CAPÍTULO IV – O TEXTO NOS ACÓRDÃOS DOS TRIBUNAIS
MODELO DE ANÁLISE DOS TEXTOS DE ACÓRDÃO
2. Análise do texto nos acórdãos
2.1 Estrutura textual
2.1.1 Superestrutura
Tratar-se-á da estrutura dos textos escritos e dados a conhecer sob a forma do gênero acórdão, a partir da fala de juiz-relator. Nos seis textos alvos de análise nesta tese a superestrutura possui as seguintes partes e respectivas denominações oficiais, que são, pois, assim caracterizadas sob o ponto de vista global (veja-se como exemplo o primeiro texto de acórdão em apêndice):
a) a Ementa oficial, que contém o resumo da argumentação embasadora e a decorrente decisão acordada, além de descrever e, por conseguinte, designar, definir e individuar os dados essenciais do processo e do acórdão lato sensu nele contido e então já proferido;
b) o Acórdão stricto sensu, que tem em seu bojo a narração resumida da discussão e do julgamento do caso concreto, apontando os julgadores que a proferiram, em especial o relator, bem como dá publicidade à decisão tomada e que deve ser cumprida;
c) o Relatório, cujo conteúdo é o relato da história anteriormente ocorrida no processo;
d) o Voto do relator, ou seja, o texto proferido de modo vencedor e composto pelo fundamento (d1) jurídico e dos fatos embasadores da decisão inicialmente individual do relator, bem como pelo dispositivo (d2) ou decisão em si, originariamente representativa tão somente do pensamento do relator, ainda que mais tarde seja tomada pelos demais julgadores como denotadora do pensamento de todos;
e) a Certidão de Julgamento – ou Extrato de Ata – (assim intitulada e com destaque no texto ou, ao contrário, sem título e colocada sem destaque ao final do texto), em que o enunciador (qualificado em sua enunciação como juiz-
relator) repete, por meio de narração, as informações do acórdão stricto sensu e as confirma como verdadeiras e oficiais.
Diga-se, por conseguinte, que, sob a perspectiva do produtor que se coloca em relação ao objeto do dizer, no tocante ao fazer/acontecer ou conhecer/saber, e quanto à inserção no tempo e/ou espaço, foram detectados os quatro tipos
textuais denominados descritivo, narrativo, dissertativo e injuntivo, na configuração dos seis textos aqui analisados. Assim, a superestrutura de cada um dos citados tipos contribui para o desenho da superestrutura do gênero acórdão, o qual emoldura ou formata o texto contido, ainda que o tipo injuntivo seja
aquele pragmática e funcionalmente dominante no gênero acórdão visto de maneira global.
Em todos os seis acórdãos pesquisados, sob um ângulo global de visão, são encontradas as categorias injuntivas: a listagem dos elementos a serem
manipulados (pretensos fatos ocorridos, petições jurídicas dos litigantes e sentença judicial recorrida), que são, em geral, sucintamente arrolados pelo uso dos tipos narrativo e descritivo isoladamente ou em fusão (constantes da Ementa, do Acórdão stricto sensu e do Relatório); a justificativa ou explicação (muito presente no Voto do relator e, via de regra, na Ementa Oficial); e a
determinação (havida no final do Acórdão stricto sensu e do Voto, além de, algumas vezes, repetida, explícita ou implicitamente, na Ementa). Mais: a função basilar inerente ao acórdão em sentido amplo parece ser a de veicular ordem judicial a ser cumprida pelo jurisdicionado.
Todavia, se do ângulo pragmático e funcional o texto de acórdão é injuntivo, restando marcado pela imperatividade, de um ângulo exclusivamente estrutural, abstraído da relação que enseja entre seus usuários imediatos, bem como de sua função e finalidade, é ele narrativo, estando presentes em seu interior características afetas a este tipo, a exemplo dos fatos inerentes ao julgamento ocorrido (detendo trama, enredo e personagens), ainda que com o
intuito de levar os leitores à prática de certa ação ou determinada abstenção de conduta e, por isso mesmo, restando impregnado pela imperatividade. Igualmente, as categorias da narração estão presentes no acórdão visto globalmente, apesar de não se fazerem presentes na ordem costumeira. A trama se desenrola em todas as partes do texto, ainda que suas partes denominadas
orientação e a complicação sejam encontradas, sobretudo, no Relatório. A parte da trama intitulada resolução aparece na Ementa, no Acórdão stricto sensu, ao final do Voto e na Certidão de Julgamento.
