CAPÍTULO III – O SISTEMA DE GÊNEROS TEXTUAIS JURÍDICOS
1. Categorias textuais basilares
1.1 Tipelementos
Travaglia (2002-a; 2004; 2006-b; 2007-c) denomina tipelementos às classes de categorias de textos fundamentais encontradas em dada sociedade e cultura e que agrupam categorias textuais havidas em diferentes planos teórico- funcionais, de acordo com sua natureza. Para ele os tipelementos são três: o tipo, o gênero e a espécie. Ressalte-se que, embora os conceitos de tipo e gênero sejam bastante difundidos na lingüística textual, encontrando inúmeros defensores dentre os estudiosos, a exemplo de Marcuschi (2002), Marquesi e Elias (2006) e Schneuwly (2004), a concepção de espécie14 parece ser proposta peculiar de Travaglia. Como já visto, nesta tese buscar-se-á abordar somente os
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14 Travaglia (2006-b) afirma poder a espécie ser entendida como um dos tipelementos ligados
a certo gênero [o outro é o tipo], a exemplo da carta e dos cartões, que são espécies vinculadas ao gênero correspondência, e como um dos tipelementos relacionados com determinado tipo [o outro é o gênero], tal qual ocorre com o tipo narrativo, que possui como espécies, a história e a não história.
Logo, para Travaglia (2006-c, p. 6), a espécie é tipelemento, identificado e caracterizado “por aspectos formais de estrutura (inclusive de superestrutura) e da superfície lingüística e/ou por aspectos de conteúdo”. Diz, ainda, este autor (2006-b), que não há relação hierárquica ou de subordinação entre os tipelementos.
tipos e gêneros.
Travaglia (2006-b) defende que as características basilares apontadas por Bakhtin (2003) enquanto identificadoras e integrantes dos “gêneros discursivos” podem ser também apontadas nos demais tipelementos. Isto porque, segundo Travaglia (2006-b), a expressão “gêneros discursivos”, encontrada em Bakhtin, detém sentido similar àquela conceituada por ele próprio em suas obras e denominada “categorias textuais”.
Bakhtin (2003) fala em três características fundamentais encontradas nos “gêneros discursivos” (categorias textuais) e que apontam para o contexto de sua produção: o conteúdo temático, o plano composicional e o estilo. Veja-se lição de Koch e Elias (2006, p. 106-107), que bem resume o pensamento de Bakhtin nesta questão:
[...] os gêneros possuem uma forma de composição, um plano composicional; além do plano composicional, distinguem-se pelo conteúdo temático e pelo estilo; trata-se de entidades escolhidas, tendo em vista as esferas de necessidade temática, o conjunto dos participantes e a vontade enunciativa ou a intenção do locutor, sujeito responsável por enunciados [...].
(Itálicos do autor desta tese)
Ante a amplitude e generalidade das três características textuais ora em destaque, em companhia de Travaglia (2006-a), há que se entender ser toda e qualquer categoria textual marcada por esfera de atuação que promove modos específicos de combinar, indissoluvelmente, conteúdo temático, estilo e estrutura ou plano composicional.
Deste modo, o que é exclusivo a cada categoria textual é a maneira pela qual contribui para a configuração posterior, no texto empírico, de conteúdo, estrutura composicional e estilo. E isto vale até para o gênero, com a ressalva de que, no caso desta categoria textual, outros atributos, dados a conhecer pelos
traços relativos a condições de produção (enunciador, enunciatário, instituição, comunidade discursiva etc.), terão que ser levados em conta.
Mas em que consiste cada uma das três citadas características dos tipelementos? Ora, o conteúdo temático nada mais é que o sistema informativo peculiar a cada categoria textual, integrado por configuração seqüencial única – o desenho resultante da ordenação dos pequenos assuntos – que aponta para o assunto aglutinador e demais informações secundárias que o cercam e nele têm seu fundamento e razão textual de existir.
Travaglia (2006-b) exemplifica o sistema informativo do conteúdo temático, notadamente, mediante sua configuração. Para tal autor (2006-b, p. 10), a configuração seqüencial do sistema informativo ou conteúdo temático na narração é expressa por meio de “acontecimentos ou fatos organizados em episódios (indicação e detalhamento – geralmente por meio de descrição – de lugar, tempo, participantes/actantes/personagens + acontecimento, que pode ser ação, fato ou fenômeno)”. Na descrição tem-se a “localização do objeto a ser descrito com suas características (cores, formas, texturas) e componentes”. Por seu turno, continua Travaglia (2006-b, p. 10), na dissertação importam como informação “as entidades, as proposições sobre elas e as relações entre estas proposições, tais quais as de condicionalidade, causalidade, de oposição ou contrajunção, de adição ou conjunção, de disjunção, de especificação/amplificação/exemplificação e comprovação, dentre outras”. Já na injunção o conteúdo temático resta imbuído de informação sobre “algo a ser feito e como deve ser feito”.
O plano composicional, que tem como elemento principal a superestrutura, implica um objetivo comunicativo ímpar e ensejador de uma maneira peculiar de construção e ordenamento das partes formais dos tipelementos que permite identificá-los como tais e se dá a conhecer, finalmente, por meio de um texto. Já o estilo nada mais é do que a utilização e organização peculiar dos atributos
lingüísticos contidos na superfície textual. A investigação do estilo possibilita a análise de um texto em seus diversos planos (fonológico, morfológico, sintático e pragmático) e níveis (lexical, frasal e textual).
