5 CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTÁGIO NA
6.3 CATEGORIA 3 – A RIGOROSIDADE NO DESENVOLVIMENTO DO
quais já foram apresentados no Capítulo 2 desta investigação. Existe uma preocupação com a qualidade formativa destes profissionais. Tais preocupações geram a publicação de diversos trabalhos com diferentes focos, que buscam evidenciar as diferentes facetas da formação docentes.
consideração do estágio como espaço de construção de saberes docentes e de construção da identidade profissional, em especial, em um curso de formação inicial na modalidade a distância.
Como já foi discutido no Capítulo 1, muito se pesquisa sobre a formação inicial de professores a distância, muitas críticas foram e ainda são apresentadas, mas pouco se fala sobre o que dizem os egressos sobre este tipo de formação, e mais, o quanto o espaço do estágio contribui para esta formação de qualidade.
Formar com qualidade, considerando o estágio supervisionado obrigatório como este espaço de construção de saberes e identidade profissional, implica saber como este espaço foi idealizado e colocado em prática. Sobre isso, o Capítulo 4 buscou demonstrar estes aspectos. Agora é necessário verificar como os Egressos 1, 2 e 3 viveram estes momentos.
O estágio é um ponto nevrálgico nos cursos de formação de professores. Zabalza (2014) relata que fazer estágio não é fazer qualquer coisa, mas continuar aprendendo fora da universidade. Ele afirma também que fazer estágio é encontrar a profissão e suas práticas.
Se realizar um estágio não é fazer qualquer coisa, mas continuar aprendendo fora da universidade, fica evidente que será necessário ter rigor com as atividades que precisarão ser realizadas, desde o conhecimento por parte do aluno que o estágio obrigatório faz parte da carga horária do curso que ele escolheu fazer, e neste caso, o Curso de Pedagogia, até todos os passos que são exigidos para a sua concretização.
Ao longo da pesquisa foi possível verificar e constatar que a instituição investigada preza por esta rigorosidade, desde a elaboração do seu PPC, até o desenvolvimento de todos os materiais e recursos (materiais e humanos), necessários para a realização do estágio obrigatório.
Outra preocupação que ficou evidente na pesquisa, foi a rigorosidade em relação ao acompanhamento dos estagiários ao longo de seu processo formativo, no que se refere ao desenvolvimento deste momento de formação. Os Egressos 1, 2 e 3 relataram que a cobrança por meio das discussões, das atividades desenvolvidas nas aulas-atividades, nas leituras semanais, nos fóruns e nas outras interações, via mensagens e por telefone, foram fundamentais para o seu desenvolvimento profissional.
Muitas realizações pedagógicas tiveram seu ponto de partida lá, na minha formação. (Egresso 1)
Às vezes, eu ficava meio irritado com tanto papel para preencher, mas depois, no final valeu a pena. Uma coisa que sempre me dava medo, era a devolutiva dos relatórios, nunca a nossa reflexão era suficiente. A professora sempre questionava alguma coisa que eu colocava no relatório. O pior é que ela tinha razão. Isso me fazia pensar sobre o que tinha feito e realizado do estágio. [...] Eu achei, muitas vezes, o estágio meio burocrático, mas, aos poucos, no decorrer das aulas, com as discussões feitas, ficava mais interessante. (Egresso 2)
Uma das coisas que aprendi nas aulas de estágio foi de como devemos nos esforçar para realizar nosso trabalho e a me questionar sobre o mesmo, pois em cada trabalho e atividades que realizávamos, nas nossas respostas e nas aulas vinha um questionamento das nossas ações. [...] Confesso que em alguns momentos ficava chateada com as idas e vindas do relatório de estágio. Era um trabalhão fazê-lo. Eu não entendia o que tanto a professora me questionava nos relatórios. Eu pensava: "Ela não gosta de nada, mas depois compreendi que isso era muito necessário, suas orientações nos enriqueciam. Ela buscava retirar o nosso melhor, com seus inúmeros questionamentos, nos fazendo crescer profissionalmente. (Egresso 3)
Nota-se nos relatos que a preocupação constante dos professores/tutores era a de que estes futuros professores tivessem competência pedagógica, para desenvolver sua prática de maneira consciente. Para Gilberto (2013):
O desenvolvimento da competência pedagógica pressupõe o conhecimento do processo centrado no sujeito, e tem como objetivo o desenvolvimento da autonomia como princípio norteador da aprendizagem, além do desenvolvimento da criticidade. Isso, porém, não significa ausência de tensões no ensino e aprendizagem a distância, tendo em vista que, embora trabalhe no coletivo, o professor também tem a oportunidade de atuar individualmente, na orientação dos alunos que apresentam dificuldades na compreensão dos conteúdos ou que não conseguem acompanhar o ritmo dos cursos. (p. 284-285)
Embora os relatos dos Egressos 1, 2 e 3 evidenciem certo desconforto com as cobranças das professoras/tutoras que atuavam com a supervisão do estágio, tal rigorosidade fazia parte do movimento necessário, objetivando provocar o amadurecimento do processo reflexivo. Mesmo este processo sendo centrado no sujeito, ou seja, nos estagiários, em seus registros e depoimentos nas interações já descritas, o esforço das professoras/tutoras supervisoras era fazer com que os estagiários saíssem de sua zona de conforto para o desenvolvimento de um posicionamento crítico em relação ao que tinha sido vivido no período do estágio obrigatório.