O tipo textual descritivo sempre aparece para identificar e tornar peculiar cada acórdão, situando-se no último parágrafo do trecho componente da Ementa
Oficial, quando, então, é ali funcionalmente relevante, ainda que não seja funcionalmente dominante na Ementa como um todo, sendo-o, a saber, o tipo dissertativo ou o injuntivo.
Em todos os mencionados excertos textuais descritivos, de modo padronizado, verificou-se existir em seqüência: a) identificação alfa-numérica do recurso intentado e ensejador do acórdão; b) em que modalidade de processo se concretizou o dito recurso; c) a câmara, turma ou plenário de tribunal julgador; d) a data da decisão terminativa do julgamento; e) a votação vencedora, por unanimidade ou maioria de votos; f) o nome do juiz relator do acórdão. Adiciona-se à descrição dos acórdãos oriundos dos tribunais superiores localizados em Brasília, após o seu número, a unidade do Estado Federal Brasileiro da qual o recurso teve origem, bem como, ao final, após o nome do relator, a data de publicação do acórdão no Diário Oficial da Justiça.
Ressalte-se que, apesar de o dito trecho da Ementa oficial do acórdão poder ser reescrito em forma narrativa, sob o prisma de sua função sócio-
comunicativa, é ele eminentemente composto pelo tipo descritivo, uma vez que se presta a: a) designar o processo ensejador do acórdão e este em si (categoria
acórdão que o termina (categoria da definição, ligada à expansão); c) a distinguir o acórdão e o processo que o contém dos seus pares (categoria da
individuação, ligada à expansão).
Vejam-se dois exemplos, extraídos, respectivamente, dos textos contidos nos acórdãos 2 e 6. Eis os trechos originais, seguidos de sua elucidação entre parêntesis:
a) “EDcl no AgRg no MS 23.605-1/MG – Sessão Plenária – j. 21.09.2005 –
v.u. – rel Min. Eros Grau – DUJ 14.10.2005” (Embargos de Declaração no
Agravo Regimental no Mandado de Segurança de número 23.605-1. Origem: Minas Gerais. Decisão de todo o colegiado. Dia da decisão: 21.09.2005. Acórdão por votação unânime, sem divergências. Relator: Ministro Eros Grau. Data de publicação do Acórdão no Diário Oficial da Justiça: 14.10.2005);
b) “Ap 263.692.5/4-00 – 8ª Câm. De Direito Público – j. 23.11.2005 – v.u. – rel. Des. José Santana” (Apelação de número 263.692.5/4. Ano do recurso: 2000. Decisão dos juízes da Oitava Câmara de Direito Público [do Tribunal de Justiça de São Paulo]. Dia da decisão: 23.11.2005. Acórdão por votação unânime, sem divergências. Relator: Desembargador José Santana).
Perceba-se que, sob a ótica funcional, os trechos acima detêm forma que comunica conteúdo moldado pelas categorias do tipo descritivo (designação,
definição e individuação). Por isso, inicia-se com a indicação ou nomeação do
recurso ensejador do acórdão que se proferiu, para, logo a seguir, definir-se,
delimitar-se o contexto processual em que o julgamento ocorreu e individuar-se
a decisão coletiva daí oriunda, ou seja, o acórdão.
O tipo textual narrativo aparece com freqüência na parte intitulada Acórdão
em sentido estrito, ainda que não seja aí dominante sob a ótica pragmática ou funcional, haja vista estar a narração a serviço do objetivo maior, a saber, a comunicação da decisão judicial coletiva proferida, a qual deverá ser cumprida pelos indivíduos envolvidos diretamente no processo (recorrido, recorrente e
seus advogados), bem como informada enquanto parâmetro de conduta aos enunciatários mediatos (operadores do direito) e à enunciatária última (a população). Assim, em que pese a farta presença do tipo narrativo no Acórdão em sentido estrito, o tipo textual injuntivo é nele o prevalente do ponto de vista funcional, pragmático.
