CAPÍTULO 3 – ARTE QUADRINIZADA: O FUNCIONAMENTO DE
4.3. Categorias da comicidade segundo Freud
Freud, em seu célebre estudo “O chiste e sua relação com o inconsciente” (1905) afirma que o humor consiste numa “técnica”. Para ele, o que garante humor não é o conteúdo de uma piada ou chiste, mas seu modo de elaboração. Como o autor oferece uma contribuição original para a compreensão da comicidade, que pode ser articulada a uma abordagem discursiva do cômico, apoiamo-nos bastante nesse autor em nossas análises. Freud distingue três grandes subclasses da comicidade: o chiste, o cômico e o humor102; dedica a maior parte de seu estudo à análise do chiste, que é seu objeto central, mas não deixa de abordar as outras subclasses. Basicamente, Freud compreende a comicidade como
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Em alguns pontos de sua obra, o autor menciona também a ironia, que considera uma subvariedade cômica próxima ao chiste, mas do qual se distingue por utilizar a figuração pelo contrário. Voltaremos, mais adiante, a falar sobre a ironia.
um conjunto de processos psíquicos associados à liberação de prazer. Esse prazer, que
ajuda a confrontar as pressões sobre o psiquismo, é vigiado a todo instante pelo pensamento racional e por inibições sociais.
A subclasse do chiste [Witz] inclui as piadas e os jogos verbais que produzem comicidade. Entre os inúmeros exemplos dados por Freud, um dos mais emblemáticos é o que retirou do livro Estampas de Viagem, do poeta Heinrich Heine. Narrando a ocasião em que esteve com um milionário, o agente de loteria e pedicuro Hirsch-Hyacinth diz: “ele me tratou como a um dos seus, totalmente familionário [Familionär]103” (FREUD, 1905: 18). O chiste apresenta dois conteúdos: um conteúdo manifesto, correspondente à formulação “familionário”, condensação das palavras “familiar” [Familiär] e “milionário” [Millionär], e um conteúdo latente, não-dito, que, em outro contexto, poderia ser formulado nos seguintes termos: “ele me tratou como a um dos seus, de modo inteiramente familiar, ou seja, como o faz um milionário”, ou ainda: “A condescendência de um homem rico sempre tem algo de incômodo para quem a experimenta” (1905: 19). O modo condensado caracteriza a técnica do chiste. Por meio da “fusão” dos fonemas comuns às duas palavras, o locutor constrói uma expressão alusiva e sintética, chistosa. A princípio, “familionário” pode provocar desconcerto, parecendo uma formação lexical defeituosa e enigmática, mas, em seguida, com a “iluminação”, isto é, com o entendimento da palavra, produz-se o prazer e o riso como não aconteceria se a formulação fosse outra (1905: 14-5). Existe uma crítica à forma como o milionário trata os mais pobres, mas o que importa no chiste é a forma condensada pela qual ele a faz, o que lhe dá um caráter transgressivo e cômico.
Para que o Witz seja eficaz, as duas pessoas envolvidas devem se encontrar mais ou menos sob as mesmas inibições ou resistências internas, já que atua no sujeito uma censura em relação à palavra distorcida ou ao disparate. Da perspectiva discursiva, que assumimos, as duas pessoas mencionadas por Freud não correspondem necessariamente a dois falantes empíricos. Empiricamente, pode haver inclusive mais de um ouvinte, os interlocutores podem estar um frente ao outro ou, como no caso dos QH, um deles, o autor, nem está presente. O chiste tem como origem a palavra disparatada e o cancelamento das inibições a essa palavra. De forma paradoxal, o que chamamos de condições de produção e suas inibições ao mesmo tempo ameaçam e possibilitam o prazer chistoso, que não existiria
sem a censura. Além dessa condição básica, o chiste precisa ser dito e reconhecido como tal. Já em seu estado prévio, se o jogo de palavras escapou da vigilância racional, ele requer outra pessoa a quem possa ser comunicado. O prazer de quem formula só se completa com o riso do ouvinte/leitor para quem o chiste faz sentido. Implicando o outro que goze com ele, essa forma de comicidade é encarada por Freud como a mais social das manifestações do inconsciente.