O desenvolvimento de uma prática docente que almeja sucesso no processo de ensino e aprendizagem exige uma rigorosidade metódica. Esta, por sua vez,
deve evidenciar uma proposta de ensino, que compreenda o estudante como sujeito curioso e que busca, de modo crítico, compreender o objeto do conhecimento.
Ainda nesse contexto, um professor deve ser um constante pesquisador, pois isso irá criar no seu aluno um processo de educação contínua, dentro e fora da escola.
Assim, as cobranças mencionadas pelos estagiários, nada mais são do que um caminho rigoroso de desenvolvimento de saberes necessários a uma docência crítica, que considera o aluno sujeito partícipe do processo de ensinar e aprender. Deste modo, um dos saberes necessários à prática docente é aquele que demonstra o respeito ao saber construído do educando, pois toda prática exige um conhecimento prévio, todo aluno traz consigo saberes culturais (populares) da prática do trabalho. O professor, respeitando estes saberes, aprende enquanto ensina.
Nota-se, então, nos relatos, que as professoras/tutoras supervisoras do estágio obrigatório ao questionarem pontos específicos dos relatórios de estágio, buscam uma reflexão crítica, contextualizada, fazendo com que eles desenvolvam um olhar e uma escuta sensível para o cotidiano escolar:
A esse respeito, cabe mencionar Freire (1996):
Uma de suas tarefas primordiais (do professor) é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com que devem se “aproximar” dos objetos cognoscíveis. E esta rigorosidade metódica não tem nada que ver com o discurso bancário meramente transferidor do perfil do objeto ou do conteúdo. É exatamente neste sentido que ensinar não se esgota no tratamento do objeto ou do conteúdo, superficialmente feito, mas se alonga à produção das condições em que aprender criticamente é possível. E essas condições implicam ou exigem a presença de educadores e de educandos criadores, instigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e persistentes. Faz parte das condições em que aprender criticamente é possível a pressuposição por parte dos educandos de que o educador já teve ou continua tendo experiência da produção de certos saberes e que estes não podem a eles, os educandos, ser simplesmente transferidos. Pelo contrário, nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo. Só assim podemos falar realmente de saber ensinado, em que o objeto ensinado é apreendido na sua razão de ser e, portanto, aprendido pelos educandos. (p. 13, grifo nosso)
Essa leitura crítica desencadeada por meio do modo como a realização do estágio obrigatório foi desenvolvida ao longo do curso, das orientações e
supervisões, almejaram que o estagiário pudesse, aos poucos, desenvolver um perfil de profissional, que tem um posicionamento crítico e político em relação ao mundo e ao ato de educar. Além disso, os objetivos destas práticas rigorosas nas orientações e supervisões buscavam o desenvolvimento da consciência de que estes posicionamentos precisam fazer parte da sua prática docente, rejeitando a ideia do ensino bancário, dando-lhe concretude para que eles sejam capazes de ensinar e aprender dentro e na realidade do educando, pois “[...] ensina-se a pensar certo através do ensino dos conteúdos” (FREIRE, 2006, p. 29).
Ainda em relação à rigorosidade para a realização do estágio, pelas falas dos Egressos 1, 2 e 3, percebeu-se que estes manifestaram até um determinado incômodo, pois eram necessárias refacções dos relatórios para que as reflexões fossem mais bem elaboradas e a construção de saberes pudesse ser evidenciada, a partir da construção de um texto autônomo e de autoria. Assim, evidencia-se mais um caráter da rigorosidade do estágio desenvolvido, a localização do saber entre o individual e o coletivo, conforme aponta Tardif (2003, p. 16). Para o autor é necessário: “[...] situar o saber do professor na interface entre o individual e o social, entre o ator e o sistema, a fim de captar a sua natureza social e individual como um todo”.