• Nenhum resultado encontrado

CATEQUESE EM SITUAÇÃO DE PLURALISMO E DE COMPLEXIDADE

No documento DIRETÓRIO PARA A CATEQUESE (páginas 117-121)

CAPÍTULO IX - A comunidade cristã, sujeito da catequese

1. CATEQUESE EM SITUAÇÃO DE PLURALISMO E DE COMPLEXIDADE

CAPÍTULO X - A catequese diante dos cenários culturais contemporâneos

319. A catequese tem uma intrínseca dimensão cultural e social, na medida em que se coloca numa Igreja inserida na comunidade humana. Nela os discípulos do Senhor Jesus partilham «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje» (GS 1). A tarefa de ler os sinais dos tempos está sempre viva, sobretudo neste tempo, que se afigura como uma viragem epocal e marcado por contradições e, ao mesmo tempo, por anseios de paz e justiça, de encontro e solidariedade. A catequese participa do desafio eclesial de se opor a processos centrados na injustiça, na exclusão dos pobres, no primado do dinheiro para se constituir, pelo contrário, em sinal profético de promoção e de vida plena para todos. Estes não são apenas temas a que se deve dar espaço, mas atenções constitutivas da catequese e da pastoral eclesial; são sinais de uma catequese plenamente ao serviço da inculturação da fé. Em seguida serão focadas algumas questões culturais, sociais, religiosas que convidam os cristãos a recordar que

«evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo»1.

1. CATEQUESE EM SITUAÇÃO DE PLURALISMO E DE COMPLEXIDADE

320. A cultura contemporânea é uma realidade muito complexa, uma vez que, devido aos fenómenos da globalização e do uso massivo dos meios de comunicação, aumentaram as conexões e as interdependências entre questões e sectores que, no passado, era possível considerar em separado e que hoje, pelo contrário, requerem uma abordagem integrada. No mundo atual, com efeito, fundem-se continuamente progressos do conhecimento e das tendências culturais, globalização dos modelos de vida e condicionamentos dos sistemas económico-políticos, sentido de pertença étnica e religiosa, questões sociais antigas e novas, gerando situações concretas variadas e flutuantes. Nesta condição de grande complexidade, os homens colocam-se diante da vida e da fé em formas muito diversificadas, dando origem a um pluralismo cultural e religioso particularmente acentuado e dificilmente catalogável.

321. Esta realidade, tão heterogénea e mutável, tanto do ponto de vista sociocultural como religioso, precisa de ser lida de modo que seja percetível a sua poliedricidade2 e que cada aspeto mantenha a sua validade e peculiaridade mesmo na relação variada com a totalidade. Esta abordagem interpretativa permite que se leia os fenómenos de

pontos de vista diferentes, mas colocando-os em relação entre si. É importante que a Igreja, que quer oferecer a beleza da fé a todos e a cada um, esteja consciente desta complexidade e amadureça um olhar mais profundo e sábio em relação à realidade.

Uma condição destas obriga ainda mais a assumir a perspetiva sinodal como metodologia coerente com o percurso que a comunidade é chamada a realizar. É um caminho comum no qual confluem presenças e papéis diversos, de modo que a evangelização se realize de modo mais participado.

322. Na vertente mais estritamente religiosa, são muitos os contextos locais em que a Igreja vive num ambiente ecuménico ou multi-religioso; mas, muitas vezes, mesmo entre cristãos crescem formas de indiferença e insensibilidade religiosa, relativismo ou sincretismo tendo como pano de fundo uma visão secularizada que nega qualquer abertura à transcendência. Diante dos desafios colocados por uma certa cultura, a primeira reação poderá ser a de se sentir confuso e desorientado, incapaz de se confrontar e de avaliar os fenómenos subjacentes. Isto não pode deixar indiferente a comunidade

1 EG 176.

2 Utiliza-se o modelo do poliedro, antes de mais, para explicar a relação entre localização e globalização: cf. EG 236 e FRANCISCO,

Mensagem para o III Festival da Doutrina Social da Igreja (21 de novembro de 2013).