Cumpre observar que o Witz não se dá sempre por meio de distorções verbais como a de Hirsch-Hyacinth, manifestando-se também por muitas outras formas de jogos com a língua104; porém, em todas as ocorrências, seu funcionamento implica os dois processos básicos do inconsciente: o deslocamento e a condensação, presentes também nos sonhos. Assim, Freud define o chiste como a contribuição do inconsciente à comicidade. Entre os chistes, o autor distingue os “inocentes”, que não têm o propósito de ataque ou crítica, dos que o têm, aos quais chama de “tendenciosos”. Nesta categoria diferencia os seguintes tipos: obsceno, agressivo, cínico e cético. Esses chistes, servindo a tendências agressivas, se contados a alguém que não queira ouvi-los, podem ser perigosos. Um exemplo de chiste tendencioso é o do membro da realeza alemã que, viajando por suas possessões, vê um estranho na multidão que acha fisicamente muito parecido consigo e lhe pergunta: “Sua mãe esteve alguma vez no palácio?” Ao que o estranho lhe responde: “Não; foi meu pai.” (FREUD, 1905: 66, 98-9).
De acordo com Freud, a réplica chistosa, nesse caso, não traz perigo, apesar de ser feita por um homem do povo a um homem poderoso. O popular recolhe a alusão chistosa do nobre e a volta contra o agressor de um modo que se mantém seguro: o enunciado “Não; foi meu pai”, mesmo que equívoco, se ajusta ou se unifica à pergunta chistosa e agressiva, neutralizando a possível ira do homem rico. Os locutores não podem se subtrair às condições históricas em que se encontram e às formações imaginárias que atravessam o contexto de enunciação, mas a equivocidade do chiste aparece como uma
104 Por exemplo, na piada do Sr. N. Dijo, este afirma sobre um homem público: “Tem um grande futuro atrás
de si”. Segundo Freud (1905: 27), “o chiste apontava para um jovem que, por sua família, sua educação e suas
qualidades pessoais, parecia chamado a ocupar um dia a chefia de um grande partido e, à frente dele, alcançar o governo. Mas os tempos mudaram, esse partido tornou-se incapaz de chegar ao poder, e era previsível que tampouco chegaria a algum lugar o homem predestinado a ser seu chefe. A versão reduzida à sua máxima brevidade, pela qual se poderia substituir o chiste, rezaria: „O homem teve diante de si um grande futuro, que agora já não conta‟. „Teve‟ e a oração seguinte se destacam pela pequena alteração na oração principal, a que substitui o „diante‟ pelo „atrás‟, seu contrário”.
espécie de arma política que possibilita ao homem do povo atacar o poderoso sem se colocar em risco. No enunciado do popular dirigido ao nobre, vislumbramos uma espécie de virada argumentativa: do ataque a que é submetido pelo homem nobre, o homem do povo defende-se, contra-ataca. Mas o faz a partir das palavras do outro, isto é, volta as palavras do outro, traduzidas na pergunta “Sua mãe esteve alguma vez no palácio?”, contra ele mesmo: “Não; foi meu pai”.
Como afirma Possenti (1998: 37), “as piadas ilustram de forma brutalmente clara a tese da ambigüidade, ou, ainda melhor, do equívoco que a linguagem pode produzir”. Devemos mencionar também Pêcheux (1983), que já chamara a atenção para esse fato: a materialidade linguística é capaz de equívocos, indecisões semânticas, processos comuns na poesia e no humor. Segundo Pêcheux (1983), é pelo fato de a língua ser capaz de humor ou poesia que ela se inscreve na história. Possenti (1998: 27) também dá exemplos de textos chistosos em português, entre os quais o seguinte:
__Sabe o que o passarinho disse pra passarinha? __Não.
__Qué danoninho?
O último enunciado contém um “ponto de equívoco” (PÊCHEUX, 1983), a expressão “danoninho”, que, graças à homofonia, joga com dois sentidos: o nome da marca de um produto alimentício e a frase em português popular “Dá no ninho”. De acordo com Possenti (1998: 40), “as piadas operam com ambigüidades, sentidos indiretos, implícitos etc.”, o que Freud chama de “alusões”. Para compreendê-las, o ouvinte/leitor precisa “mover-se”, ser capaz de analisá-las, fazer inferências, estabelecer relações entre o que é dito no texto e em outros textos.
