1. ENQUADRAMENTO TEÓRICO DA PESQUISA
1.5. As Redes de Produção Globais (RPG)
1.5.4. Categorias fundamentais do modelo das RPG
As categorias conceituais fundamentais através das quais os agentes se relacionam, como mencionado, são valor, poder e enraizamento. As duas primeiras já são clássicas e desenvolvidas pela literatura, e a última, cara à Nova Sociologia Econômica, é incorporada.
No que diz respeito ao valor, o modelo das redes de produção globais tem uma definição ampla, compreendendo o conjunto das várias formas da renda econômica, derivadas do processo de trabalho e sob o eixo da firma, incorporando noções marxianas de mais-valia, na medida em que é concebido como fruto do trabalho em sentido estrito, e de outras concepções ortodoxas, referentes a formas de renda específicas que ampliam a captura do valor, como a organizacional (Santos, 2011).
As condições de sua criação no interior das empresas, de sua ampliação, captura e difusão na rede são tomadas não somente sob o paradigma estritamente econômico, mas também apreendendo aspectos relacionados à ação de agentes políticos e sociais na criação do valor, no contexto do processo de trabalho, como o nível de transferência de tecnologia.
Em relação à dimensão do poder, isto é, a capacidade de um agente de influenciar as ações de outros agentes, Carneiro e Mancini (2018), retomando Henderson, frisam que a abordagem das redes de produção globais concebe, de maneira multicêntrica, três tipos de poderes:
i) o poder corporativo: exercido por atores econômicos (empresas), que é distribuído assimetricamente na estrutura da rede; ii) o poder institucional: desempenhado por uma variedade de atores não diretamente econômicos, como agências estatais (nacionais, estaduais e municipais), agências de classificação de crédito, etc; e, iii) o poder coletivo: exercido, direta e indiretamente, por atores coletivos sociais (não econômicos) que buscam influenciar atores econômicos (empresas) e não econômicos (políticos e institucionais em âmbito local, regional, nacional ou internacional) em localidades específicas das RPGs (Mancini e Carneiro, 2018, p. 379).
Então, o poder corporativo se liga à capacidade potencial das empresas influenciarem as decisões dos demais agentes; o poder coletivo condiciona e restringe as possibilidades de acumulação e difusão de capital; e o poder institucional desempenha papel relevante na regulação das atividades empresariais (Henderson et al., 2011). Há, portanto, uma sintonia com as premissas da sociologia econômica, já que tais poderes dizem respeito justamente à capacidade das ações sociais influenciarem a vida econômica.
A teoria é permeada pela hipótese fundamental da natureza relacional entre os processos que definem e redefinem a economia global, concebendo que há espaço para a agenciação e criação de trajetória das empresas, vinculado sobretudo às escolhas estratégicas e existência de recursos.
Há uma tentativa de superar as dicotomias erguidas entre estrutura e agência, por um lado, e global e local, por outro, porquanto o modelo “é caracterizado pela multiescalaridade e pela multiagência assimétrica em termos de poder, valor e enraizamento” (Santos, 2011, p. 132), e não concebido com uma hierarquia unificada e coordenada de maneira centralizada. Há uma preocupação de mobilizar vários atores, inclusive os não econômicos, em diferentes processos e quadros, cada qual com suas peculiaridades, e não como se tivessem os mesmos objetivos.
Granovetter (1985), como há pouco se tratou, já pontuara que os atores não agem como átomos e desprezando o contexto social ao qual estão imersos, nem tampouco se submetem sem resistência às estruturas. A teoria, neste sentido, assume que a análise deve recair sobre a interação entre diversos atores, para entender como as associações entre eles se estabilizam e se reproduzem, porquanto o poder deve ser visto a partir dessas redes de relações (Law, 1999).
São os atores que dirigem as redes e movem os processos, e sua capacidade depende de recursos políticos, econômicos, sociais e tecnológicos, que definem a posição que exercerá dentro da rede e o quão forte está associada a demais atores. Contesta-se, na realidade, a ideia não raramente adotada de que a trajetória de sucesso ou fracasso da empresa é tributária da ação de um único indivíduo, e se defende que a análise perpassa pela articulação do individual com o social, remontando à ideia de que a empresa representa um subconjunto de um ambiente social mais amplo.
Por fim, retomando os aportes da Nova Sociologia Econômica, compreende-se que as ações, organizações e instituições econômicas são formas de relações sociais, e que, portanto, estas também influenciam as atividades econômicas, que são produzidas em contextos sociais, influenciados pela configuração sincrônica das redes, como já discutido anteriormente. Nas palavras de Henderson et. al., “aspectos dos arranjos sociais e espaciais nos quais aquelas firmas estão enraizadas e que influenciam suas estratégias e os valores, prioridades e expectativas dos gestores, trabalhadores e comunidades afins” (2011, p. 159).
