A CATEDRAL NARRATIVIZADA
2. Catedral Notre-Dame de Paris, o monumento
A catedral de Nossa Senhora de Paris foi durante a segunda metade da Idade Média o lugar do mais alto clero da França, bem como o lugar em que eram realizadas as as cerimônias mais importantes dos reinados daquela época. Era o símbolo maior do apogeu da religião e da interlocução entre Monarquia e Igreja (SANDRON; ANDREW, 2013) naquela época. É difícil determinar de quem é de fato seu projeto arquitetônico, visto que ele foi idealizado por Maurice de Sully (1105/1120-1196), que também foi seu primeiro arquiteto, e continuou (incluindo as reformas), durante muitos séculos, com inúmeros outros arquitetos e mestres artísticos como, por exemplo, o pintor de vitrais Jacques Le Chevalier (1896-1986). A fim de fornecer uma visão histórica panorâmica de sua existência, vejamos os seguintes dados disponíveis no site da Catedral Notre-Dame de Paris (http://www.notredamedeparis.fr) e aqui sintetizados cronologicamente.
a) História do monumento
Anteriormente à construção de Notre-Dame, existia em seu lugar a Igreja de Saint- Étienne [Santo Estêvão] que foi demolida por se considerar que a população de Paris havia crescido e por causa disso fazia-se necessário edificar um prédio maior e mais moderno para acolher todos os fiéis que frequentavam a igreja, em razão da urbanização da época. Assim, à medida em que a catedral de Notre-Dame era construída, a igreja de Saint-Étienne era demolida e parte de suas pedras reutilizadas conforme a necessidade da nova construção. O ano de 1163 é tradicionalmente mencionado como o do assentamento da primeira pedra do monumento em presença do papa Alexandre III.
Do século XII ao início do século XIII, quatro grandes obras marcam a edificação: (1) a construção do coro (entre 1163-1182); (2) a finalização dos três últimos nervos e laterais da nave e também as tribunas (entre 1182-1190); (3) a edificação dos assentamentos da fachada (1190-1225); e (4) a galeria alta e as duas torres da fachada, além de modificação e alargamento das janelas e capelas laterais (entre 1225-1250). Todos esses quatro momentos foram dirigidos por arquitetos diferentes e que até hoje permanecem anônimos. Do final do século XIII ao início do século XIV, sucedem-se os trabalhos dos seguintes arquitetos: Jean de Chelles (1200-1265), Pierre de Montreuil (1200-1267), Pierre de Chelles (s/d), Jean Ravy (s/d), Jean le Bouteiller (s/d).
Entre os séculos XVII e XVIII, são feitas várias reformas na catedral a fim de agradar ao rei Luís XIII. Dentre essas modificações, uma das mais notáveis é a destruição dos vitrais da Idade Média a fim de serem substituídos por vitrais brancos. Além disso, durante a Revolução Francesa, mais de 28 esculturas foram destruídas na galeria dos reis pelos mais diversos motivos e, igualmente, com exceção da escultura de Maria, todas as outras esculturas do portal do claustro de Notre-Dame. Parte das esculturas destruídas foram encontradas – em particular os bustos dos reis – e estão hoje em exposição no Museu Nacional da Idade Média (Musée national du Moyen Âge).
Após a Revolução Francesa, Notre-Dame estava de tal modo degradada que os responsáveis por Paris fizeram uma campanha para destruí-la. É nesse momento que Victor Hugo publica seu romance (1831) em favor da restauração da catedral e apela à consciência patrimonial dos franceses. Com o sucesso dessa campanha por meio da literatura, pôs-se em marcha uma verdadeira força-tarefa para restauração, reforma e reconstrução da catedral. Os trabalhos desse período, que engloba praticamente todo o século XIX, ficou a cargo dos arquitetos Jean-Baptiste-Antoine Lassus (1807-1857) e Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879).
Essa época para a catedral pode ser resumida na seguinte frase de Viollet-le-Duc (1868, p. 14): “Restaurer un édifice, ce n’est pas l’entretenir, le réparer ou le refaire, c’est le rétablir dans un état complet qui peut n’avoir jamais existé à un moment donné14”.