Outro aspecto apontado por Freud sobre os chistes é a ironia. Para ele, a ironia está intimamente próxima do chiste105:
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Freud (1989: 76) chega a dizer: “A única técnica que caracteriza a ironia é a representação pelo contrário. Além do mais já lemos e ouvimos falar sobre “chistes irônicos”. Brait (1996) reconhece que a ironia é uma das particularidades do humor.
Refiro-me à ironia, muito próxima do chiste [...] e contada entre as subespécies do cômico. Sua essência consiste em dizer o contrário do que se pretende comunicar a outra pessoa, mas poupando a esta uma réplica contraditória fazendo-lhe entender – pelo tom de voz, por algum gesto simultâneo, ou (onde a escrita está envolvida) por algumas pequenas indicações estilísticas – que se quer dizer o contrário do que se diz.
Na subclasse do cômico intervêm basicamente dois elementos: o ego e o objeto (uma pessoa ou não) em que se descobre a comicidade:
O cômico se produz em primeiro lugar como um achado não buscado nos vínculos sociais entre os seres humanos. Nós o descobrimos em pessoas, e certamente em seus movimentos, formas, ações e traços de caráter. (...) A descoberta de que se tem o poder de tornar cômico a outro dá acesso a um insuspeito ganho de prazer cômico e dá origem a uma refinada técnica. Também é possível tornar a si mesmo cômico. Os recursos que servem para tornar alguém cômico são, entre outros, a colocação da pessoa objeto em situações cômicas, a imitação, o disfarce, o desmascaramento, a caricatura, a paródia, o travestismo. Como se sabe, estas técnicas podem entrar ao serviço de tendências hostis e agressivas. (FREUD, 1905: 180).
Indagando sobre a natureza dessa forma de comicidade, Freud se pergunta por que rimos do palhaço. Para ele, rimos por causa do seu gasto excessivo de movimentos. Ele observa, porém, que esse tipo de comicidade não se produz apenas artificialmente, mas no curso da vida cotidiana, de modo não deliberado. Cita como exemplos o excesso de gasto da criança que põe a língua fora da boca quando está aprendendo a escrever e os adultos que nos parecem cômicos por movimentos concomitantes ou por movimentos expressivos exagerados. O prazer aqui é produzido pela superioridade que sentimos em relação ao outro, ao percebermos que seu gasto corporal é maior do que o anímico (ou psíquico), se comparado ao que teríamos para realizar a mesma ação. Porém, se o contrário se dá, isto é, se o gasto psíquico ou corporal da pessoa observada é menor do que o que teríamos para executar a ação, então, passamos a admirá-la. O prazer cômico e o efeito que o torna discernível, o riso, surgiriam de uma diferença de gasto sem aplicação, suscetível, pois, de uma descarga de prazer. Nas palavras de Kupermann (2003: 40), “no cômico, o prazer
deriva de uma economia na despesa com o investimento em alguma representação que se mostra supérflua”.
Para Freud, uma pessoa qualquer se torna cômica, independentemente de suas qualidades pessoais, se for posta numa situação cômica. Assim, qualquer um de nós pode ser objeto, por exemplo, de uma practical joke, uma piada prática, o que ocorre quando alguém, aplicando-nos uma peça, nos faz parecer torpes, crédulos ou disparatados. Neste e em outros procedimentos cômicos, o prazer surge do rebaixamento [Herabsetzung] da pessoa ou situação objeto, em relação à qual o sujeito que produz o cômico sente-se superior. Entretanto, efeitos penosos opõem-se ao cômico, que depende de um estado alegre, facilitador do riso, e da expectativa de que ele se dê. Se houver sentimentos ou interesses intensos envolvidos, como dor e desprazer, ele não poderá se realizar, pois necessita de certa indiferença. Por essa razão, o cômico se aproxima do carnavalesco de que fala Bakhtin, em que boa parte do prazer é obtido por meio do rebaixamento do outro.