Este modelo pode também iluminar a reflexão sobre o significado dos carismas e dos dons na unidade eclesial: cf. FRANCISCO, Discurso ao movimento do Renovamento Carismático (3 de julho de 2015) e ChV 207. Por último, ele acompanha a dinâmica do discernimento pastoral de situações complexas: cf. AL 4. É neste último sentido que é entendido aqui.

cristã, que além de ser chamada a anunciar o Evangelho a quem não o conhece, é também chamada a apoiar os seus filhos na consciência da sua fé. O valor que a cultura atual reconhece à liberdade em relação à escolha da fé de cada um pode ser compreendido como uma preciosa oportunidade para que a adesão ao Senhor seja um ato profundamente pessoal e gratuito, maduro e consciente. Por este motivo, torna-se evidente o vínculo profundo que a catequese deve ter com a evangelização. Ela forma nos cristãos uma identidade clara e segura, serenamente capaz de, em diálogo com o mundo, dar razão da esperança cristã com mansidão, respeito e consciência reta (cf. 1Pd 3,15-16).

323. Do ponto de vista sociocultural, é inegável que os processos de comunicação de massa conheceram uma aceleração notável e muito contribuíram para produzir uma mentalidade global que, se por um lado dá a todos e imediatamente a possibilidade de se sentirem membros da grande família humana, partilhando projetos e recursos, por outro lado aplana e homologa, acabando por tornar as pessoas vítimas de um poder muitas vezes anónimo. Além disso, «vivemos numa sociedade da informação que nos satura indiscriminadamente com dados, todos postos ao mesmo nível, e acaba por nos conduzir a uma tremenda superficialidade, no momento de enquadrar as questões morais. Por conseguinte, torna-se necessária uma educação que ensine a pensar criticamente e ofereça um caminho de amadurecimento nos valores»3.

324. A comunidade eclesial é chamada a olhar com espírito de fé para a sociedade em que vive, a «descobrir o fundamento das culturas, que no seu núcleo mais profundo permanecem sempre abertas, sequiosas de Deus»4, a interpretar os significados das alterações culturais em curso para lhes levar o Evangelho da alegria que tudo renova e vivifica. Por esta razão, estará desejosa de entrar naqueles nós existenciais, âmbitos antropológicos e areópagos modernos onde se criam as tendências culturais e são modeladas novas mentalidades: a escola, a investigação científica e o ambiente de trabalho; a área das redes sociais e da comunicação; o âmbito dos esforços pela paz, pelo desenvolvimento, pela salvaguarda da criação, pela defesa dos direitos dos mais fracos; o mundo do tempo livre, do turismo, do bem estar; o espaço da literatura, da música e das várias expressões artísticas.

325. O rosto multiforme da realidade, marcada por elementos ambivalentes de pluralismo religioso e cultural é visível, em última análise, em cada homem, cuja fisionomia interior é hoje particularmente dinâmica, complexa e poliédrica. É o serviço ao homem concreto a razão última para a Igreja olhar para as culturas humanas e, em atitude de escuta e diálogo, examinar todas as coisas mantendo o que é bom (cf. 1Ts 5,21). Será a Igreja particular, e nela cada comunidade cristã ou grupo eclesial, o agente deste discernimento pastoral que visa formular a compreensão do querigma mais adequada às várias mentalidades, para que o processo da catequese esteja verdadeiramente inculturado nas múltiplas situações e o Evangelho ilumine a vida de todos. A avaliação pastoral terá ainda em conta alguns espaços humanos que têm características típicas: o contexto urbano das grandes cidades, o contexto rural e o das culturas locais tradicionais.

O contexto urbano

326. A realidade da cidade e, de modo especial, dos grandes aglomerados metropolitanos é um fenómeno multiforme e global que se torna cada vez mais determinante para a humanidade, porque, tocando de vários modos o concreto da vida quotidiana, influi na compreensão que o homem tem de si, das relações que experimenta, do próprio sentido da vida. Em relação às culturas rurais ou à situação urbana anterior, nas cidades modernas os modelos culturais são muitas vezes gerados por outras instituições, já não pela comunidade cristã, com «outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus»5. Isto não significa que, na vida da cidade, esteja ausente um sentido religioso, ainda que mediado por formas diferentes, que, portanto, é necessário descobrir e apreciar. A Igreja é chamada a seguir com humildade e audácia o rasto da presença de Deus e a «identificar a cidade a partir dum

3 EG 64.

4 FRANCISCO, Discurso aos participantes no Congresso internacional da pastoral das grandes cidades (27 de novembro de 2014). 5 EG 73.

olhar contemplativo, isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças»6 , tornando-se, diante das ambivalências e contradições das vivências sociais,

«presença profética que saiba levantar a voz em relação a questões de valores e princípios do Reino de Deus»7.

