1. Coisa Mental
Aqui se trata os delineamentos (lineamenta) que, com a construção, compõem e garantem a intencional unidade que funda a praxis edificatória (cf. capítulo V). A operação de concepção dos lineamenta (projecto), não é pois dependente da matéria, tal como a construção, e revela uma vontade de acção transformadora por parte do arquitecto; referindo-se a uma composição de formas geométricas, de “entre as artes liberais são estas as que são úteis, ou [...] absolutamente necessárias ao arquitecto: a pintura e a matemática”. (Alberti, 1452: 618)
Segundo Alberti, o delineamento convoca a concinidade e demonstra que, para além da resolução da parte material e do programa funcional, a arquitectura é essencialmente forma; ele é “um processo, exacto e perfeito, de ajustar e unir entre si linhas e ângulos, afim de [...] delimitar e definir a forma do edifício. Ora é função e objectivo do delineamento prescrever aos edifícios e às suas partes uma localização adequada e proporção exacta, uma escala conveniente e uma distribuição agradável, de tal modo que a conformação de todo o edifício assente unicamente no próprio delineamento”; e, independente da matéria, é possível “projectar mentalmente todas as formas”. (Alberti, 1452: 145 e 146) Aqui temos o conceito do desenho como coisa mental, apelando ao poder de visualização prévia, a partir da imaginação; este fenómeno mental imaginativo, tão necessário também para a catarse, tem o poder de realçar efeitos reais. Tal como a disposição na edificatória, na pintura a composição é o método pelo qual “as partes das coisas vistas se resolvem em conjunto”; então, também em conexão, em arquitectura, a prévia concepção do “delineamento do arquitecto e a produção do edificado aspiram à coincidência” (Krüger, 2011: 65 e 72); ora, não são as linhas que fazem o lineamentum; na realidade, “é arquitecto aquele que, com um método seguro e perfeito, saiba não apenas projectar em teoria, mas também realizar na prática todas as obras”. (Alberti, 1452: 138)
2. Forma e Matéria
Através da unidade de uma conformação apropriada, o imaterial delineamento contribui “para a concinnitas da obra como um todo”. (Krüger, 2011: 146)
Em referência à dialéctica da matéria e da forma de Aristotéles, o delineamento é assim “a especificação arquitectural da forma aristotélica” (Choay, 1996: 81); o acto organiza a potência; “um edifício é um corpo que consta, como qualquer outro, de delineamento e matéria, sendo aquele o produto do pensamento, e esta obtida da natureza. [...] nenhum [...] é suficiente, [...] dê à matéria a forma do delineamento. [...] tem a coerência e a proporção das linhas entre si, como principal fonte e factor de beleza [...] apropriada”. (Alberti, 1452: 142)
Ao imaginar pois uma forma perfeita, antecipando soluções e evitando defeitos, para Alberti, o projecto está na base da nossa aprovação; e, extraído da mente, “de entre todos os actos, o mais completo é o de construir”. (Valéry, 1921: 117) O projecto é a decisão de uma promessa constante e durável que permite viver depois, a virtual vida que delineámos no princípio; desse modo, podemos “agir em contingência ou predizer o fim desde o início” (Clarke; in Fernie, 2006: 53); ora, ao serviço do homem, o projecto é “um meio para expressar pensamentos [...] uma ferramenta para planear e predição”. (Pérez-Gómez, 2006: 179)
De facto, o projecto consegue uma antecedência da forma sobre a matéria; os projectos são proféticos, anunciam “uma promessa arquitectural para o futuro, uma adivinhação na procura da vida boa”, respondendo bem a propostas e a “programas para uma melhor vida humana”. (Pérez-Gómez, 2006: 79 e 109) E o homem seria outra coisa sem essa capacidade bem aproveitada, ou sem esse apropriado agir racional e intencional, através do projecto de arquitectura; com o contributo do delineamento, a arquitectura como uma real congruência que delimita, providencia e circunscreve o enquadramento diário da vida; com o efectivo propósito de melhorar a actual vida humana, encara-se, no projecto, a intrínseca questão da “racionalidade do homem como a sua capacidade para perseguir um fim e ordenar a sua conduta”. (Agostinho; in Tzonis, 1972: 25)
capítulo IV – a unidade: os delineamentos
3. Programa e Projecto
O programa e o projecto são configuráveis pela aspiração da vontade humana e obedecem à tríade operativa da necessidade, da comodidade e da beleza; e, responsavelmente focados no comportamento e no significado, mais do que na função, o programa é uma âncora móvel e o projecto é uma raiz que fixa.
