3 CAMINHOS DA PESQUISA
4.4 CATEGORIA 4: PROFESSORES COMO AUTORES: REFLEXÃO E
novos conteúdos e os conhecimentos prévios quanto permita a situação. (Nádia, trecho de portfólio).
A professora em questão utiliza de uma narrativa reflexiva para organizar as ideias acerca do estudo realizado sobre o texto A prática educativa, de Antoni Zabala.
Visto que é uma organização pessoal de escrita reflexiva, nota-se que a mesma potencializa as suas reflexões em torno do entendimento sobre a temática explorada, mais especificamente sobre os processos de aprendizagem da teoria construtivista, abordados no texto, e acreditamos que isso consequentemente poderá impulsionar o desenvolvimento profissional da professora.
Sendo assim, a análise que envolve o nível de escrita pessoal, realizada pelos professores, não pode ser dissociada da dimensão acadêmica da pesquisa-formação colaborativa.
Por fim, o como cada professor organiza seus textos reflexivos nos portfólios auxilia uma lógica de desenvolvimento profissional notório, sustentado pelos relatos e transcrições apresentados em meio à dissertação.
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buscar alternativas, a fim de superar as dificuldades encontradas, pois o ato de pensar de maneira reflexiva é determinado pelo propósito que se pretende alcançar.
Segundo Freire (1979, p. 17), “[...] a primeira condição para que um ser pudesse exercer um ato comprometido era a sua capacidade de atuar e refletir”. A ação e a reflexão não podem se separar da práxis. Assim como existimos no mundo e com o mundo, não podemos transformá-lo se não atuarmos de maneira intencional nele. O ato de refletir deve ser exercitado no oficio da docência, como uma prática necessária, sendo reafirmado nas relações e nos sentidos que se vai firmando com o contexto atuado.
Freire (1967, p. 67) destaca particularidades do pensamento crítico reflexivo:
Se caracteriza pela profundidade na interpretação dos problemas.
Pela substituição de explicações mágicas por princípios causais. Por procurar testar os “achados” e se dispor sempre a revisões. Por despir- se ao máximo de preconceitos na análise dos problemas e, na sua apreensão, esforçar-se por evitar deformações. Por negar a transferência da responsabilidade. Pela recusa a posições quietistas.
Por segurança na argumentação. Pela prática do diálogo e não da polêmica. Pela receptividade ao novo, não apenas porque novo e pela não-recusa ao velho, só porque velho, mas pela aceitação de ambos, enquanto válidos. Por se inclinar sempre a argüições.
Apoiado nas características do pensar reflexivo discorridas por Freire, neste contexto de pesquisa-formação colaborativa, conseguimos notar, em alguns trechos das falas dos participantes de pesquisa, a grande preocupação com os problemas da profissão e da escola, como notamos nos trechos extraídos dos portfólios reflexivos:
A profissão professor, vai além de ensinar conteúdos, ele tem um olhar diferenciado na sala de aula, e para cada aluno esse indivíduo que realmente trabalha nesse setor é porque se sente realizada com sua função, faz a diferença na vida de algumas crianças, seja na aprendizagem no campo emocional, físico e algumas vezes auxiliando no campo familiar. (Marcela, trecho de portfólio).
Então nós só podemos ser produtores das nossas próprias ações futuras, por que não? Nós estudamos para isso, a gente se especializa e trabalha, e dentro da prática, e a prática reflexiva junto com a teoria.
(Nádia, trecho de fala).
De acordo com Alarcão (2003, p. 41), o processo de formação do professor reflexivo “[...] baseia-se na consciência da capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano como criativo e não como mero reprodutor de ideias e práticas que lhe são exteriores”.
O professor, no desenvolvimento do ofício, enfrenta dilemas diários, problemas reais, que afetam a carreira a curto e longo prazo. O pensamento reflexivo os auxilia
na hora de buscar alternativas viáveis para estes problemas e ele deve ser exercitado nos ambientes formativos de professores, visto que a escola é um grupo que pode discutir e traçar metas em comum em um espaço colaborativo, que tem como objetivo o melhor pela educação. Nesse viés, destaca-se a reflexão sobre a concepção de formação e o perfil de professor pesquisador apresentado pela professora:
Quanto à formação continuada, creio sim ser de fundamental importância, tanto para adquirir conhecimento, ressignificar o que já aprendemos para nos manter estimulados a sempre melhorar e qualificar nas suas aulas, buscando a melhoria constante, porém muitas vezes esbarramos em algumas limitações por excesso de burocracias que devemos cumprir em nosso papel de professor, ainda não pensei em uma sugestão, mas é algo que sempre temos que tentar diminuir e otimizar, o excesso de burocracia que nós professores temos que preencher. (Priscila, trecho de portfólio).
O professor reflexivo sabe sobre a assunção da sua corresponsabilidade, como essa professora, e é neste viés sobre esse pensar reflexivo do professor que, na hora de planejar suas aulas, precisa entender sua realidade e quais são os dificultadores e facilitadores na hora de ensinar, exercitando assim a reflexão. Semelhantemente, esse pensamento pode ser evidenciado nos estudos de Perrenoud (2002). Nessa perspectiva, segundo ele, o professor
[...] reexamina constantemente seus objetivos, seus procedimentos, suas evidências e seus saberes. Ele ingressa em um ciclo permanente de aperfeiçoamento, já que teoriza sua própria prática, seja consigo mesmo, seja com uma equipe pedagógica. O professor faz perguntas, tenta compreender seus fracassos, projeta-se no futuro; decide proceder de forma diferente quando ocorrer uma situação semelhante ou quando o ano seguinte se iniciar, estabelece objetivos mais claros, explicita suas expectativas e seus procedimentos. [...] Trata-se de uma relação com a sua prática e consigo mesmo, uma postura de auto- observação, auto-análise, questionamentos e experimentação.
