seguro-desemprego. Destaca-se que a maioria dos catadores e catadoras se enquadram nessas condições.

Dentro do contexto explicado, ressalta-se que esses fatores são agravados quando se trata do trabalho feminino no universo dos catadores. Segundo Ribeiro, Nardi e Machado (2012, p.252), “em um contexto de precariedade, as mulheres ocupam a margem mais precária e mais desgastante na cadeia produtiva da catação/reciclagem”.

Para Mendes (2002), a situação de precarização feminina em relação ao trabalho está associada às condições de pobreza, ou seja, essa precarização, no contexto do trabalho de catação que envolve homens e mulheres, segundo Antunes (1995), é reproduzida devido ao modo de produção capitalista que aumenta o desemprego e promove a exclusão, tanto do mercado formal de trabalho quanto do convívio social.

Diante do exposto, pensar os problemas referentes à crescente produção de RSU, bem como as precárias condições de trabalho enfrentadas pelas mulheres catadoras envolve refletir sobre o modelo de desenvolvimento no qual estão inseridas. Esse modelo é consequência de um modo de desenvolvimento capitalista, globalizado, incompatível com a sustentabilidade socioambiental, visto que incentiva o aumento da produção e do consumo, promovendo maior geração de resíduos sólidos, além de potencializar o setor informal e precário de trabalho, e alimentar diversas desigualdades sociais.

Para compreender tal modelo, é necessária uma discussão acerca do conceito de desenvolvimento. De acordo com Veiga (2008), o conceito de desenvolvimento apresenta abordagens distintas. Em seu livro “Desenvolvimento sustentável: os desafios do século XXI”, o autor classifica o desenvolvimento em três aspectos diferentes. No primeiro aspecto, o desenvolvimento é visto como sinônimo de crescimento econômico, medido pelo Produto Interno Bruto (PIB).

Esse pensamento apresenta uma relação direta entre industrialização e crescimento econômico, e, por conseguinte, desenvolvimento. Entretanto, o intenso crescimento econômico não se traduziu, necessariamente, em desenvolvimento. Isso pode ser constatado, pelo fato de o crescimento econômico não ter proporcionado maior acesso à saúde e à educação e a melhoria da qualidade de vida da população em geral.

O segundo aspecto apresentado por Veiga (2008) consiste na compreensão do desenvolvimento como uma ilusão, ou um mito, devido à

exploração econômica em detrimento das disparidades sociais. Um autor que aborda essa discussão é o economista e sociólogo Giovanni Arrighi em seu livro “A ilusão do desenvolvimento”. Em seus estudos, Arrighi (1998) apresenta a discrepância existente entre os países periféricos, ou seja, países mais pobres, os semiperiféricos conhecidos como “emergentes” e os países centrais que detém a grande riqueza mundial ressaltando que seria impossível estender os padrões de consumo dos países desenvolvidos ao resto da humanidade.

Para o autor é improvável que países periféricos, ou seja, países mais pobres ascendam à economia capitalista mundial, pelo fato de a riqueza se concentrar nos países centrais. Por esse motivo, o desenvolvimento é visto como uma ilusão, pois países periféricos, dentro desse modelo de desenvolvimento, nunca chegarão a ser desenvolvidos, na visão do autor.

Por último, Veiga (2008) afirma que o terceiro aspecto é o “caminho do meio”. Neste, o autor demonstra que o desenvolvimento não deve ser reduzido ao simples crescimento econômico, muito menos ser tratado como uma ilusão. Pelo contrário, nessa perspectiva o desenvolvimento está baseado em modelos que não ponham em risco os recursos naturais e estabeleçam melhores condições de vida para os indivíduos. Esse caminho propõe um novo paradigma para o desenvolvimento, pautado na combinação do crescimento econômico, da preservação ambiental e do desenvolvimento social.

Diante do exposto, ao retomar a abordagem acerca da realidade vivenciada pelas catadoras de materiais recicláveis entende-se que o modelo de desenvolvimento no qual estão inseridas e que é regida a indústria de reciclagem, é o primeiro aspecto proposto por Veiga, baseado na visão de crescimento econômico que manifesta pouca preocupação com a uma melhoria da qualidade de vida em geral, que produz concentração de riqueza e poder, gera fome, miséria, subjugação política e tecnológica, além de manifestar pouca preocupação com o meio ambiente.