Corroboram a afirmação de que o tipo narrativo é empregado no trecho chamado Acórdão stricto sensu os termos verbais que sempre compõem sua introdução e, pois, presentes em todos os seis acórdãos lato sensu aqui em análise e usados na voz passiva, no pretérito, em terceira pessoa. Ei-los: “vistos, relatados e discutidos estes autos [...]”. Igualmente, o sentido mesmo dos vocábulos, bem como parte do conteúdo havido no trecho denominado Acórdão
stricto sensu aponta para concretização de narração, já que uma das funções comunicativas, um dos objetivos do enunciador neste excerto é o de contar o resumo da sessão de julgamento ocorrida, datando-a e apontando o local em que aconteceu. É o que se dá com as expressões “Brasília, 21 de setembro de 2005” (Acórdão 1) e “São Paulo, 21 de setembro de 2005” (Acórdão 5).
No Relatório, o tipo textual narrativo, além de ser o mais empregado, é o
funcionalmente dominante. Sua função é a de contar os fatos acontecidos ou meramente alegados como ocorridos, incluindo em tal relato a leitura que deles fizeram os litigantes e os decorrentes argumentos jurídicos destes comunicados aos julgadores, tudo para que se encadeiem os episódios (fatos narrados) rumo à
resolução. Esta resolução restará efetivada por ocasião do proferimento dos votos entre si concordantes pertencentes a todos os julgadores ou dos votos harmônicos da maioria deles. Tal resolução será reproduzida como decisão imperativa em Certidão de Julgamento ou Extrato de Ata. Exatamente por isso, o Relatório nada mais é do que um histórico do processo desenvolvido a partir das versões de autor e réu e que, em parte, é situado lingüisticamente em um tempo já transcorrido e em um espaço muitas vezes diverso daquele dos
julgadores. Neste sentido, tome-se como exemplo o seguinte trecho integrante do Acórdão 3:
I) RELATÓRIO – O Exmo. Sr. Min. Paulo Gallotti: Cuida-se de recurso ordinário
interposto por Raul Alonso dos Reis, condenado, por homicídio simples, a 6 anos e 6
meses de reclusão, a serem cumpridos em regime semi-aberto, contra acórdão do TJRS que denegou o habeas corpus(B) ali manejado.
Pretende o recorrente cumprir a pena em estabelecimento prisional compatível com o
regime imposto na sentença, assim também concessão do benefício de trabalho externo, independentemente do desconto de um sexto da sanção.
O Ministério Público Federal opinou pelo provimento parcial do recurso.
É o relatório.
[VOTO] – O Exmo. Sr. Min. Paulo Gallotti (relator): conheço do apelo. [...]
Ante o exposto, considerando em parte prejudicado o recurso, lhe dou provimento, no
demais, para que o juízo da execução, afastada a exigência do cumprimento mínimo de
um sexto da pena, examine o pedido de trabalho externo formulado pelo recorrente.
É como voto.
CERTIDÃO DE JULGAMENTO – Certifico que a E. [Egrégia] 6ª T., ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
“A Turma, por unanimidade, conheceu parcialmente do recurso e lhe deu provimento,
nos termos do voto do Sr. Ministro-relator.”
(Itálicos do autor da tese)
Como se vê acima, narra-se a história de Raul dos Reis, já condenado e preso, além de vencido em julgamento proferido pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul no processo alvo do recurso por meio de ação de Habeas Corpus, de cuja decisão desfavorável recorreu a tribunal superior em Brasília para pedir
o direito ao trabalho externo, sendo, então, beneficiado por decisão da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, que ordenou ao Juiz fiscalizador e administrador do presídio e seus presos a desconsideração da prescrição legal sobre o pré-requisito de cumprimento prévio de um sexto da pena, com a exclusiva verificação do atendimento do preso aos demais pré-requisitos para o trabalho externo – o qual permite a redução do tempo de prisão.
Acrescente-se que, ao narrarem momentos da história já vivida por Raul, os verbos são empregados no passado. Também o são ao referirem-se a fenômenos antes ocorridos, como na expressão de Parecer do Ministério Público pelo provimento parcial do recurso perante o Superior Tribunal de Justiça. Diversamente, ao abordar o quadro descritivo da situação atual do recorrente, o Relatório contém verbos no presente. Todos estes aspectos microestruturais apontam para o emprego do tipo narrativo no trecho textual I.
Também corrobora a afirmativa da predominância do tipo textual narrativo no Relatório o restar claro haver ali parte de uma trama – com complicação e
orientação, mas sem a resolução e o resultado, os quais aparecem, adiante, no
Voto do relator e na Certidão de Julgamento, ou surgem antes, como partes da
Ementa e do Acórdão stricto sensu combinados, ainda que todas estas categorias da superestrutura do gênero acórdão tenham função pragmática preponderante outra que não aquela narrativa – ou enredo com seus personagens.