E eles são “obviamente uma proposta para as vidas serem vividas. O programa é [...] detentor de intencionalidade ética, vinculando uma visão de uma vida conduzida pelo ‘bem comum’ ”; ambos estão forçosamente ligados à edificação da vida e, por isso, temos a nobre “necessidade de ‘inventar’ um programa [...] mais conducente a uma vida poética”. (Ledoux; in Pérez-Gómez, 2006: 209) Segundo Charles Landry, numa argumentação bem fundamentada, com uma inata vontade de projecto, “sentimos que onde nós vivemos podia ser um lugar melhor”; devemos procurar um franco equilíbrio entre o real e o preferível, dado que isso pode ter como implicação, uma cascata de consequências nas vidas das pessoas; para a qualidade do lugar, a qualidade do projecto é essencial e o custo de um mau projecto é incalculável; há consciência do poder efectivo das boas práticas, que materializam as boas ideias, criando “aspirações desejáveis que [...] coincidam com a realidade corrente”. (Landry, 2000: xi e 157)
Por exemplo, em questões de violência, segurança, pobreza e exclusão social, urge saber como “o ambiente construído inspira ou esvazia”; com imaginação, as melhores “soluções estão aí para serem agarradas. [...] São as aplicações no mundo real que contam e isso modificará”. (Landry, 2000: 191 e 271)
A grande sedução acerca da arquitectura é que nós podemos configurá-la; mas não é suficiente imaginá-la, temos de a construir; ao conformar, o projecto não se torna irrelevante, proporciona bons atributos a uma arquitectura edificada, e, realmente, ele é uma maneira de pensar a edificação e a nossa vida; suportado bem, programaticamente, o projecto é o instrumento para configurar a vida boa, orientado para uma focagem dos valores éticos e dos valores estéticos, que faz aparecer a forma apropriada, gerando uma melhor prática (cf. capítulo V).
4. Vontade de Ordenação
Segundo Victor Papanek, numa argumentação bem fundamentada, na prática, o projecto estabelece a ordenação e a “sensação de maravilha, um sentimento de conclusão que [...] permite a satisfação profunda que provém apenas de levar uma ideia a bom termo e ao seu desempenho efectivo”; profeticamente “assim antecipamos muitos futuros possíveis”, ganhando deste modo o estatuto de “um contribuidor essencial para a sociedade”. (Papanek, 1995: 9 e 10)
Mas, com óbvia possibilidade de mudança, “o passo que vai do conhecimento à aplicação está cheio de dificuldades”. (Oliver; in Papanek, 1995: 144)
Para Español, a vontade ordenadora é uma das ideias motrizes de um projecto; se bem que haja “projectos que parecem oscilar entre a fascinação da ordem e o chamamento do caos”, porém, “não nos é possível projectar conscientemente a desordem. A ordem precária pode ser um objectivo difícil. A falta de ordem é, em todo caso, fruto da incompetência”. (Español, 2001: 179 e 181)
Segundo Alexander Tzonis, numa argumentação bem fundamentada, aquando da configuração do edificado, uma negligente “ignorância das regras [...] será castigada [...] enquanto que a sua obediência será recompensada”; num querer de ordenação racional, a partir de Alberti, e como um projecto de arquitectura, o delineamento firmou-se pois como “um processo consciente cuja meta era a adaptação de uma forma a um programa”. (Lethaby; in Tzonis, 1972: 47 e 119) Uma superação do estado natural para o estado cultural, levou à consequente passagem da necessidade para a comodidade; como solução, “trata-se de criar um produto que se ‘ajuste’ às exigências de utilidade, utilizando [...] recursos disponíveis”, pelo que, na visão redutora, o “objectivo da ‘eficiência estrutural’ foi substituído pelo da ‘eficiência funcional’.” (Tzonis, 1972: 121 e 125)
Na conjugação do conhecimento teórico e do saber prático, a boa ordenação é preventiva, ao catalisar a necessidade da regulação e a pertinência da unidade projectual; pois, “a que perigos devo fugir em primeiro lugar? Porque processo poderei suplantar tão grandes provações?” (Virgílio, Eneida, III, 344-379)
capítulo IV – a unidade: os delineamentos
5. Regulação no Projecto