327. Na linha de uma presença pastoral que saiba iluminar com a palavra do Senhor o coração da cidade «onde são concebidas as novas histórias e paradigmas»8, a proposta catequética deverá ser um anúncio querigmático transparente, humanizante e carregado de esperança em relação à segregação, à desumanidade e à violência que emergem frequentemente nos grandes contextos urbanos. «A proclamação do Evangelho será uma base para restabelecer a dignidade da vida humana nestes contextos, porque Jesus quer derramar nas cidades vida em abundância (cf. Jo 10,10)»9.

328. Se para muitos a vivência urbana pode constituir uma ocasião única para a abertura a novas perspetivas, à partilha fraterna e à realização da vida de cada um, não poucas vezes torna-se paradoxalmente o lugar da maior solidão, desilusão e desconfiança, como também se transforma em espaço onde acabam por conviver várias categorias sociais que se ignoram ou desprezam. Esta é ocasião para voltar a propor de maneira criativa uma catequese inspirada no catecumenato, capaz de oferecer contextos comunitários de fé em que, vencendo o anonimato, se reconhece o valor de cada pessoa e a todos é oferecido o bálsamo da fé pascal para aliviar as feridas. No contexto do processo catequético, podem-se «imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais atraentes e significativas para as populações urbanas»10, por exemplo com a criação de sinais e narrativas que restituem o sentido de pertença à comunidade que, na cidade, pode facilmente vir a faltar. Uma catequese urbana de inspiração catecumenal pode transformar a paróquia em comunidade de comunidades, que, fazendo experimentar uma real proximidade fraterna, revela a maternidade da Igreja e dá um testemunho concreto de misericórdia e ternura, que gera orientação e sentido para a própria vida da cidade.

O contexto rural

329. Apesar de o processo de urbanização em curso ser relevante, não se pode esquecer os numerosos contextos rurais em que vivem diversos povos e nos quais a Igreja está presente, partilhando alegrias e sofrimentos. Nos nossos tempos, esta proximidade deve ser reiterada e renovada para ajudar as comunidades do mundo rural a orientar-se diante das transformações que se arriscam a arrastar a sua identidade e os seus valores. A terra é o espaço em que é possível fazer experiência de Deus, lugar em que Ele Se manifesta (cf. Sl 19,1a7). Nela – que não é fruto do acaso, mas dom do seu amor (cf. Gn 1a2) – o Criador deixa transparecer a sua proximidade, a sua providência e a sua atenção para com todos os seres vivos, em particular para com a família humana.

Da sucessão das estações e das vicissitudes do mundo agrícola, o próprio Jesus obteve algumas das suas parábolas e ensinamentos mais belos. Partindo da criação para chegar ao Criador, a comunidade cristã sempre encontrou caminhos de anúncio e de catequese, que é sábio retomar de modo novo.

330. O cultivo da terra, o cuidado das plantas e dos animais, o alternar do dia e da noite, a cadência das semanas, dos meses e das estações são apelos para respeitar os ritmos da Criação, para viver a quotidianidade de modo sadio e natural, reencontrando deste modo o tempo para si mesmos e para Deus. Esta é a mensagem de fé que a catequese ajuda a descobrir, mostrando a sua realização no carácter cíclico do ano litúrgico e nos elementos naturais assumidos pela liturgia. Além disso, a cultura agrícola conserva de maneira mais visível valores aos quais não se incentiva na atual sociedade de consumo – como a simplicidade e a sobriedade no estilo de vida, o acolhimento e a solidariedade nas relações sociais, o sentido do trabalho e da festa, a salvaguarda da Criação – que são uma pista já

6 EG 71.

7 V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE,

No documento DIRETÓRIO PARA A CATEQUESE (páginas 117-121)