Acrescente-se que, para Travaglia (2007-b), além dos parâmetros analíticos já abordados e que são encontrados nos “gêneros discursivos” (categorias textuais), apontando para o contexto de sua produção – o conteúdo temático, o
plano composicional e o estilo (os quais para Koch e Elias (2006) abarcam implicitamente o objetivo do enunciador ou função sócio-comunicativa do texto) –, a fim de que tenha lugar a identificação, distinção e caracterização das classes ou conjuntos de textos, deve-se considerar o parâmetro adicional das condições
de produção textual.
Travaglia (2007-b, p. 74), afirma que o parâmetro das condições de produção textual remete aos seguintes critérios: “quem produz, para quem, quando, onde (geralmente um quadro institucional), o suporte, o serviço”.
O critério quem produz, diz Travaglia, “inclui tanto o indivíduo (geralmente ocupando um lugar social) como a comunidade discursiva (Swales, 1990)”. Aliás, lembra Travaglia (2007-b, p. 74), “a comunidade discursiva é muito importante, inclusive porque, em alguns casos,” tem-se “gêneros com um mesmo nome, mas que identificam categorias distintas em comunidades discursivas distintas”.
É o que ocorre com o vocábulo parecer, que se refere a três gêneros. a) o primeiro deles, afeto de modo exclusivo à comunidade jurídica, é o documento intraprocessual em que um membro do Ministério Público, em tempo imediatamente anterior ao proferimento da sentença ou acórdão, opina, apontando as diretrizes jurídicas que imagina deverem ser consideradas pelo(s) magistrado(s), bem como o teor da decisão que o parecerista pensa ser o justo no caso concreto. Ainda que tal parecer não seja obrigatório para os juízes, é muitas vezes por eles seguido, no todo ou em parte, e tem como função jurisdicional
contribuir para que os juízes não errem em suas decisões. Aliás, equívocos relacionados ao parecer ministerial, a exemplo de sua ausência em processo do qual deveria constar, pode levar à anulação da decisão judicial; b) o segundo, inerente a dada comunidade técnica, é texto que exprime opinião de um técnico renomado acerca de dúvidas a ele submetidas para que sejam por ele solucionadas. Tem-se aqui parecer que pode ser elaborado por técnico de qualquer área do conhecimento (engenheiro, consultor jurídico, médico, lingüista etc.); c) o terceiro, mais conhecido como parecer normativo, é a opinião de chefe de órgão público de função técnica que deve ser obedecida por seus subordinados e, pois, é norma jurídica de caráter secundário, tal como o são a portaria, a deliberação, a resolução e a instrução normativa. São exemplos de parecer normativo aqueles emanados da Advocacia-Geral da União e da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
Diga-se, ademais, que um texto é produzido primeiramente para os membros da comunidade discursiva a que pertence o locutor, ainda que, por vezes, tenha por alocutários membros de outras comunidades discursivas. É o que acontece com muitos dos textos de gêneros jurídicos, a exemplo daquele denominado sentença judicial. O locutor, magistrado, tem por alocutários imediatos os atores intraprocessuais (litigantes, seus advogados e membro do Ministério Público), por alocutários mediatos todos os operadores do Direito, e por alocutária última a população.
As condições de produção textual, finalmente, diz Travaglia (2007-b, p. 76) envolvem o suporte, “definido como o espaço-objeto que porta o texto” e no qual “o texto ganha materialidade”, e do qual são exemplos o livro, o jornal, o programa de computador ou a folha de papel em que é escrita uma carta, bem como o que se denomina serviço. Este é exemplificado pela atividade do correio e do telégrafo.
Em suma, a identificação, distinção e caracterização de um texto e das categorias textuais basilares nele detectáveis somente será efetivada pelo emprego dos parâmetros que apontam para o contexto de elaboração do qual emergem: o conteúdo temático, o plano composicional, o estilo, a função sócio-
comunicativa (ou objetivo do enunciador) e as condições de produção.
1.2 O tipo textual
Para Travaglia (2004, p. 123) o tipelemento denominado tipo “é identificado e se caracteriza por instaurar um modo de interação, uma maneira de interlocução segundo perspectivas que podem variar constituindo critérios para o estabelecimento de tipologias diferentes”.
Não é só: o tipo é sempre definido pela relação entre propriedades, fundamentais na sua caracterização, e as marcas formais que exprimem aquelas. Dentre as classificações apontadas por Travaglia (1991; 2007-c), algumas merecem ser abordadas aqui, pois servirão de base explícita ou implícita ao modelo interpretativo elaborado no capítulo quatro desta tese.
A primeira das perspectivas apontadas por Travaglia (1991; 2002-c, p. 206) é aquela em que “o produtor do texto se coloca em relação ao objeto do dizer quanto ao fazer/acontecer ou conhecer/saber e quanto à inserção destes no tempo e/ou espaço”.
O referido prisma de análise possibilita a classificação dos tipos textuais denominados como descrição, injunção, dissertação e narração. A diferenciação entre os quatro tipos textuais em tela é apontada por Travaglia no quadro que vem a seguir:
QUADRO 1