Segundo Pierre Von Meiss, numa argumentação bem fundamentada, quanto à ordem projectual, “é sempre mais ou menos miserável ... mas [...] nós temos particularmente necessidade de ordem” (Tessenow); tal como na composição inerente aos temas musicais, a arquitectura baseia-se numa concepção em concinidade, com a feliz possibilidade de variação; na homogeneidade formal da arquitectura presente no Mediterrâneo, está bem patente a coerente força dos factores de unidade do conjunto; então, precisamente na sua “diversidade, a hierarquia é um poderoso meio unificador”. (Von Meiss, 1986: 43 e 55)
E, no projecto erudito, a “regularidade é omnipresente” e, o “que importa no fim, é a coerência e o equilíbrio entre os elementos” (Von Meiss, 1986: 64 e 76); há pois regras, como a antropomórfica simetria, que tem a conveniente qualidade resolutória da regularidade; ela oferece “uma satisfação de equilíbrio e o poder de criar com facilidade uma unidade que se destaca do resto do ambiente”; tal como os meios hierárquicos de axialidade e de centralidade, para Tessenow, a reguladora “simetria não exige ser perfeita”. (Von Meiss, 1986: 79 e 81)
O acto projectual tem “uma ética subjacente, o desejo de um ambiente melhor, de um edifício e de uma cidade mais justos, mais belos e mais acolhedores”; o regrado projecto exige uma solução, a “síntese clara, subtil e, sobretudo, muito mais simples do que são os numerosos problemas que ele procura resolver”; na realidade, o projecto é “um instrumento de procura do problema a colocar e não simplesmente a procura de uma solução!” (Von Meiss, 1986: 214)
Numa outra tríade pró-edificatória, de programar, projectar e produzir, apesar de as nossas capacidades poderem gerar consequências imprevisíveis e não desejadas, nunca poderemos duvidar do nosso bom potencial para configurar; com a intencionalidade resolutória e mais um método eficiente, os “planos não são nada. Planear é tudo”. (Eisenhower; in Knittel-Ammerschuber, 2005: 138) Se não reduzida, a unidade da arquitectura convoca uma resolução global; e, se a alma não é pequena, confiamos que o projecto vale a pena (cf. Pessoa).
6. Defeitos e Erros
No âmbito dos três elementos da tríade, e com a intenção do restabelecimento da harmonia da unidade, sempre que possível, as falhas devem ser evitadas; no delineamento, a reparação do defeito objectivo da natura, ou a correcção do erro subjectivo da cultura, exigem conserto ou restauro (cf. Alberti, Livro X). Segundo Aristóteles, o âmbito prático admite correcção; assim, na edificatória como terapia, e como “se encontravam, ocasionalmente, defeitos, procurámos saber de que forma se poderiam corrigir e reparar”; como uma prevenção, “são estes os defeitos que é necessário prevenir”. (Alberti, 1452: 142 e 347)
Há deformidades e erros “que vêm do arquitecto e há outros [...] que podem ser corrigidos pela arte e pelo engenho”; mas devemos dar atenção aos danos e perigos e “coisas inauditas, inesperadas, inacreditáveis, que a força prodigiosa da natureza [...] pode provocar, pelas quais o plano bem desenvolvido do arquitecto é adulterado e subvertido” (Alberti, 1452: 623 e 624); e, relacionado com esses possíveis danos, Alberti escreveu Theogenius, um diálogo “estóico, com uma função catártica, sobre aquilo que nos pertence e a indiferença a tudo o que está submetido aos ditames da fortuna”. (Krüger, 2011: 625)
Tal como um clima, o “que é defeituoso de origem e profundamente disforme sobre todos os aspectos não é susceptível de correcção”. (Alberti, 1452: 625) Mas a região, e a natureza e condição do lugar, “são susceptíveis de serem reparados”, tornando para os habitantes, um “lugar, de pestilento, em ameno”; para Alberti, a edificatória não é alheia à reparação de defeitos; pretende-se que a arquitectura esteja livre de erros, dando boa atenção “aos defeitos que não se podem prever mas se podem corrigir”. (Alberti, 1452: 677 e 687)
Quanto aos não desejados erros do apropriado há sempre a oportunidade de conserto e de melhoramento; se não prevenidos, responsavelmente o homem faz um esforço para remediar os efeitos e defeitos das suas decisões, e a digna acção de edificar, transforma-se na nobre reacção de restaurar; a correcção de erros também é antropocêntrica e, eventualmente catártica (cf. capítulo VII).
capítulo IV – a unidade: os delineamentos