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4.6 CATEGORIA 6: OS SABERES DOCENTES EM DISCUSSÃO
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fato de que o sujeito da escrita é o sujeito agente, uma vez que não concordamos com a possibilidade de existir uma escrita autoral impessoal”.
Concluímos assim que a escrita dos professores é de nível pessoal, com marcas presentes na organização de textos acadêmicos, mas de uma menor presença. São textos que foram produzidos em um viés profissional de pesquisa em trabalho, mas não sendo possível desconsiderar a presença de características da sua pessoalidade e subjetividade, na hora de produzir seus textos de autoria.
profissional e ser social, nem “[...] com as suas relações com os alunos em sala de aula e com os outros atores escolares na escola, etc.”. Por este motivo, precisamos estudar e entender os saberes docentes junto a todos os elementos que constituem o trabalho docente. Entendem a docência não como uma atividade mecânica de transmissão de conhecimento, mas como ato político e social, de trocas constantes e construção diária de saberes. Vemos isso nas reflexões apresentadas pelas professoras:
A gente não se vê, infelizmente, a gente não se enxerga enquanto produtor de conhecimento. [...] Tardif, todos esses nossos saberes que eles foram se constituindo ao longo da nossa história enquanto professor, que passou enquanto aluno, nessa troca diária que a gente vai fazendo. Então, assim, a gente não pode esquecer que a gente é agente cultural, e que ser agente cultural é produzir conhecimento. Não dá para a gente separar – a gente não é só professor, a gente é professor e pesquisador. (Clara, transcrição de fala).
Professores sujeitos repletos de conhecimento e saberes específicos desenvolvidos no seu dia a dia de docência. No cotidiano de seu ofício o professor não realiza exclusivamente aplicação de saberes produzidos pelos outros. (Alessandra, trecho do portfólio).
Ao definir as tipologias de saberes, Tardif, Lessard e Lahaye (1991, p. 219-220) apresenta: a) os saberes profissionais, definidos como aqueles que são “[...]
transmitidos pelas instituições de formação de professores (escolas normais ou faculdades [...])”; b) os saberes disciplinares, que são aqueles que se integram na prática docente por meio da formação tanto inicial ou continuada, mas especificamente nas “[...] diversas disciplinas oferecidas pela universidade [...]”, sendo eles os saberes das disciplinas (ex.: literatura, matemática, história, etc.); c) os saberes curriculares, que “[...] correspondem aos discursos, objetivos, conteúdos e métodos [...]”, de acordo com o método e a cultura erudita selecionados pela instituição, que se definem na maneira que os “[...] professore(a)s devem aprender e aplicar” esses saberes; e d) os saberes das experiências, os quais “[...] incorporam- se à vivência individual e coletiva sob a forma de habitus e de habilidades, de saber fazer e saber ser”. Por fim, esses são os saberes da experiência ou da prática. Mas os autores alertam que a diferença entre eles está na maneira como cada professor faz uso deles. Sendo assim,
[...] os saberes das disciplinas curriculares e de formação profissional mantém uma “relação de exterioridade”, ou alienação, porque já os recebe determinados em seu conteúdo e forma [...].
Portanto esses conhecimentos não lhes pertencem, nem são
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definidos ou selecionados por eles. [...] Não obstante, com os saberes da experiência o professorado mantém uma “relação de interioridade”. E por meio dos saberes da experiência, os docentes se apropriam dos saberes das disciplinas, dos saberes curriculares e profissionais. (TARDIF; LESSARD; LAHAYE, 1991, p. 8).
Já segundo Tardif e Raymond (2000, p. 210), “[...] se o trabalho modifica o trabalhador e sua identidade, modifica também, sempre com o passar do tempo, o seu ‘saber trabalhar’”. Com as tipologias dos saberes, conseguimos entender que os mesmos são provenientes de diferentes formas de interações e estudos acadêmicos e profissionais. Quando os professores vão desenvolver o ofício da docência, vemos que os mesmos precisam organizar os saberes a favor do trabalho que irão vivenciar.
Assim como os conhecimentos são adquiridos, eles também são construídos e reconstruídos à medida que os professores realizam as interações com os diferentes sujeitos pertencentes ao espaço social que os cerca. Ora são os alunos, em outras circunstâncias são os colegas de trabalho, além dos diálogos e relações estabelecidas com os familiares e responsáveis de seus alunos. Enfim, entre todos os envolvidos na comunidade escolar. E vai além disso, porque é ampliado nos diálogos e relações com os sujeitos pertencentes a suas vidas pessoais, ao considerar o professor como um sujeito integral. Podemos ver, no relato, o que a professora pensa sobre isso:
O estudo vai trazendo as experiências, os anos de magistério que vai aprimorando, vão ampliando nosso conhecimento. (Maria, transcrição de fala).