Um bom exemplo do cômico é dado por Saliba (2002). Para o autor, o cômico nasce de uma percepção do contrário, como na história da velha de Pirandello que, já decrépita, cobre-se de maquiagem, veste-se como uma moça e pinta os cabelos. Ao se perceber que aquela senhora é o oposto do que uma respeitável senhora deveria ser, produz- se o riso, que nasce da ruptura das expectativas, mas, sobretudo, do sentimento de superioridade. A percepção do contrário, porém, pode transformar-se num “sentimento do contrário” – quando aquele que ri procura entender as razões pelas quais a velha se mascara na ilusão de reconquistar a juventude perdida; neste passo, a velha da anedota não está mais distante do sujeito que percebe, porque este último pensa que também poderia estar no lugar da velha – seu riso se mistura com a compreensão piedosa e se transforma num sorriso. É aqui que Pirandello começa a diferenciar o cômico do humor, tal como observa Saliba (2002: 24). Vale lembrar que esse sentido de cômico vai ao encontro de uma afirmação de Aristóteles (1998), na Poética, de que a comédia pinta os homens piores dos que eles são, colocando em evidência, bem à semelhança de uma lente de aumento, os seus defeitos físicos e morais106. Boa parte desses aspectos do universo cômico é produzida, sem
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Além da caricatura, faz parte do cômico a imitação, a paródia e todas as técnicas de tornar o(s) outro(s) rebaixado(s), ridículo(s). Vale dizer que boa parte desses aspectos do universo cômico é produzida sem que, necessariamente, se utilize palavras: é a caracterização (pelo traço, como no caso dos quadrinhos
que, necessariamente, se utilizem palavras: é a caracterização (pelo traço, como no caso dos QHs, pelo gesto ou pela palavra) que exagera os defeitos do outro, ou que os parodia, tornando-o risível, como na caricatura a seguir:
Note-se que ela também tem aspecto chistoso, pois condensa a imagem da atriz Dercy Gonçalves (que exibia os seios quando velha) e a letra de uma das músicas cantadas por ela: “A perereca da vizinha tá presa na gaiola”107
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Finalmente, o humor, ao contrário do cômico, se caracteriza por surgir diante da adversidade: o prazer humorístico se produz com afetos que normalmente nos seriam penosos. Freud dá como exemplo a frase que diz a si mesmo, no caminho para o patíbulo, o réu condenado à morte na segunda-feira: “Vá, comece bem a semana!”. Trata-se de humor de patíbulo ou Galgenhumor, “humor negro”. O discurso do réu economiza108 um afeto doloroso em proveito do prazer humorístico, o que faz com que Freud veja nele um humorísticos, pelo gesto ou pela palavra) que exagera os defeitos do outro, ou que o parodia, tornando-o risível.
107 Trata-se de uma caricatura de Dercy Gonçalves realizada por Marcos Quinho de Souza e apresentada no
24º Salão Internacional de Humor de Piracicaba, 1977. (SILVA, 2006).
108 O fundador da Psicanálise conclui que em todos esses diferentes tipos de comicidade o prazer advém de
uma economia. No caso do chiste, há uma economia de gasto de inibição (o chiste escapa à vigilância racional). No cômico, temos um gasto de representação economizado, porque, simultaneamente ou em rápida sucessão, comparamos dois gastos diferentes. Já o humor economiza um gasto de sentimento. Essas modalidades recuperam o prazer que se perde com o desenvolvimento das atividades anímicas. As crianças não têm necessidade de recorrer ao chiste, ao cômico e ao humor para obter prazer: sua subjetividade exige um gasto mínimo (FREUD, 1905: 223).
mecanismo defensivo – e de resistência política, diríamos – do sujeito. O humor desestabiliza e desconstrói os sentidos da adversidade, aqui, a própria morte. Conforme Kehl (2002: 178), referindo-se a essa mesma história,
[...] o humor aparece revestido de certo heroísmo, caracterizado como coragem de rir, e de fazer rir, diante de circunstâncias que nos parecem trágicas [...] Partindo desse exemplo, Freud aponta o distanciamento entre o comentário e a situação “real” do condenado como fator que produz uma reação de riso, numa situação em que seriam esperadas lágrimas.