Quanto ao tipo textual dissertativo, esclareça-se que ele se faz presente de maneira abundante na Ementa Oficial e, sobretudo, no Voto do relator. Os excertos II e III abaixo transcritos, respectivamente, da Ementa do Acórdão 2 e do Voto contido no Acórdão 5, ilustram tal afirmação. Veja-se:
II) Ementa Oficial: O princípio da fungibilidade recursal(C) deve ser aplicado com parcimônia, sob pena de comprometer-se o sistema recursal previsto no Código de Processo Civil, principalmente quando há erro grosseiro na escolha do recurso cabível.
institutos processuais diversos, com ritos próprios em relação aos demais recursos previstos no Código de Processo civil.
(Itálicos no original)
III) VOTO – (...) da leitura dos autos, colhe-se que o magistrado representado limitou-se a exercer a jurisdição(F) e mesmo que fosse errôneo seu r. [recorrido] despacho, daí não poderia infligir ao Dr. Wilson sofrimento mental ou grave ameaça, conforme seriam indispensáveis para tipificar o delito do art. 1º da Lei 9.455 de 07.04.1907 (sic). Os atos tidos como configuradores dos delitos imputados, traduzem simples exercício da função jurisdicional, não se podendo cogitar de omissão ou descumprimento do dever legal e, muito menos, contra a Administração Pública.
Percebe-se que nos excertos II e III estão presentes algumas características indicadoras da utilização, no texto, dos tipos dissertativo e/ou argumentativo. Dentre outras, destacam-se:
a) acerca de aspectos de microestrutura textual: a1 – a existência de expressões veiculadoras de argumentação e de opinião que se quer compartilhar, tais como: “trata-se de”, “não se podendo cogitar”, “deve ser aplicado com parcimônia” e “sob pena de”; a2 – o emprego de termos denotadores de emoção com o intuito de manter a cumplicidade de parte dos interlocutores e dos enunciatários: “há erro grosseiro”, “simples exercício da função jurisdicional”; a3 – o uso de mecanismos comunicativos de retórica ou lógica prática, a exemplo daquele em que é simulada concessão argumentativa ao oponente para, logo a seguir, rebatê-la com mais ênfase e eficiência: “o magistrado representado limitou-se a exercer a jurisdição e mesmo que fosse errôneo seu r. [recorrido] despacho, daí não poderia infligir ao Dr. Wilson sofrimento mental ou grave ameaça, conforme seriam indispensáveis para tipificar o delito”;
b) quanto a aspectos de superestrutura tipológica textual parece haver: b1 – no primeiro excerto transcrito, aquele da Ementa, o emprego da via dedutiva (generalização – especificação), principiando-se com abordagem teórica do
princípio da fungibilidade recursal e terminando-se por aplicá-lo ao caso com a conclusão de que não caberia o emprego de tal princípio para que mandado de segurança e reclamação fossem substituíveis entre si, dada a grande diferença entre eles; b2 – no excerto III restou aplicada a via indutivo-dedutiva, já que se partiu da situação concreta relativa aos atos do juiz, passou-se pela verificação do disposto em tese na lei, e concluiu-se pela legalidade dos questionados atos do magistrado.
O tipo textual injuntivo surge na composição das partes do Acórdão lato
sensu denominadas Ementa Oficial, Acórdão stricto sensu e Voto do relator, sendo nelas, muitas vezes, funcionalmente dominante. Vejam-se os seguintes exemplos extraídos das aludidas partes contidas, de modo sucessivo, no texto 5 (vide apêndice):
IV) Ementa Oficial: [...] Arquivamento determinado, remetendo-se ao Ministério Público
cópia das peças que instruíram os autos(G), nos termos do art. 40 do CPP. [...]
... ACÓRDÃO – [...] Acordam, em Órgão Especial do TJSP, por v.u., determinar o
arquivamento dos autos, nos termos deste v. [venerável] acórdão, de conformidade com
o relatório e voto do relator, que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.
... [VOTO DO RELATOR] [...] Daí porque determina-se o arquivamento, remetendo-se ao
Ministério Público cópia das peças que instruíram os autos, nos termos do art. 40 do CPP [Código de Processo Penal].