Acerca dos saberes dos professores, Tardif e Raymond (2000, p. 215), explanam um pouco mais sobre as tipologias. Em suas afirmações, os autores consideram que os saberes são provenientes de diferentes fontes sociais de aquisição, como os provenientes da “família, ambiente de vida, a educação no sentido lato etc.”, sendo que os classificam como saberes “pessoais dos professores”. Para exemplificar uma dessas influências, temos aqui apresentado um trecho de fala da professora:
[...] o meu pai tinha uma letra linda, né, eu acho que é por isso que eu gosto de escrever. Mas esse negócio dos diários que o Ed fala, meu pai falava muito isso, levava um monte de diário para casa. [...] meu pai era professor de educação física. Eu escolhi ser professora por causa do meu pai. (Nádia, transcrição de fala).
Já em relação aos saberes provenientes da formação profissional para o magistério, temos diferentes vestígios da influência destes estabelecimentos de formação de professores e de como se constituem as marcas na trajetória profissional dos mesmos, assim apresentado no relato abaixo:
Eu até achei que fosse ser uma leitura difícil de entender, porque uma vez eu peguei um livro dele e não consegui, achei a linguagem difícil...
Estava no meio da faculdade, então achei difícil, mas não é. É um texto que você precisa de bastante atenção, você precisa reler alguns parágrafos para você entender bem, mas não é difícil, não. (Ronilda, transcrição de fala).
Eu fiz licenciatura e na faculdade não sabia nem preencher um diário. Eu entrei numa escola a primeira vez que o primeiro ano de formado eu consegui dar aula, dei uma sorte lá e peguei umas aulas, e não sabia nem preencher o diário. Ainda bem que eu caí numa escola que os professores eram muito parceiros e foram ensinando, “faz assim, vai assim”. E eu sempre perguntei muito e fui aprendendo [...] em 2005 que eu saí para a faculdade que eu fui para a prática, aprendi muito, aprendi muito. (Edmilton, transcrição de fala).
Existe uma crítica muito grande sobre o equilíbrio entre os saberes que são desenvolvidos nas instituições superiores de ensino para a docência e os saberes da prática, como no relato acima. Será que o preenchimento do diário é um saber a ser aprendido na universidade? Sendo ou não respondida esta questão, de fato, este saber acabou sendo construído na vida desse professor pela prática do trabalho e pela socialização profissional.
Segundo Tardif e Lessard (2008, p. 267-268), “Quando se ensina, não se pode deixar sua personalidade no vestuário, nem o espírito no escritório, nem sua afetividade em casa”. Sendo assim, para os autores, o professor ultrapassa essa lógica de pensamento isolado e começa a ver esses fenômenos como inerentes ao processo do trabalho.
Vemos isso nos relatos abaixo:
Atualidade e as tentativas seguidas de impor aos docentes a tal da
“neutralidade” no processo educativo, o que é impossível. Segundo Tardif, o professor, ao exercer suas funções, não desvincula o ensino da sua identidade. Isso se deve ao fato que ele vivenciou experiências, teve diferentes interações ao longo de sua vida e constantemente suas práticas pedagógicas vão se modificando conforme novas situações.
(Ronilda, trecho do portfólio).
Hoje não se pode um professor que seja mero transmissor de informações ou que aprende no ambiente acadêmico o que vai ser ensinado aos alunos, mas um professor que produza conhecimento em sintonia com aluno. (Kátia, trecho do portfólio).
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O professor na sala de aula deve manter a calma diante de desafios que ultrapassam os muros da escola, mas como ele é o exemplo a ser seguido espera que esse profissional passe por todos os sentimentos e emoções e supere em nome de sua profissão. (Marcela, trecho do portfólio).
E como a Nádia falou, se perceber como agente cultural, que é a gente se apropriar disso. Ter consciência disso e a gente valorizar esse nosso saber, que é específico, que ele tem uma história, tem um peso, a gente tem contribuições de outras áreas, ok, que se somam, mas elas não têm um valor maior, não estão acima do nosso saber. (Clara, transcrição de fala).
[...] eu já tive aluno crítico. Era o Pedro Rian, a Lavínia. Eu tinha que estudar, porque eles assistiam muito Discovery, então eles traziam muitas coisas que eu, muitas vezes, não sabia. Então, a aula de ciências, história, geografia, atualidades, eu tinha que ir atrás, porque eles perguntavam. (Marcela, transcrição de fala).
A diversidade dos saberes dos professores é notória no estudo e na presença dos aspectos da pesquisa empírica aqui estudada nesta pesquisa-formação colaborativa. Vista a magnitude do potencial e as influências dos saberes no desenvolvimento profissional e na construção da identidade docente, podemos concluir com as grandes contribuições do aspecto crítico reflexivo presente nas convergências da dimensão pessoal e profissional destes professores, na solução de problemas na gestão de sala de aula e na discussão sobre os sucessos e problemas da escola.