Já no século XX, uma restauração dos vitrais não-figurativos foi feita por Jacques Le Chevalier, em 1965. Entre 1990 e 1992, houve uma restauração do grande órgão. Nos anos 2000, uma limpeza da faixada trouxe de volta a suposta cor das pedras da catedral. E de12 de dezembro de 2012 a 24 de novembro de 2013 se comemorou o aniversário de 850 anos do monumento que trouxe como grande surpresa para o público a restauração dos sinos da catedral para que o seu som fosse tal como o do século XVII, época em que os sinos da catedral foram inaugurados em sua versão definitiva.
Toda essa cronologia do edifício nos mostra suas mutações no tempo, bem como sua história. Ademais, a catedral Notre-Dame de Paris tem ao menos dois méritos que sobressaem: foi palco de importantes fatos históricos e é um significativo museu religioso, arqueológico e de arte.
b) A catedral como palco histórico
Notre-Dame de Paris foi palco histórico de vários eventos religiosos e políticos da história da França (PELLETIER, 2012).
Dos eventos religiosos podemos destacar: a conservação da coroa de espinhos de Jesus Cristo, depositada na catedral em 1229; a beatificação de Joana d’Arc (1909); o funeral de Paul Claudel (1955); as visitas dos papas João Paulo II (1980 e 1997) e Bento XVI (2008); e a cerimônia ecumênica pela morte dos passageiros do voo 447 Air France Rio-Paris (2009). Dos costumes religiosos próprios da catedral, desde 1835, acontecem todos os anos as Conférences de Carême de Notre-Dame [Conferências da Quaresma de Notre-Dame], verdadeiras aulas de iniciação ao cristianismo destinadas especialmente aos leigos na religião. Todas as conferências são posteriormente publicadas em forma de livro ou gravadas como registro documental do patrimônio intelectual pertencente à arquidiocese de Paris (HOMBERT, 2012).
Dentre os eventos políticos ali ocorridos, podemos citar: o coroamento de Henrique IV da Inglaterra em 1419; o casamento de Maria Stuart e Francisco II em 1558; a consagração de Napoleão Bonaparte como imperador em 1804; as cerimônias de homenagens nacionais
14“Restaurar um edifício não é recuperá-lo, repará-lo ou refazê-lo, é restabelecê-lo num estado completo que pode
[Charles de Gaulle (1970), Georges Pompidou (1974) e François Mitterrand (1996)]. Durante o período entre-guerras, a catedral foi espaço de abrigo de feridos e refugiados, além de local de encontro de muitos soldados enviados para a guerra. Na catedral, o general de Gaulle, assim como inúmeras personalidades importantes das forças armadas, esteve muitas vezes para ações de graças a favor do governo francês durante ritos religiosos católicos (BENOIST, 2012).
Alguns fatos civis marcaram a catedral, entre eles dois suicídios: o ensaísta Dominique Venner que ali se suicidou (em 21 de maio de 2013) diante do altar principal da Igreja e uma jovem intelectual mexicana, Antonieta Rivas Mercado que se matou no meio da nave principal da catedral em 11 de fevereiro de 193115. Dominique deu um tiro na cabeça e a jovem mexicana, no peito. Para além desses dois acontecimentos, um episódio muito conhecido é o chamado Escândalo de Notre-Dame.
O Escândalo de Notre-Dame foi uma manifestação anticlerical que ocorreu em 9 de abril de 1950 durante uma missa, protagonizada por membros do movimento Letrista (movimento artístico que visa ultrapassar a atividade criativa em busca dos brancos da vida humana [Kladologia]). Michel Mourre (1928-1977), disfarçado de monge, aproveita um intervalo dos ofícios da igreja para fazer uma pregação blasfematória, escrita por Serge Berna (s/d), sobre a morte de Deus. Como todos os ofícios da igreja à época (era domingo de Páscoa) estavam sendo transmitidos ao vivo pela televisão, o sermão atingiu inúmeros lares franceses e francófonos, além dos visitantes presentes no ato dentro da catedral. O grupo Letrista figurou inúmeros dias nos jornais que desdobravam o caso e repercutiam a história (MARCUS, 1990). Vale mencionar também que a catedral de Notre-Dame é percussora na transmissão de missa televisionada. Foi nela que houve a primeira transmissão de missa por uma emissora de televisão em 24 de dezembro de 1948, a qual deu origem posterior ao programa Le Jour du Seigneur [O Dia do Senhor].
c) A catedral como museu
Para além de monumento arquitetônico, Notre-Dame de Paris também é um museu religioso, artístico e arqueológico.