Esse heroísmo, essa coragem de fazer rir a que a autora se refere, ao desafiar a morte, triunfa sobre ela. Trata-se de uma tomada de posição: ao invés de se colocar na posição de vítima – que seria o esperado – ou, no dizer de Kehl (idem), “numa situação em que seriam esperadas lágrimas”, o sujeito afronta a morte, atitude dionisíaca por excelência. Neste sentido, o humor representa o triunfo da subjetividade diante das vicissitudes e dos desastres, correspondendo a uma postura ideológica rebelde, não resignada; é a declaração da invulnerabilidade do sujeito ao mundo. É por conta dessa sua capacidade de rir de si mesmo, “bem distante do “nada me pode acontecer” (KUPERMANN, 2003: 123), que Freud (1989) considera o humor como a manifestação psíquica mais elevada do campo da comicidade (ibid.: 216), uma vez que, como declara Kehl (2002: 180), “a possibilidade de modificar a relação do homem com seu sofrimento é o que confere ao humor uma dignidade que o chiste, voltado somente para a produção de um efeito prazeroso, não tem”. Mesmo que não se expresse num riso franco, como o chiste e o cômico, o humor tem uma dignidade e uma grandeza que faltam a estas formas.
Freud mostra como os diferentes modos de produção da comicidade se estabelecem conforme diferentes relações entre a linguagem, a subjetividade e o contexto social. Suas análises permitem perceber que não se está diante de meras brincadeiras, mas de pontos em que o equívoco e o absurdo representados pelo humor tocam o social e o histórico. O prazer cômico e o riso, que o caracteriza, não são funcionamentos fisiológicos, mas materialidades discursivas. Assim, da perspectiva teórica que assumimos, é fundamental considerar o contexto histórico-cultural. Gadet & Pêcheux (2004) apresentam reflexões e análises significativas nessa linha. Eles mostram como dois funcionamentos
humorísticos, o joke anglo-saxão e Witz judaico, constituem distintas posições em relação à língua e à história, de acordo com diferentes formações ideológicas:
– o joke é a resposta do camponês americano a seu pastor, no momento em que este último o convidava a agradecer ao Senhor por lhe ter dado uma terra tão bela: “Se o senhor tivesse visto o estado desta terra, quando Ele ma deu!...”
– o Witz é a resposta do pequeno alfaiate judeu a seu cliente descontente por ter esperado durante seis anos a entrega de uma calça e observando que Deus só havia levado seis dias para criar o mundo: “Sim, mas veja a calça e veja o mundo...”
Entre essas duas histórias, há também uma fronteira a atravessar, do otimismo operatório e demiúrgico da atividade humana transformando o mundo, ao pessimismo lúcido daquele que sofre as vicissitudes como um destino histórico. (GADET & PÊCHEUX, 2004: 195).
Assim, apesar de terem em comum a derrisão fóbica à alteridade, o joke acredita na possibilidade de controle e normalização do mundo, ao passo que o witz, não, daí seu pessimismo lúcido. O humor inscreve-se na história, podendo servir inclusive como instrumento de dominação109. É por isso que Possenti (1998) coloca em xeque a afirmação comum de que o humor critica, já que nem sempre revela um discurso progressista. Para ele, o que caracteriza o humor é muito provavelmente o fato de permitir dizer uma coisa mais ou menos proibida, mas não necessariamente crítica no sentido corrente, isto é, revolucionária, contrária aos costumes arraigados e prejudiciais. Retomando Freud, Possenti afirma que o humor não tem obrigação de ser crítico, mas tecnicamente bom, uma vez que não é o assunto que determina o efeito do humor, mas a maneira como ele, linguisticamente, é construído. “Um assunto é engraçado porque um certo modo, uma certa técnica na sua construção o torna assim: a forma como ele é tratado é que o deixa engraçado”, escreve Folkis (2004: 2). Não se pode, porém, perder de vista que essa forma e
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Além da piada do camponês reproduzida acima, Gadet & Pêcheux dão mais um exemplo de como o humor pode servir à dominação: Henry Ford dizia que sua fábrica entregava o carro na cor escolhida pelo cliente, desde que ele escolhesse a preta. Segundo os autores, o que se tem aí é uma interpelação ideológica que supõe que “o sujeito livre participe ativamente de sua própria submissão”. Trata-se de uma “brincadeira [ou chiste] normalizadora” que “pertence à linhagem do humor sério de Swift e das anedotas involuntárias do liberalismo, quando ele atinge seus limites macabros” (GADET & PÊCHEUX, 2004: 204).
essa técnica se inscrevem em determinadas memórias e não em outras, pois mantém relação direta com a ideologia; não são formas neutras.