Para que haja uma mudança nesse entendimento é necessário um novo paradigma de desenvolvimento, conforme o pensamento de Sachs (2009). O autor ressalta a importância de trabalhar esse termo na perspectiva sustentável. Segundo a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, “Desenvolvimento sustentável é aquele que busca atender as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações

futuras de atender suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991). Com isso, ressalta-se a importância de um desenvolvimento que aponte para uma sustentabilidade, tanto em seu aspecto ambiental quanto social.

Nessa direção, a sustentabilidade precisa ser pensada através de um desenvolvimento baseado na dimensão ambiental, com limites de consumo de recursos naturais e, na dimensão social, com maior equidade na distribuição de renda, melhores condições de vida e redução da desigualdade no acesso aos recursos e serviços.

Desse modo, Veiga (2010) afirma que o desenvolvimento precisa ser compreendido a partir do processo de expansão das liberdades. A perspectiva do desenvolvimento como liberdade parte da premissa de que a contemporaneidade atingiu um alto grau de riqueza, no entanto, ainda enfrenta antigos problemas, tais como: a persistência da pobreza, a fome, ameaças ao meio ambiente, a violação das liberdades políticas, entre outros (SEN, 2000). Desse modo, superar esses problemas é um aspecto central do processo de desenvolvimento, que passa a ser avaliado a partir da sua capacidade de eliminar as diversas privações vivenciadas pelos indivíduos.

Essa perspectiva é tratada pelo economista indiano Amartya Sen, em seu livro “Desenvolvimento como liberdade”. Para o autor, o desenvolvimento é baseado no processo de expansão das liberdades para que os indivíduos possam desfrutar melhores condições de vida, ou seja, a liberdade é o ponto central do processo de desenvolvimento.

Nesse entendimento, as liberdades compreendem capacidades básicas, ou seja, capacidade de se evitar desnutrição, fome, mortalidade precoce ou mesmo liberdades associadas ao fato de ser alfabetizado ou participar ativamente da vida política na sociedade, manifestando, portanto, a sua condição de agente (SEN, 2000).

Para Sen (2000), grande parte das pessoas tem suas liberdades negadas, devido à pobreza econômica, à carência de serviços públicos, a ausência de assistência social e até mesmo a negação de liberdades políticas e civis. Remover as principais fontes de privação de liberdade como pobreza e tirania, carência de oportunidades, negligencia de serviços públicos entre outros é o que requer o desenvolvimento.

Dentro desse contexto, pode-se relatar que a grande maioria das mulheres catadoras de materiais recicláveis vivenciam situações de vulnerabilidade social devido às privações de liberdade que enfrentam como, falta de acesso à educação, nutrição satisfatória, saneamento básico, assistência médica e garantia trabalhista. Essas diferentes formas de privação manifestam-se em desigualdades, injustiças sociais e revelam a falta de desenvolvimento no interior da sociedade. Além de colaborar para a não manifestação da condição de agente dessas trabalhadoras.

A condição de agente, também é um tema tratado por Amartya Sen, em seu livro “Desenvolvimento como Liberdade”. Primeiramente, é necessário explicar o significado do termo “agente” na perspectiva do autor para compreender a ideia da condição de agente. Para ele, o termo “agente” está relacionado ao indivíduo capaz de promover ações que possam gerar transformações sociais. Logo, a condição de agente é a liberdade e a responsabilidade do agir do indivíduo pertencente à sociedade motivada por condições instrumentais disponibilizadas pelo Estado.

Nessa perspectiva, o autor explica que a condição de agente das mulheres representa a oportunidade de crescimento e empoderamento na sociedade para que ocorra, então, a mudança social que surtirá efeitos no bem-estar e na vida das mulheres. Diante disso, para que se constitua a condição de agente das mulheres e sua emancipação é necessário que o Estado oportunize, por exemplo, saúde, educação, renda e trabalho.

Essa condição de agente cuja consequência seria um agir segundo valores livremente escolhidos capazes de provocar mudanças no ambiente, não é vivenciada, via de regra, pelas catadoras, pelo fato de serem excluídas de oportunidades e sujeitas a uma conjuntura que as priva de suas potencialidades, pois não possuem a liberdade de exercer plenamente suas capacidades.

Com efeito, a condição de agente muitas vezes é limitada pela tirania política, pela falta de oportunidade econômica, pela exclusão social, pela intolerância, motivo pelo qual as políticas de desenvolvimento consistem em se desfazer desses fatores externos (PINHEIRO, 2012). Conforme argumentou Sen (2000), devem-se eliminar as privações de liberdade daqueles que estão à margem da sociedade para que possam ter suas capacidades ampliadas.