(Itálicos do autor da tese)
Como se percebe, a ordem redigida na forma tipológica injuntiva, e cujo teor é a determinação de arquivamento do recurso contido no processo judicial levado a julgamento, é repetida em três partes estrategicamente bem colocadas na disposição estrutural do Acórdão lato sensu: a) naquela introdutória, a
Ementa Oficial; b) no Acórdão em sentido estrito, ou seja, na parte em que a decisão é tomada de modo colegiado; c) ao final do Voto do relator.
Outra perspectiva aqui considerada importante, para os fins da análise do gênero acórdão, é a que classifica os tipos textuais em argumentativo stricto
sensu e argumentativo lato sensu. Como se sabe, no tipo argumentativo stricto
sensu o escritor imagina que o leitor discorda do conteúdo do texto a ser produzido ou em fase de produção e, por isso, este precisa ser caracterizado pelo produtor como texto que transformará a opinião ou o pensamento do leitor, tornando-o partidário das idéias veiculadas no texto. Ao contrário, no tipo argumentativo lato sensu o escritor imagina haver concordância do leitor às idéias expressas no texto, ou o escritor não dá importância à opinião do leitor, ao qual considera subordinado sob o prisma hierárquico, ocorrendo, em ambos os casos, a argumentação apenas para justificar ou legitimar o conteúdo textual. Logo, o texto de acórdão parece ser produzido sob a ótica da prévia existência de cumplicidade parcial e da superioridade hierárquica do enunciador.
Os textos contidos nos acórdãos ora em análise são caracterizados,
funcionalmente, de modo preponderante, como tipologicamente argumentativos em sentido amplo. Assim, possivelmente, eles não estejam redigidos de modo a alcançar, ou ao menos pretender, a cumplicidade ou concordância da pessoa que perde a lide e, pois, que tem contra si o conteúdo de ordem judicial emanada de acórdão. Pelo contrário, os textos dos acórdãos permitem a antevisão de que aceitam o inconformismo e frustração do vencido no processo, e até a discordância de seu advogado, haja vista serem eles apenas alguns dos enunciatários imediatos do discurso reduzido a texto pelo emprego do atributo imperatividade.
O que se procura ante os derrotados é a aceitação terminativa do processo de modo empiricamente inquestionável, salvo possibilidade de questionamento em conformidade às regras do Direito. Por causa disso, é que o enunciador se
permite até agredir verbalmente o enunciatário vencido no processo, quer dando-lhe lição de moral, quer agindo como se ele fosse tolo ou despido de conhecimento e senso crítico jurídico. Exemplificam as afirmações acima expressões como: “O inconformismo contra decisão judicial na via do recurso há de ser reservado pelo Órgão [Ministério Público], atuando como fiscal da lei, a situações concretas em que surja de início ilegalidade, o que não se verifica na espécie” (vide Voto do relator, Acórdão1); “[...] há erro grosseiro na escolha da via recursal” e “Vê-se para logo inexistir qualquer omissão no acórdão de f., que demonstrou de maneira fundamentada o erro perpetrado pelo embargante” (vide Voto do relator, Acórdão 2).
Igualmente, não se pode olvidar ser cada texto de acórdão detalhado em justificativas e permeado pela utilização dos recursos da lógica prática ou retórica. Assim o é, ao que se infere, para o alcance do objetivo, pelo enunciador e, conseqüentemente, pela instituição que se expressa por meio dele, da
manutenção da concordância e da cumplicidade dos operadores jurídicos e da população do Brasil que o enunciador acredita já possuir.
Eis porque convivem no mesmo texto expressões imperativas que não se dignam a considerar eventuais discordâncias – tais como “nego provimento ao recurso” (Acórdão 1, Voto) e “ante o exposto, rejeito os embargos” (Voto do relator, Acórdão 2) – e excertos que buscam manter a adesão dos pretensos cúmplices, sejam eles os julgadores colegas do relator, sejam os operadores do direito, seja até a população em geral, tais como a maior parte das expressões contidas no Voto de cada acórdão em que prevalece o argumento de autoridade por meio de citações de artigos de lei, de ementas de acórdãos anteriores, de trechos de doutrinador do direito (vejam-se o Voto dos acórdãos 2, 4 e 6).
O terceiro prisma vinculado a aspectos estruturais e tipológicos e, pois, aqui considerado importante, é aquele que permite ao produtor do texto imbuir- se da perspectiva do comprometimento ou do não comprometimento com o que
se está a exprimir no texto. Na primeira situação, tem-se a presença do mundo
comentado, prevalente de modo global nos acórdãos, enquanto na segunda, tem-