(PERRENOUD, 2002, p. 44-45).
Os portfólios reflexivos, nesta pesquisa-formação, tiveram a chance e oportunidade de auxiliar os professores no estudo e exercício do pensamento crítico reflexivo, porque, de acordo com Rivera (2017, p. 50), desenvolver a escrita reflexiva
“[...] proporciona aos professores aprender sobre a estruturação e reformulação de seus pensamentos, bem como estabelecerem conexões entre os conceitos que aprendem e situações práticas”.
Nesta prática de escrita, exercitada pelos professores no universo de pesquisa estudado, notamos que os mesmos fizeram uso de diferentes pensamentos reflexivos críticos sobre as obras estudadas, as relações com suas práticas diárias, como
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podemos ver nos trechos abaixo, extraídos dos portfólios e que podem exemplificar o que é proposto pelos autores sobre o pensamento reflexivo:
Emancipação e a dominação. As classes dominantes têm tentado usar as escolas para atingir os seus mais diferentes objetivos. Quem recebe a escolaridade? O que o indivíduo recebe? Boa pergunta! [...].
Escola precisa ser lugar de acesso, lugar de aprendizagem, lugar de conhecimento, de amizade, de troca de saberes, lugar de gente feliz, que aprende e que ensina. Lugar de professores que refletem, questionam, de alunos que refletem questionam. (Alessandra, trecho de portfólio).
O professor não pode deixar que nossa profissão se resuma a simples
“técnicos”, e sim, intelectuais capazes de produzir transformações.
(Ronilda, trecho de portfólio).
Isso me faz refletir em alguns momentos que fiz a avaliação no intuito de elevar as experiências, da minha matéria, colocando pressão nas crianças para aprender e percebo que posso proporcionar um ensino de outras formas. [...] Depois de ler os textos ainda refleti que caso as pessoas errasse, eu poderia ter escolhido outra pessoa ou perguntar quem gostaria de responder. (Maxwell, trecho de portfólio).
Ensinar não significa repassar conteúdo, mas levar esse aluno a pensar, criticar, elaborar estratégias. (Kátia, trecho de portfólio).
“Reflexões filosóficas do educador”. Nós professores somos também um “modelo de conduta” e as exigências passadas na escola e as experiências passadas na escola exercem uma influência direta na vida deles. Se pusermos intenção nos nossos fazeres e nas nossas atitudes, estamos dando um passo a favor da melhoria do ensino, melhor dizendo, na qualificação. (Nádia, trecho de portfólio).
Segundo Freire (1977, p. 147), o que o move na hora de escrever, para seus camaradas, pequenos ou grandes textos, é o desejo e a intenção de “[...] provocar em mim, enquanto escrevo, nos camaradas, enquanto as leiam, uma reflexão crítica em torno de problemas concretos [...]”, aqueles que todos enfrentam no dia a dia da docência em busca da “reconstrução do país”.
Ver, nesta experiência de pesquisa e ao mesmo tempo formativa, os professores apresentando, tanto nos relatos em seus portfólios reflexivos quanto nos diálogos em grupo, argumentando acerca dos problemas da profissão, apresentando argumentos sobre os caminhos que podem trilhar, na busca de soluções reais para os problemas que afetam a escola e toda a educação, exercitando suas capacidades reflexivas na luta pelos problemas da sociedade, é o que caracteriza a participação efetiva e exitosa destes profissionais, que tem esperança e força para lutar.
E falando então nisso, do conhecimento poderoso, Nádia, o que a gente enquanto escola, enquanto Cidade Takasaki, teria que
determinar como conhecimento poderoso? [...] eu acho que deveria assim, “ah, não está indo bem?”. Não sei, você vai vir estudar no contra período, como se fosse um reforço, você vai fazer a turma do outro horário para ver se você aprende também, até aprender. Só vai sair quando aprender, ou senão porque tem um motivo maior.
(Maxwell, transcrição de fala).
Quando os professores participam de uma pesquisa-formação colaborativa, temos a oportunidade de ver os professores
[...] caminharem juntos rumo a metas comuns e baseadas no respeito mútuo, os professores não apenas se arriscaram em algo novo em termos de práticas, como também sentiram-se motivados a compartilhar com os seus pares as suas experiências vividas dentro dos seus respectivos espaços escolares, compreendendo tais experiências como elementos constituintes e contribuintes para uma constante construção de práticas inovadoras. Socializar não apenas o que deu bons resultados, mas principalmente o que não se efetivou na prática como previamente planejado, mostrou-se como um dos maiores desafios para os professores, antes acostumados apenas a terem contato com experiências de “sucesso”. (SANAVRIA, 2014, p.
260).
Por fim, notamos o quanto esta pesquisa-formação colaborativa conseguiu impulsionar as reflexões e o desenvolvimento da capacidade reflexiva e argumentativa dos professores, tanto no coletivo das discussões quanto no individual dos portfólios reflexivos.