De todo modo, a categoria enraizamento nas RPGs não só diz respeito a um aspecto da realidade, como o de Granovetter ou Polanyi, envolvendo tanto o enraizamento social, que frisa o pano de fundo cultural que liga os entes, o envolvimento com as instituições e a influência dos atores individuais e coletivos dentro e fora de suas sociedades; o enraizamento em rede, que se baseia nos distintos níveis de confiança entre os atores; e o enraizamento territorial, já que atividades econômicas são realizadas em um espaço específico e nele ancoradas.13
Hess (2004) elenca as contribuições de cada área ao conceito, ao que o seguinte quadro realiza uma esquematização de cada noção:
Quadro 2 – Diferentes noções teóricas sobre enraizamento
Onde? O quê? Em que? Escala Geográfica
“A Grande Transformação” de Polanyi A economia, sistemas de troca “Sociedade” e estruturas socioculturais Sem escala particular, mas focando no Estado- Nação Nova Sociologia Econômica O comportamento econômico, as empresas e os atores individuais Redes de relações sociais Sem escala particular, flutuando entre perspectivas micro e macro
Estudos Empresas e redes
Tempo, espaço, estruturas sociais,
mercados, sistemas Sem escala
Organizacionais políticos e tecnológicos particular Geografia Econômica Empresas Redes e configurações institucionais Regional
Fonte: Elaboração própria a partir de Hess (2004).
Nesse sentido, de acordo com Dicken e Thrift, “as organizações empresariais são produzidas através de um processo histórico de enraizamento que envolve uma dinâmica entre as características cognitivas, culturais, sociais, políticas e econômicas específicas do território “sede” de uma empresa.” (1992, p. 287)
Nessa perspectiva, é inegável que os locais onde as redes de produção estão estabelecidas as influenciam de modo relevante, haja vista que cada um está incrustado em específicos contextos sociopolíticos, institucionais e culturais. Por isso, defende-se que a escala local, onde cotidianamente os agentes interagem, é um fator importante na análise, considerando que na linha assumida do enraizamento territorial (Hess, 2004) diversos agentes são dependentes uns dos outros, embora não de forma simétrica.
Santos et al. (2019) ressalvam que, apesar de todo o avanço da teoria das RPGs, são formulados tais elementos (valor, poder e enraizamento) como independentes. Em sentido contrário, os autores propõe que se supere essa independência, já que é necessário reconhecer que
existem relações implícitas entre essas três categorias e que agentes disputam os processos relacionados ao valor (em suas dimensões monetária e não-monetária), de modo que seu sucesso depende principalmente das relações de poder, que são influenciadas e definidas pelas condições de enraizamento. Cada grupo de agentes desenvolve um repertório de ações, definido como estratégia, de forma a modificar essas três categorias. (2019, p. 268)
Para fins de compreensão, reproduz-se representação gráfica das redes de produção globais denotando suas categorias e dimensões:
Quadro 3 – Categorias principais do modelo RPG
Valor Poder Enraizamento
Criação:
Como as empresas podem gerar valor via: tendências tecnológicas, tendências organizacionais, tendências de marcas, tendência de troca de políticas.
Corporativo:
Extensão a qual leva empresas a influenciarem decisões e alocação de recursos de acordo com outras empresas de maneira consistente e por seu próprio interesse; como e por que o poder é assimetricamente distribuído.
Territorial:
Como RPGs envolvem-se na dinâmica social e econômica específica dos locais que ocupam; e como essa dinâmica restringe os atores.
Transmissões:
Como as empresas podem transmitir valor através da tecnologia; cooperação entre redes; habilidades no trabalho.
Institucional:
O poder exercido por órgãos do Estado, nacionais e locais; agências interestatais internacionais; agências privadas internacionais.
Rede:
O grau de dependência de atores envolvidos na própria rede, como resultado da construção de confiança, etc.
Captura:
Como empresas e regiões capturam valor, afetadas por: políticas governamentais, propriedade da empresa; rede de governança.
Coletivo:
O poder de agentes coletivos sobre resultados de redes: ONGs, organizações trabalhistas; organizações coletivas de negócios.
Fonte: elaboração própria a partir de Henderson et al. (2011) e Santos (2011).
Por sua vez, a figura abaixo, adaptada de Dicken (2004) busca sintetizar a partir do modelo das RPGs a complexidade dos processos econômicos globais, focando nas relações entre os diversos atores que estão imersos (“embeddedness”) em instituições e estruturas:
Figura 1 – Esquematização gráfica de como operam as RPGs
Fonte: adaptado a partir de Dicken (2004).