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Redes de Produção Globais versus Cadeias Globais de Valor (RPG x CGV)

1. ENQUADRAMENTO TEÓRICO DA PESQUISA

1.5. As Redes de Produção Globais (RPG)

1.5.3. Redes de Produção Globais versus Cadeias Globais de Valor (RPG x CGV)

Em sua origem, a RPG tem a pretensão de superar o referencial teórico-metodológico da Global Value Chain (GVC) ou Cadeias Globais de Valor (CGV), que se originou a partir do desenvolvimento da Global Commodity Chains (GCCs) ou Cadeias Globais de Commodity (CGCs). Estes três referenciais chamam atenção para fenômenos similares e compartilham uma agenda de pesquisa central, embora sejam analiticamente distintos, com métodos, focos e categorias próprios. A seguir serão apresentadas as principais críticas a estes referenciais, cujas deficiências de análise levaram à criação deste novo arcabouço teórico, embora vários de seus insights tenham sido assimilados.

O modelo da Cadeia Global de Commodity (CGC) pode ser considerado a primeira tentativa de fornecer um aparato teórico para investigar os fenômenos das redes de produção, e foi formulado por Gereffi (1994), subsidiado pela teoria marxista do sistema-mundo elaborada por Wallerstein, que se destinava a entender como os processos de produção interconectados configuravam a economia do centro e da periferia. Há um certo rompimento

com a teoria de Wallerstein11, já que há um estreitamento no nível de análise que sai do

sistema capitalista mundial para formas específicas de relações entre firmas, e ainda passa a encarar a globalização como uma mudança qualitativa, e não só um alargamento dos padrões de comércio de matérias-primas pelos países periféricos (Gereffi, 1994).

Em 2001, Gereffi e Kaplinsky publicam “The Value of Value Chains: spreading the gains from globalization” e apresentam o modelo das Cadeias Globais de Valor (CGV), buscando superar os problemas encontrados pela CGC. Santos (2010, p. 49) observa que a principal diferença reside na concepção de governança, que passa a ser definida como coordenação não-econômica da atividade econômica, em substituição à noção anterior, que correspondia à “direção ou liderança (direta e indireta) exercida por firmas específicas sobre a organização dos sistemas transnacionais de produção” (ibidem).

A primeira das críticas do modelo RPG aponta que os modelos CGV e GGC não captam a multiplicidade de sistemas transnacionais de produção. Isto porque focam em demasia na empresa e esquecem de se deter sobre ações de outros atores sociais, inclusive do próprio Estado, que só aparece como “background” das empresas. Há uma lacuna analítica, portanto, quando se pensa o papel de atores públicos – como os órgãos estatais – ou nas influências que os movimentos sociais exercem nas redes/cadeias.

Para além disso, a escolha terminológica por commodities no CGC não reflete a diversidade de bens e serviços disponíveis nos sistemas de produção. É somente tendo essa crítica como premissa, conforme assevera Santos (2011, p. 131), que se torna possível rejeitar a reificação econômica ortodoxa e a desumanização da mercadoria, porque é sublinhada a importância dos processos sociais envolvidos na produção e na reprodução de conhecimento, capital e força de trabalho (ibidem). Assim, a sociologia econômica e as RPGs, ao contrário da economia mainstream, não enxergam no trabalho uma mera commodity, mas consideram que as redes também representam, em última instância, o trabalho incorporado. Consideram, ainda, que trabalhadores e suas entidades influenciam de modo decisivo nas redes, sem com isso ignorar o papel concreto e o poder do capital e do trabalho em contextos específicos.

Ademais, CGC e CGV têm apresentado conclusões em que ficam evidentes uma linearidade na compreensão dos eventos históricos e uma desatenção ao proceder à

11 Como lembram Henderson et. al (2002), a forma estática como Wallerstein concebe núcleo, periferia e zonas

intermediárias é objeto de preocupação de Gereffi (1994), que também busca resolver as deficiências advindas da dicotomia desenvolvimento e subdesenvolvimento, trazida pela teoria do sistema-mundo.

reconstrução histórica das cadeias12 sobre as quais se debruçam. Henderson et al. (2011, p.

