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Catarse e Intenção

No documento Harmonia (páginas 196-200)

A catarse implica uma dimensão psicológica e sociológica, própria do homem racional; no processo criativo, o artista encontra uma auto-libertação, através da transformação das fantasias de desejos reprimidos; no processo perceptivo, o fruidor encontra uma recompensa, através do prazer estético; e, na recriação artística, é conseguida uma libertação das pulsões; assim, a percepção é uma inferência inconsciente, em antecipação cognitiva, confirmada pela experiência, coerente com o conhecimento memorizado e potenciada pela imaginação. O fenómeno da catarse é visto, na actual tese, e para benefício da arquitectura, como um factor de acção, segundo Aristóteles, como um volitivo acontecimento atribuído de intencionalidade racionalizável, e a partir de um desejo; a intenção pode ser acerca do impossível; com sentido orientador, é um potencial que necessita do acto deliberado; já a decisão é sobre o “que se julga poder vir a acontecer [...], anseia-se pelos fins, e decidem-se dos meios, [...] ansiamos por restabelecer a saúde, mas apenas decidimos aquilo através do qual viremos a obter saúde”; na intenção prévia a um agir prático, há a ideia favorável a uma prevenção em arquitectura, carecendo só de concretização; ora, no processo de pensamento racional, a partir de um estado mental de índole benevolente, a mera intenção apresenta-se como ética; pois, assim, “a decisão é louvada por escolher o que deve”. (Aristóteles, EN, III, 2, 1111b, 27 e III, 2, 1112a, 6)

Apesar de a catarse ser conhecida e ter tido aplicação desde a Antiguidade, para efeitos humanos, quer individuais quer colectivos, e com uma finalidade mística e religiosa, no entanto, são apenas os efeitos, com carácter científico, de ordem psicológica e de ordem sociológica, que interessam à presente tese; a catarse é a mais platónica das noções aristotélicas; na origem, é relacionada com os esotéricos mistérios dionisíacos e os herméticos mistérios de Elêusis, que utilizavam iniciáticos rituais de purificação; estas mundivisões místicas têm relação com a tradição órfica que é inseparável da já referida escola pitagórica; hoje verifica-se a consciente repristinação da catarse por via da neurociência.

capítulo VI – a catarse: recapitulação

3. Acção Resolutória

Concluindo, será crível que uma subjectiva experiência vivida “significa que a arquitectura” tem “um papel menor como tela de fundo das nossas actividades quotidianas e que ela o mais que pode é suscitar alguns ‘sentimentos’? E se tal é o caso, deve isso necessariamente ser assim?” (Norberg-Schulz, 1963: 22) A arquitectura não é neutra e influencia a vivência do ambiente; esse potencial psicológico, que nos faz verdadeiramente humanos, reflecte o potencial para a harmonia que é o mesmo potencial para a catarse; ora, se a arquitectura tem finalidade, então, provavelmente produz efeitos, e a eventualidade de estimular a reacção catártica; num bio-psíquico momento catártico, e “[e]nquadrada pela arquitectura, a tragédia é uma epifania [...] da existência humana”, e o espaço do teatro é “uma metáfora para o mundo e um modelo para a arquitectura”; numa potencial acção resolutória do conflito humano, esse “momento final de comunhão e catarse nas prévias incarnações da arquitectura convida o silêncio e comunica uma experiência de unidade”. (Pérez-Gómez, 2006: 51 e 141) A arquitectura é uma aliada na libertação, pois pode desbloquear sentimentos esquecidos; com uma qualidade de conciliação, a arquitectura “revela e evoca enquanto instila um sentido de esperança, crescimento e cura”; e no banal mas significativo quotidiano, pleno de contrários, ela tem a “capacidade de conectar as nossas almas a uma ordem divina”. (Pérez-Gómez, 2006: 107 e 136)

Suficiente, se agida com imaginação, a catarse esvazia de emoções abrindo espaço para a eventualidade; aí, é comparável ao corpo da arquitectura, que disponibiliza o seu valor de espaço vazio, para a realização de acontecimentos; na condição da existência humana, a edificatória revela a imanência do evento, na medida em que “a própria finalidade da vida é uma acção. [...] e a finalidade é de tudo o que mais importa”. (Aristóteles, Poética, VI, 1450a, 17-22)

Superada a dicotomia natura e cultura (cf. capítulo I) e conciliada uma díade, de harmonia e catarse, verifica-se o potencial transformador dessa unidade, de condição biunívoca, que pode permitir uma arquitectura com outro poder.

capítulo VII – o potencial catártico da arquitectura: intróito

INTRÓITO – O POTENCIAL CATÁRTICO DA ARQUITECTURA

No campo disciplinar da coisa edificatória, e da sua finalidade (teleologia), pode ser abordado o potencial catártico da arquitectura, no âmbito da problemática (cf. Questões Iniciais), que equaciona a relação arquitectura e homem, com a hipótese da sua possível acção na saúde e no bem-estar humanos; uma vez considerada a dimensão estética (e artística) da edificatória, é prognosticada uma benéfica disposição preventiva, como qualidade efectiva da arquitectura. O primeiro sub-capítulo (15) trata o efeito das artes, e respectiva aplicação, no pressuposto do potencial da arte para a prevenção e terapia.

O segundo sub-capítulo (16) trata o potencial da arquitectura, no pressuposto das qualidades da arquitectura para potenciar efeitos benévolos.

O terceiro sub-capítulo (17) trata a acção salutar e benfazeja pela arquitectura, no pressuposto de um seu potencial efeito de prevenção pró-terapêutica.

Numa pirâmide conceptual edificada pela quadratura, tríade, díade e unidade, podemos estabelecer uma via de prevenção e, provavelmente, de terapia para a criatura através da atmosfera da envolvente edificada que é a arquitectura; ora, esta é a modesta inovação da presente tese, que propõe, por comparação, uma adaptação da terapia pela arte para o campo da arquitectura, uma vez que esta nos proporciona com a sua presença, possíveis consequências benéficas. Se nós edificamos uma arquitectura que nos edifica (cf. capítulo IV), podemos esperar dessa relação uma qualidade passível da adjectivação catártica; como vimos antes, a harmonia e catarse (cf. capítulos III e VI) estão em concordância e plausível correspondência, de efeitos intercambiáveis, estéticos e éticos. Num reforço do seu juízo estético, a partir da voluptas como prazer da beleza, apreciada pelos seus efeitos psicossomáticos, o potencial da arquitectura pode ter atributos de índole catártica; significativamente, ao “rematar o Livro X [...], Alberti refere-se à finalidade da res aedificatoria” (Krüger, 2011: 690): para um “efeito [...] útil”, “não desprezemos a elegância da obra”. (Alberti, 1452: 690)

No documento Harmonia (páginas 196-200)