Como museu religioso, a catedral foi uma das primeiras instituições a avançar na pesquisa científica, em particular teológica, antes mesmo da criação da universidade na França.
A école Cathédrale [escola-catedral] ou école de Cloître [escola do claustro] existe desde a Idade Média, ensinava teologia, além de medicina, artes liberais e direito (GIRAUD, 2012). A escola colocava em ação a filosofia escolástica somada aos procedimentos didáticos de legere, disputare e praedicare [“ler, debater e pregar”]. Foi a responsável por preservar muitos escritos religiosos medievais, bem como partituras musicais e textos científicos, hoje disponíveis para consulta de estudiosos da Idade Média. A todo esse acervo intelectual juntam-se todos os objetos e as indumentárias religiosas guardados e disponíveis para o grande público na sala de visitação da Igreja: túnicas, alvas, amitos, casulas, dalmáticas, estolas, capas pluriviais, corporais, palas, sanguíneos, manustégios, tapetes, véus, ostensórios, cálices, turíbulos, anéis, crucifixos, jarras, ambulas, galheteiros, apagadores de velas, purificatórios, caldeiras, castiçais, aspersórios, etc. (PAULY, 2012).
Na qualidade de museu artístico, vale a pena mencionar as esculturas e pinturas que a catedral possui. As pinturas são como ícones religiosos que buscam em si um realismo na representação da cena cristã. Já as esculturas são trabalhadas ao estilo gótico e esculpidas como parte decorativa da arquitetura. Um destaque maior deve ser dado às esculturas com a temática de Nossa Senhora. Notre-Dame de Paris é a catedral gótica com o maior número e a mais variada execução de esculturas dedicadas à Virgem Maria. As esculturas narram desde cenas dos evangelhos (Bodas de Caná, Crucifixão, Fuga do Egito, Visita ao Templo, Visita a Isabel, etc.), passando por dogmas da Igreja católica (Dormição e Assunção de Maria), até relatos míticos (Infância de Maria e o milagre de Teófilo) (AUZAS, 1956).
Enquanto museu arqueológico16, entre 1965 e 1967 foram realizados no adro da catedral trabalhos de construção e melhoramento do espaço. Durante as escavações da construção foram encontrados vestígios medievais da cidade de Paris e traços da cidade de Lutécia (nome galo- romano de Paris na Antiguidade: Lutetia). A partir dos primeiros achados, o objetivo da escavação se tornou mais arqueológico do que urbanístico e, ao se encontrar mais ruínas e indícios do período Antigo, medieval e dos séculos XVIII e XIX, resolve-se preservar tudo o que foi encontrado no subterrâneo do adro de Notre-Dame e seus arredores. Logo, em 1980 criou-se o Museu da Cripta Arqueológica, que está aberto até os dias de hoje à visitação pública. Interessante notar que esse museu guarda evidências da antiga Igreja de Saint-Étienne, construção anterior a Notre-Dame, a que nos referimos acima.
Como foi possível ver, o monumento catedral Notre-Dame de Paris é um protagonista de importantes fenômenos artísticos, sociais e políticos da cidade de Paris e da própria França.
16 As informações foram consultadas e sumarizadas a partir do site do Museu Crypte Archeologique: http://www.crypte.paris.fr/fr/home.
Entretanto, convém mencionar que foi o romance de Victor Hugo que deu certo misticismo e sobrevida à história e à existência da catedral. Por isso, passamos a uma análise panorâmica do romance enquanto arte literária.