148) apontam que, por ignorar este aspecto histórico, os modelos esquecem que há um condicionamento (“path dependency/contingency”, no original) de possibilidades de mudança e desenvolvimento a partir dos complexos processos históricos a que foram submissas estas cadeias. Nesse sentido, o modelo das RPG tenta superar essa deficiência encontrada em alguns trabalhos que optam pelo referencial CGC/CGV.

Outro problema teórico, ainda segundo Henderson (2011), é que não se deu a devida preocupação de compreender a importância da propriedade da firma para o desenvolvimento econômico e social em sociedades específicas, e que há pouco espaço para compreender de onde nascem as diferenças nacionais e locais na organização da produção – ou seja, as peculiaridades de cada sociedade, suas instituições específicas, seus regimes econômicos e de proteção social são ignorados. Estes aspectos são de importância fundamental no contexto já apresentado sobre os pressupostos da NSE.

Outra crítica importante trazida é a de que a opção dos autores por redes e não cadeias permite maiores amplitude e complexidade analíticas. Isso possibilita analisar distintos fluxos de poder e valor, que não necessariamente expressam a rígida hierarquia das cadeias. Com a noção de redes, pode-se ligar vários atores em agrupamentos ainda maiores, com dinâmicas em constante mudança. Ainda, o constructo teórico a partir de redes dá margem a não ter necessariamente que contrapor local e global, mas assumir a ideia de que se pode pensar uma “entidade global” extremamente conectada que, a despeito disso, ainda permanece local (Law, 1999).

As redes ainda exercem o papel de gerar a confiança e cooperação entre compradores e vendedores, como já discutido acima, o que torna a troca possível em contextos específicos. O espaço é permeado não só de concorrência, mas também de cooperação. Como justificam Coe et al. (2008) pela opção que fizeram acerca das redes:

Apesar das diferenças na terminologia, bem como no foco, entre diferentes pesquisadores, existe um consenso crescente em torno da ideia de que uma das chaves mais úteis para compreender a complexidade da economia global - especialmente sua complexidade - é o conceito de rede. Isso não significa que as redes sejam, de qualquer forma, novas, mas que reflitam a natureza estrutural e relacional fundamental de como a produção, a distribuição e o

12 No âmbito da teoria de Gereffi, as cadeias são entendidas como “conjuntos de redes interorganizacionais

agrupados em torno de uma mercadoria ou produto, ligando residências, empresas e Estados uns aos outros dentro da economia-mundo.” (Gereffi et al, 1994, p.2)

consumo de bens e serviços foram organizados. (Coe et al., 2008, p. 272).

Denota-se que o paradigma das redes de produção globais surgiu para superar os modelos CGC/CGV e analisar mudanças associadas aos processos de produção, distribuição e consumo de bens e serviços no contexto da globalização econômica. Dessas mudanças derivaram formas de organização econômica global, conectando diferentes locais (Santos, 2011). Ou seja, com a finalidade se compreender a dinâmica do desenvolvimento em um local, é necessário compreender não somente os processos deste local, como também de outros que estão sendo transformados por fluxos de capital, trabalho, etc., e como, concomitantemente, os próprios lugares estão transformando os fluxos (Henderson, 2011).

Para fins de compreensão, o quadro abaixo expressa as principais diferenças entre os dois modelos:

Quadro 1 – Diferenças entre os modelos CGC/CGV e RPG CADEIAS GLOBAIS DE

COMMODITIES/VALOR (CGC/CGV)

REDES DE PRODUÇÃO GLOBAIS (RPG)

Disciplina de fundo Sociologia Econômica Geografia/Sociologia Econômica

Objeto de estudo Relações entre empresas na indústria global

Redes de produção globais. Configuração e desenvolvimento Conceitos orientadores Estrutura industrial Governança Desenvolvimento industrial e tecnológico Criação, captura e transmissão de valor Poder coletivo, institucional e corporativo Enraizamento social, em redes e territorial Influências intelectuais Literatura sobre Corporações Multinacionais Análise do CGC

(CTN). Desenvolvimento

comparado

Teoria das redes Variedades do capitalismo

Fonte: Elaboração própria a partir de Henderson et al. (2011) e Gereffi et al. (1994).